| Cartaz do filme Spanking the Monkey (1994) |
Direção: David O. Russell
Atores: Carlen Altman, Bob Byington e Kate Lyn Sheil
Linguagem: Inglês
País: USA
Duração: 1h:40min
Sinopse: Prestes a iniciar um estágio de verão no MIT, Raymond, um jovem e promissor estudante de medicina, vê sua mãe, Susan, quebrar a perna. Confinado em casa e sem poder se locomover, Raymond é obrigado por seu pai, Tom, a cuidar dela. Susan é uma mulher problemática e, somada aos próprios problemas emocionais de Raymond, isso os leva a um contato físico íntimo, o que deixa Raymond desconfortável. Logo depois, ele conhece Toni, uma garota do ensino médio, mas sua capacidade de iniciar um relacionamento com ela é difícil, devido aos eventos recentes e emocionalmente perturbadores em sua vida.
Análise
O filme Spanking the Monkey (1994), estreia de David O. Russell, permanece como uma das obras mais desconfortáveis e cruas do cinema independente americano. Embora frequentemente rotulado como uma comédia de humor negro, uma análise profunda sob o viés da psicanálise revela um drama trágico sobre a falha da individuação, o colapso das fronteiras egóicas e a manifestação destrutiva do Complexo de Édipo em sua forma mais literal e sombria.
O Deserto do Real e a Castração Simbólica
A premissa do filme coloca Raymond, um jovem brilhante com uma bolsa de estudos para o prestigiado MIT, de volta ao ambiente claustrofóbico da casa de seus pais durante o verão. Desde o início, a psicanálise nos convida a observar o conflito entre o Desejo e a Lei. Raymond representa o sujeito que está prestes a entrar na "Ordem Simbólica" (o mundo acadêmico, a carreira, a vida adulta independente), mas é violentamente puxado de volta para o "Real" das necessidades corporais e familiares.
A ausência do pai, um vendedor itinerante narcisista e autoritário, é o primeiro motor da tragédia. Na estrutura freudiana clássica, o pai exerce a função de castração simbólica, ele é o terceiro elemento que rompe a díade mãe-filho, proibindo o incesto e permitindo que o filho busque objetos de desejo fora do núcleo familiar. No filme, o pai de Raymond falha miseravelmente nessa função. Ele está fisicamente ausente, mas sua sombra é castradora de uma forma perversa: ele exige que Raymond cuide da mãe ferida, forçando o filho a assumir o lugar de cuidador (e, eventualmente, substituto emocional) que pertenceria a ele.
A Mãe Devoradora e o Colapso das Fronteiras
Susan, a mãe, é a figura central do que Carl Jung e outros teóricos chamariam de "Mãe Devoradora". Devido a uma perna quebrada que a mantém presa ao leito, ela se torna uma presença paralisante. A imobilidade física de Susan espelha a imobilidade psíquica de Raymond.
Sob a ótica lacaniana, Susan não consegue esconder sua falta. Ela projeta em Raymond suas frustrações sexuais e existenciais, borrando deliberadamente as fronteiras entre o cuidado materno e a sedução. O ambiente da casa torna-se regredido; o calor sufocante do verão e a rotina de higiene íntima (como ajudar a mãe a urinar ou se lavar) desmantelam o pudor necessário para a manutenção da saúde psíquica.
Nesse cenário, o ato de de "masturbar" (referenciado no título original) não é apenas uma exploração sexual adolescente, mas uma tentativa desesperada de Raymond de encontrar prazer autônomo e aliviar a tensão em um ambiente onde sua identidade está sendo suprimida pelo desejo da mãe. No entanto, mesmo esse ato é invadido pela vigilância materna, simbolizando que não há espaço privado para o Ego de Raymond se fortalecer.
O Incesto como Fracasso da Metáfora Paterna
O clímax do filme, o ato incestuoso, não deve ser lido como um momento de liberação sexual, mas como o colapso total da estrutura psíquica de Raymond. Quando o tabu do incesto é quebrado, o "Nome-do-Pai" (a lei moral) deixa de funcionar.
Para a psicanálise, o incesto é o retorno ao estado de indiferenciação. Raymond deixa de ser um sujeito para se tornar um objeto de satisfação da mãe. O horror da cena não reside apenas na moralidade social, mas na percepção de que Raymond "morreu" como indivíduo independente naquele momento. A vergonha que se segue é avassaladora porque o superego de Raymond, embora fraco para impedir o ato, é forte o suficiente para reconhecer a desintegração de sua própria humanidade.
A tentativa de suicídio de Raymond após o ato é a resposta lógica do Ego ao perceber que o futuro (o MIT, a namorada, a vida adulta) foi devorado pelo passado primitivo. Ele tenta destruir o corpo que se tornou o local da transgressão imperdoável.
O Papel do Pai e a Repetição do Trauma
O retorno do pai e sua reação de negação e agressividade fecham o ciclo neurótico. Ao invés de reconhecer sua responsabilidade no abandono da dinâmica familiar, o pai culpa Raymond, reforçando a projeção de suas próprias falhas.
O final do filme é profundamente pessimista do ponto de vista psicanalítico. Embora Raymond consiga sair de casa, ele o faz como um sujeito fragmentado. A "mancha" do incesto e a falha na separação da figura materna sugerem o que Freud chamava de compulsão à repetição. Sem uma intervenção terapêutica ou uma reestruturação profunda, Raymond está condenado a carregar o peso de um desejo que nunca foi seu, mas sim uma imposição do Outro.
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