A revista acadêmica O Eixo e a Roda anunciou a abertura de submissões para seu volume 35, n. 3, com uma temática urgente e profunda: "Regimes e formas de violência. Ética, representação, interpretação". O dossiê, previsto para publicação entre julho e setembro de 2026, propõe um mergulho crítico em como a literatura contemporânea lida com as marcas da memória e do trauma.
A organização está a cargo de um trio de pesquisadores de renome internacional: Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG/CNPq), Jobst Welge e Janek Scholz (ambos da Universität Leipzig, Alemanha). A parceria reforça o caráter transnacional da discussão, conectando as experiências brasileiras a perspectivas teóricas globais.
A Literatura como Campo de Reflexão Ética
O foco da chamada ultrapassa a mera função de "arquivo" da literatura. Os organizadores questionam as implicações de se retratar a violência: existe um voyeurismo inerente nessa representação? Qual o papel ético da estética diante do horror?
Baseando-se em autores como o brasileiro Julián Fuks e a finlandesa Hanna Meretoja, o dossiê busca entender como a ficção do século XXI incorpora elementos ensaísticos e o "hipotético" para transcender a realidade e refletir criticamente sobre repressões, ditaduras e traumas históricos.
Ementa
Nos anos recentes, a violência tem sido considerada na literatura principalmente em termos da inscrição de lembranças dolorosas na memória coletiva. Os memory studies, em diferentes áreas do conhecimento, forneceram uma ampla gama de ferramentas conceituais para a reflexão sobre essa inscrição. A proposta Regimes e formas de violência. Ética, representação, interpretação volta-se para a função arquivística dos textos, mas sobretudo, intenta a reflexão sobre as implicações hermenêuticas e éticas da figuração literária de tais lembranças. O que significa retratar a violência por meio da literatura? Não há sempre um voyeurismo inerente em toda representação de violência? Qual é a tarefa ética da literatura e que meios estéticos existem para cumpri-la (especialmente com relação a representações de violência)? Isso também envolve a elaboração de processos estéticos de mediação, cujas diferentes funções são também condicionadas pela distância temporal dos textos em relação aos eventos representados. O romancista brasileiro Julián Fuks destacou o quanto a ficção romanesca contemporânea (seguindo o modelo de W. G. Sebald) incorpora elementos ensaísticos, precisamente como uma forma não apenas de representar, mas de refletir criticamente sobre as experiências de violência e suas consequências: “[…] um conjunto grande de escritores vem se incumbindo de promover uma reflexão sobre as repressões várias, as violências oficiais, as incontáveis formas de autoritarismo, os muitos traumas históricos” (Fuks 2021, 172). Metodologicamente, isso significa questionar qual é a função genuína da ficção para a reflexão ética sobre a violência. Por exemplo, em seu livro The Ethics of Storytelling (2017), a estudiosa finlandesa Hanna Meretoja considerou questões narratológicas a partir de uma perspectiva ética e hermenêutica. No que diz respeito à representação de eventos históricos violentos, isso significa que muitas narrativas contemporâneas exploram o hipotético, ou seja, uma extensão imaginativa do real que transcende deliberadamente a dimensão da referencialidade. Esta ideia de extensão imaginativa é também enraizada na noção do sujeito como o lugar da experiência vivida e da reflexividade. Como Meretoja sugere, esta dimensão da possibilidade do real é de fato característica de tendências mais amplas na literatura contemporânea, na medida em que os textos literários desafiam a dicotomia entre o real e o possível.
Em contraste com outras formas de representação, a literatura comumente se preocupa com a dimensão da experiência direta da violência, por meio da qual sua representação literária levanta questões éticas urgentes sobre responsabilidade e o “sofrimento dos outros” (Arendt; Falke et al.; Rothberg; Sontag). Propõe-se, aqui, a discussão sobre as implicações e consequências éticas, estéticas e narratológicas para o presente, como resultado da revisão literária de experiências históricas de violência - entre experiência, memória e “processamento” ou reparação. O dossiê está aberto a contribuições que examinem representações literárias de experiências pós-coloniais e pós-ditatoriais de violência no Brasil. O foco está principalmente na “revisão”, desde a distância temporal, das condições de violência política (por exemplo, em uma perspectiva transgeracional) em obras da literatura contemporânea do século XXI. Além disso, propõe-se uma discussão das implicações hermenêutico-éticas das representações da violência e dos processos estéticos da mediação.
É prevista uma divisão em três seções temáticas: primeira, regimes (violência política, ditadura); segunda, estruturas (relações pós-coloniais de posse e exploração); e terceira, corpos (violência interpessoal e sexualizada).
Prazo para submissão: 31/03/2026
Para mais informações, acessem: https://periodicos.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/announcement/view/724