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Falar de Élisabeth Roudinesco é falar da própria memória viva da psicanálise. Historiadora, psicanalista e intelectual pública francesa, Roudinesco ocupa um lugar singular na cultura contemporânea: ela é a principal cronista do movimento psicanalítico, responsável por retirar a disciplina do isolamento clínico e situá-la no centro da história das ideias, da política e da cultura ocidental.
A Formação de uma Historiadora da Subjetividade
Nascida em Paris em 1944, Roudinesco cresceu em um ambiente profundamente intelectualizado. Filha de Jenny Aubry, uma renomada pediatra e psicanalista que trabalhou com crianças institucionalizadas, Élisabeth teve contato com o pensamento freudiano desde cedo.
Sua formação acadêmica, no entanto, foi plural. Ela estudou literatura e linguística, tendo sido aluna de figuras como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Tzvetan Todorov. Essa base filosófica e histórica permitiu que ela olhasse para a psicanálise não apenas como uma técnica de tratamento de neuroses, mas como uma "epistemologia", uma forma de conhecimento que alterou permanentemente a maneira como o ser humano compreende a si mesmo.
A Biógrafa de Jacques Lacan
Se Freud fundou a psicanálise, foi Jacques Lacan quem a revolucionou na França, e Roudinesco tornou-se sua biógrafa definitiva. Sua obra Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (1993) é um marco.
Nesta obra, ela não apenas reconstrói a vida do mestre francês, mas também decifra a complexidade de sua teoria, o retorno a Freud, o estádio do espelho e os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário. Roudinesco conseguiu a proeza de humanizar uma figura frequentemente vista como um "guru" ou um tirano intelectual, descrevendo tanto sua genialidade clínica quanto as turbulências institucionais que ele provocou.
A História da Psicanálise na França
Antes de sua biografia de Lacan, Roudinesco já havia consolidado seu prestígio com o monumental História da Psicanálise na França. Nesta pesquisa, ela demonstra como a psicanálise não é um conjunto de dogmas estáticos, mas um movimento vivo que se adapta e reage aos contextos sociais.
Ela detalha como a psicanálise sobreviveu à ocupação nazista, como se entrelaçou com o surrealismo e o existencialismo, e como se tornou uma ferramenta essencial para pensar o feminismo e a política no pós-guerra. Para Roudinesco, a psicanálise é "francesa" por excelência devido à sua resistência em ser reduzida à biologia ou à psicologia comportamental americana.
O "Dicionário de Psicanálise" e a Sistematização do Conhecimento
Junto com Michel Plon, Roudinesco publicou o Dicionário de Psicanálise, uma das obras de referência mais consultadas no mundo. A importância desse trabalho reside na sua capacidade de traçar a etimologia e a evolução dos conceitos.
Diferente de outros dicionários técnicos, as entradas escritas por ela são pequenos ensaios históricos. Ela explica como um termo como "inconsciente" ou "pulsão" foi usado por Freud, como foi transformado pelos seus sucessores e como ele é interpretado hoje. Isso confere à psicanálise uma base científica e histórica sólida, protegendo-a de interpretações místicas ou esotéricas.
A Defesa da Psicanálise na Esfera Pública
Roudinesco é conhecida por ser uma "polemista" necessária. Em um mundo cada vez mais dominado pela neurociência e pelo uso desenfreado de psicofármacos, ela defende a soberania da palavra.
- Crítica ao Cientificismo: Ela não nega os avanços da biologia, mas critica a ideia de que o sofrimento humano pode ser resolvido apenas com pílulas. Para ela, o sujeito psicanalítico é um ser de desejo e de linguagem, não apenas um conjunto de conexões sinápticas.
- O Livro Negro da Psicanálise: Quando, em 2005, foi publicado o "Livro Negro da Psicanálise" (uma obra que visava desmascarar Freud como uma fraude), Roudinesco liderou a contra-ofensiva intelectual. Ela publicou Por que a Psicanálise?, argumentando que o ódio à psicanálise é, no fundo, um ódio à complexidade do ser humano e uma tentativa de padronizar o pensamento.
Freud sob uma Nova Luz: O Retorno às Origens
Recentemente, em 2014, ela publicou Sigmund Freud: Em seu tempo e no nosso. Esta obra é uma resposta às novas descobertas documentais e arquivos que foram abertos nas últimas décadas.
Roudinesco apresenta um Freud menos "estátua" e mais humano: um homem vitoriano, com preconceitos de sua época, mas dono de uma coragem intelectual sem precedentes. Ela explora sua relação com a família, seus casos clínicos e suas dúvidas, reafirmando que a grandeza de Freud não reside em estar "sempre certo", mas em ter inventado um método que permite a cada indivíduo descobrir sua própria verdade.
Conclusão: Por que Roudinesco é Essencial?
Élisabeth Roudinesco é essencial para a psicanálise porque ela impede que a disciplina se torne um "museu de ideias mortas". Através de seus livros, ela mantém o diálogo da psicanálise com:
- A História: Mostrando que os sintomas mudam conforme a sociedade muda.
- A Ética: Reforçando que a escuta clínica é um ato de resistência contra a desumanização.
- A Política: Analisando fenômenos modernos (como o fundamentalismo e as novas configurações familiares) sob a lente do inconsciente.
Ela é a ponte entre o divã e a praça pública. É também graças ao seu trabalho que a psicanálise continua sendo uma ferramenta vital para interpretar os mal-estares do século XXI.
Sugestão de leitura sobre essa temática
Por que a psicanálise?
Elisabeth Roudinesco
Presente em várias listas de best-sellers da França, esse ensaio faz um balanço magistral dos cem anos da psicanálise e uma projeção de seu futuro no novo milênio. Na contracorrente do fascínio pela neurociência, fustiga uma sociedade em que o homem é levado a tratar suas neuroses a golpes de receitas médicas, atacando tanto as correntes cientificistas quanto as obscurantistas e charlatanescas. "Elisabeth Roudinesco não tem papas na língua. Nesse pequeno e certeiro ensaio o ataque é direto, na melhor tradição do intelectual combativo, figura em desaparição na era de consensos.
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