A relação entre a subjetividade humana e a fé ganha um novo capítulo acadêmico. A prestigiada revista Estudos de Religião anunciou a chamada para o seu volume N. 3/26, que terá como tema central "Religião, laço social e Psicanálise". O dossiê busca explorar as complexas e, por vezes, ambivalentes conexões entre o campo clínico-teórico fundado por Freud e a experiência religiosa contemporânea.
Desde os primórdios da psicanálise, a religião foi frequentemente lida sob a lente da "neurose obsessiva coletiva". No entanto, o novo edital destaca que, para além do reducionismo, a experiência religiosa oferece um "degradê simbólico e afetivo" essencial. Elementos como o "sentimento oceânico", o amparo junto ao Outro e a mobilização de grupos em contextos que a política tradicional não alcança, tornam-se objetos urgentes de análise.
Um Campo de Investigação Cruzado
A proposta dos organizadores é enfrentar o desafio da imanência religiosa no campo político e na subjetividade geral. O dossiê não apenas convida a psicanálise a pensar o fenômeno religioso, mas também propõe o inverso: que as ciências sociais e da religião interroguem a própria psicanálise em suas falhas, recalques e recusas diante das tradições espirituais.
Entre os eixos temáticos destacados na chamada, figuram discussões de alta relevância social e clínica:
Tradição judaico-cristã e sentimento de culpa:
análise do sentimento de culpa na tradição judaico-cristã fundamentado
na noção de pecado, e sua implicação no desenvolvimento da psicanálise, a
partir de Freud.
Neoliberalismo, religião e subjetividade humana: o
funcionamento religioso do capitalismo na relação do mercado como o
Grande Outro e o novo sujeito neoliberal frente ao mercado.
Religiosidade, espiritualidade e psicanálise: como
as imagens do absoluto/divino, por meio de experiências de cuidado e
desamparo, ofertam ao ser humano o estabelecimento de uma
espiritualidade e/ou um reposicionamento ético.
Religião e sua intersecção com outros marcadores sociais da diferença:
análises que discorram sobre a construção dos sujeitos sociais a partir
da relação das práticas religiosas com outros marcadores sociais, tais
como, raça, gênero, sexualidade, geração e território.
Religião e grupalidade: analisar os impactos dos discursos e das práticas religiosas nas configurações familiares, conjugais e em grupos sociais.
Religião e política: analisar sobre como as
religiões se inserem em dinâmicas políticas, tanto num plano social
quanto num plano institucional e em seu papel como possibilidade de
norteamento e resposta para demandas sociais.
Psicanálise, religião e contextos de violência extrema: reflexões
sobre como a espiritualidade opera como recurso de sentido e
resistência frente a situações-limite, como a guerra, a tortura, o
genocídio, os campos de concentração e a violência urbana.
Psicanálise, ciência e pós-verdade: como essa nova
gramática tensiona a relação entre psicanálise e religião a partir dos
atravessamentos pelas questões que envolvem o que seria a verdade.
Escuta clínica, racismo religioso e desigualdade simbólica: análises
sobre como diferentes expressões religiosas são ou não reconhecidas nos
consultórios, com atenção a apagamentos, exotizações e julgamentos
morais.
A institucionalização da religião no Estado brasileiro e seus efeitos subjetivos: investigações sobre como essa nova configuração político-religiosa transforma as formas de escuta, sofrimento e crença.
Corpo Editorial e Prazos
O dossiê conta com a organização de nomes de peso no cenário acadêmico nacional e internacional: Edin Sued Abumanssur (PUC-SP), Gabriel Inticher Binkowski (USP), Jacqueline Moraes Teixeira (USP), Marina Garcia Sawaya (USP/Paris Cité) e Thales Martins dos Santos (UMESP).
Esta é uma oportunidade valiosa para pesquisadores das áreas de Psicologia, Sociologia, Teologia e Filosofia apresentarem trabalhos inéditos que ampliem o diálogo entre a escuta do inconsciente e o fenômeno sagrado.
Serviço:
Tema: Religião, laço social e Psicanálise (N. 3/26).
Prazo para envio de artigos: Até 30 de outubro de 2026.
Público-alvo: Pesquisadores, doutores e especialistas das áreas correlatas.
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