Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O conceito de DESAMPARO para a Psicanálise

Por Max Halberstadt - Esta imagem está disponível na Divisão de Gravuras e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos com o número de identificação digital cph.3g04946.Esta marcação não indica o estado dos direitos de autor da obra aqui mostrada. Continua a ser necessária uma marcação normal de direitos de autor. Veja Commons:Licenciamento para mais informações., Domínio público. 

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Freud introduz a Hilflosigkeit de forma sistemática já em 1895, no "Projeto para uma Psicologia Científica", onde descreve o desamparo inicial do ser humano como a "fonte primordial de todos os motivos morais". O ponto de partida é a incapacidade do organismo jovem de descarregar, por meios próprios, as tensões endógenas, como a fome ou a sede. Quando a tensão se acumula no aparelho psíquico sem que haja uma via de escoamento, instala-se uma situação de perigo. O bebê grita, mas o grito, inicialmente, é apenas uma descarga motora involuntária. Ele só se torna um apelo, uma mensagem, quando um Outro interpretante (geralmente a mãe ou quem exerça a função materna) atribui sentido a esse ruído.

Essa dependência não é apenas física, mas radicalmente psíquica. O Outro não fornece apenas o alimento; ele fornece o anteparo contra o excesso de estímulos que o aparelho rudimentar do bebê não consegue processar. O desamparo original revela que o eu não é uma unidade autônoma desde o princípio, mas uma construção que depende do reconhecimento e do investimento libidinal de outrem. Sem esse investimento, o desamparo evolui para o aniquilamento. É nesta lacuna entre a necessidade biológica e a satisfação mediada pelo Outro que nasce o desejo. O objeto da necessidade (o leite) é acompanhado por um excedente de prazer (o calor, o toque, o olhar), e é a busca pela repetição desse prazer que movimenta a economia psíquica. Portanto, o desamparo é o motor que empurra o sujeito para o campo do social e da linguagem, pois é preciso nomear o que falta para que o Outro possa intervir.

A Dimensão Traumática e o Excesso de Excitação

Avançando na teoria, especialmente em "Inibição, Sintoma e Angústia" (1926), Freud redefine o desamparo como a essência mesma da situação traumática. Aqui, a distinção entre perigo real e perigo pulsional torna-se crucial. O desamparo ocorre quando o ego se vê confrontado com um acúmulo de excitação, seja de origem externa ou interna (pulsional), que ele não consegue dominar, vincular ou descarregar. Essa inundação de energia rompe o "parastímulos" (Reizschutz), a barreira protetora do psiquismo, gerando o que Freud chama de angústia automática.

Diferente da angústia sinal, que é uma função de alerta do ego para evitar o perigo, a angústia do desamparo é o próprio perigo consumado. É a sensação de dissolução do self diante de uma força que o transcende. No desamparo psíquico, o sujeito perde a capacidade de prever ou controlar seu ambiente interno. Essa vulnerabilidade é a base de todas as neuroses futuras. O medo da perda do objeto, ou o medo da perda do amor do objeto, são derivações diretas do desamparo original. Se o objeto que me protege e me dá sentido se vai, eu retorno ao estado de impotência absoluta. Assim, a Hilflosigkeit não é apenas um evento do passado, mas uma sombra que paira sobre o ego, lembrando-o constantemente de sua fragilidade constituinte. O trauma, sob essa ótica, é o encontro direto com o desamparo sem a mediação de qualquer defesa simbólica.

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Desamparo e a Constituição do Vínculo Social

O estado de desamparo humano projeta o indivíduo para fora de si mesmo, forçando a criação de laços sociais e instituições culturais. Freud explora essa faceta em "O Mal-estar na Civilização" e "O Futuro de uma Ilusão". O sentimento de desamparo diante das forças da natureza, da finitude do corpo e da complexidade das relações humanas leva o homem a buscar figuras de proteção que mimetizem o cuidado parental da infância. A religião, por exemplo, é interpretada por Freud como uma tentativa de negar o desamparo através da criação de um Pai benevolente e onipotente que governa o universo.

Contudo, essa busca por proteção tem um custo: a renúncia pulsional. Para não ser abandonado pelo grupo (o que significaria retornar ao desamparo), o indivíduo aceita as restrições da cultura. O desamparo, portanto, funciona como a "cola" que sustenta a civilização, mas também como a fonte de sua angústia crônica. Na clínica contemporânea, observamos que o desamparo muitas vezes se manifesta como uma patologia do vazio ou estados-limite (borderline), onde o sujeito não conseguiu construir representações internas sólidas o suficiente para suportar a ausência do objeto. Nesses casos, o desamparo não é apenas uma memória, mas uma vivência atual e aterrorizante de desmoronamento subjetivo. A análise, então, visa não "curar" o desamparo, que é ineliminável, mas permitir que o sujeito passe do desamparo traumático para um desamparo passível de ser simbolizado e suportado.

Considerações Éticas e Clínicas sobre a Hilflosigkeit

Na direção do tratamento, o reconhecimento do desamparo altera a postura do analista. Se o paciente se encontra em um estado de regressão profunda ao desamparo original, o analista não pode ser apenas um espelho neutro; ele precisa, por vezes, exercer uma função de sustentação (holding) e de tradução das intensidades não simbolizadas. O rigor terminológico nos lembra que o desamparo é diferente da castração. Enquanto a castração lida com o limite, com a lei e com o "não", o desamparo lida com o "nada", com o abismo da falta de recursos.

A ética da psicanálise propõe que o sujeito possa se apropriar de seu desamparo, reconhecendo que a dependência do Outro é o que nos torna humanos, mas que a autonomia possível nasce justamente do luto por essa proteção onipotente que nunca existiu de fato. Ao aceitar a Hilflosigkeit, o indivíduo liberta-se da busca incessante por salvadores e pode, talvez pela primeira vez, sustentar seu próprio desejo diante do inesperado da vida. O desamparo é, em última análise, a condição de possibilidade para a alteridade: porque sou incompleto e desamparado, o outro me é necessário, e é nessa interdependência que a existência ganha contornos éticos e estéticos. O fim de uma análise não promete a autossuficiência, mas a capacidade de lidar com a falta sem ser aniquilado por ela.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 1: Primeiros escritos psicológicos (1892-1899). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 16: Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 18: O mal-estar na cultura e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.