O termo ab-reação (do alemão Abreagieren) surge no cenário da psicopatologia no final do século XIX, especificamente nos "Estudos sobre a Histeria" (1895). Naquela época, Freud e seu mentor, Josef Breuer, buscavam entender por que certos pacientes apresentavam sintomas físicos, como paralisias, tosses ou cegueiras, sem qualquer causa orgânica aparente. A descoberta fundamental foi que esses sintomas eram "resíduos" de traumas passados que não haviam sido devidamente processados.
Para a psicanálise nascente, uma experiência traumática é aquela que gera um excesso de excitação no sistema psíquico. Em condições normais, quando algo nos acontece, nós reagimos: choramos, gritamos, falamos sobre o assunto ou tomamos uma atitude. Essa reação "descarrega" o afeto associado ao evento. No entanto, se por algum motivo (vergonha, medo social ou dor insuportável) essa reação é impedida, o afeto fica "estrangulado".
A ab-reação é, portanto, o processo de liberação desse afeto retido. Através da fala, inicialmente sob hipnose e depois pela associação livre, o paciente revive o evento traumático com a mesma intensidade emocional da primeira vez. Não se trata apenas de lembrar o fato, mas de senti-lo novamente e, desta vez, dar-lhe uma saída. É a descarga motora ou emocional que permite que o trauma deixe de atuar como um "corpo estranho" na psique do indivíduo.
A Dinâmica entre Afeto e Representação
Um ponto crucial para entender a ab-reação é a distinção que a psicanálise faz entre a representação (a ideia ou imagem do evento) e o afeto (a carga emocional). Em um quadro de histeria de conversão, por exemplo, o indivíduo pode lembrar-se vagamente de um evento, mas a emoção ligada a ele foi separada e convertida em um sintoma físico. Em outros casos, o paciente pode esquecer completamente o evento (recalque), mas o afeto continua vagando, gerando angústia.
A ab-reação atua na reconexão desses dois elementos. Para que a cura ocorra, não basta que o analista diga ao paciente o que aconteceu; o próprio paciente deve reintegrar a emoção à memória. Freud percebeu que a simples recordação intelectual era ineficaz. O paciente poderia saber, teoricamente, que foi abusado ou humilhado, mas o sintoma permanecia. A ab-reação é o "curto-circuito" que une a lembrança ao sentimento, permitindo que a energia psíquica, antes presa na formação do sintoma, seja liberada e dispersada.
Neste sentido, a ab-reação funciona como uma espécie de "metabolismo psíquico". Assim como o corpo precisa expelir substâncias tóxicas, a mente precisa ab-reagir afetos que não foram digeridos. Se a reação é adiada por muito tempo, o afeto "se torna crônico", e a ab-reação tardia na análise é o que permite a liquidação da dívida emocional com o passado.
O Papel da Linguagem como Via de Descarga
Embora a ab-reação possa ocorrer através de atos físicos (como o choro convulsivo ou a expressão de raiva), a psicanálise deu um passo revolucionário ao identificar a linguagem como o principal veículo para esse processo. Freud notou que o homem encontrou na palavra um substituto para a ação. "O homem que pela primeira vez lançou uma injúria ao seu inimigo, em vez de uma lança, foi o fundador da civilização", dizia ele.
Na clínica psicanalítica, o ato de falar sobre o trauma assume o caráter de uma ab-reação verbal. Ao transformar o trauma em narrativa, o paciente retira a carga energética do sintoma e a transfere para o discurso. Contudo, para que a fala seja ab-reativa, ela não pode ser uma fala vazia ou puramente descritiva; deve ser o que Jacques Lacan mais tarde chamaria de "palavra plena".
A eficácia da ab-reação reside na capacidade de "dizer" o que foi calado. Quando o paciente consegue colocar em palavras a exata tonalidade do afeto que sentiu, ele realiza um trabalho psíquico que substitui a necessidade do sintoma. A linguagem serve aqui como uma ponte: ela conecta o inconsciente (onde o trauma está guardado) ao consciente e ao mundo exterior, permitindo que a tensão acumulada flua para fora do sistema fechado da neurose.
Da Catarse à Elaboração: A Evolução do Conceito
Com o amadurecimento da teoria freudiana, o conceito de ab-reação passou a ser visto com mais cautela. Freud percebeu que, embora a descarga emocional (catarse) trouxesse um alívio imediato, os sintomas frequentemente retornavam se não houvesse uma mudança na estrutura psíquica do paciente. A ab-reação era um evento explosivo e momentâneo, mas a cura exigia algo mais duradouro.
A partir desse impasse, a psicanálise evoluiu da técnica da ab-reação para o conceito de Perelaboração (Durcharbeiten). Enquanto a ab-reação foca na explosão do afeto, a elaboração foca na integração repetitiva e consciente das descobertas analíticas na vida do sujeito. O foco deixou de ser apenas "liberar a energia presa" e passou a ser "entender por que essa energia foi reprimida e como o sujeito lida com seus desejos".
Apesar dessa mudança de foco, a ab-reação não foi descartada. Ela permanece como um componente essencial de qualquer análise. Momentos de ab-reação ocorrem durante o processo de elaboração, funcionando como "insights" emocionais que validam o trabalho intelectual. Sem esses momentos de descarga e verdade emocional, a análise corre o risco de se tornar um exercício puramente filosófico, sem impacto real no sofrimento do paciente.
A Ab-reação na Clínica Contemporânea e na Transferência
Na prática clínica atual, a ab-reação é entendida dentro do contexto da transferência, a relação entre analista e paciente. Muitas vezes, o paciente não ab-reage o trauma original diretamente contra o agressor do passado, mas sim "contra" ou "com" o analista. O consultório torna-se o palco onde o afeto estrangulado é finalmente encenado.
O analista moderno não busca forçar uma ab-reação (como se fazia na hipnose), mas cria um ambiente de segurança onde ela possa emergir espontaneamente. Quando o paciente se permite sentir raiva, luto ou amor profundo dentro do setting analítico, ele está ab-reagindo. A grande diferença é que, agora, essa descarga é mediada pela presença do analista, que ajuda o paciente a não apenas "descarregar", mas a dar um novo sentido àquela experiência.
Além disso, o conceito de ab-reação é vital para entender traumas coletivos e desastres sociais. Em contextos de grandes catástrofes, a falta de espaços para a ab-reação social, como rituais de luto ou reconhecimento público da dor, pode levar ao que chamamos de neuroses traumáticas coletivas. Assim, a ab-reação permanece como um conceito vivo, lembrando-nos que o que não é expresso pelo corpo ou pela palavra acaba por se manifestar como sofrimento e repetição.
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