A presença da política no consultório psicanalítico tornou-se cada vez mais evidente em um mundo marcado por polarizações, disputas simbólicas e identidades coletivas em constante tensão. Pacientes chegam às sessões carregando não apenas suas histórias pessoais, mas também discursos sociais que moldam suas percepções, angústias e modos de se relacionar com o outro. Nesse cenário, a visão política deixa de ser um simples posicionamento racional e passa a funcionar como expressão subjetiva, revelando fantasias, defesas, identificações e conflitos inconscientes. Para o psicanalista, isso coloca desafios éticos e técnicos que exigem cuidado, rigor e sensibilidade.
A tarefa do analista não é julgar, corrigir ou alinhar-se às opiniões políticas do paciente, mas escutá-las como parte de sua trama psíquica. A política, quando emerge no discurso, oferece pistas sobre o modo como o sujeito lida com autoridade, diferença, pertencimento, desejo e angústia. Ao mesmo tempo, convoca o analista a sustentar sua posição de neutralidade, abstinência e atenção flutuante, evitando que o espaço analítico seja capturado por disputas ideológicas ou por expectativas de confirmação.
Este texto explora, em cinco tópicos, como o psicanalista pode manejar a visão política do paciente sem perder de vista a ética da clínica e a singularidade do sujeito. A partir de reflexões sobre transferência, contratransferência, manejo técnico e limites éticos, busca-se compreender de que modo a política pode ser acolhida como material clínico, sem que a análise se transforme em militância ou pedagogia. Trata-se, portanto, de pensar a política não como obstáculo, mas como via de acesso ao inconsciente e às formas pelas quais cada sujeito tenta dar sentido ao mundo e a si mesmo.
A POLÍTICA COMO EXPRESSÃO DO SUJEITO E NÃO COMO OBJETO DE CONVENCIMENTO
A relação entre psicanálise e política sempre foi delicada. Embora Freud tenha reconhecido que o sujeito é constituído no laço social, ele também advertiu que a psicanálise não deve se converter em doutrina política nem em instrumento de persuasão ideológica. Quando um paciente traz suas opiniões políticas para o consultório, ele não está apenas falando sobre partidos, candidatos ou ideologias; está revelando algo de sua história, de seus afetos, de suas identificações e de seus conflitos inconscientes. A política, nesse contexto, funciona como linguagem, como sintoma, como metáfora e como defesa.
Para o psicanalista, o ponto central não é concordar ou discordar do conteúdo político expresso, mas escutar o que esse conteúdo representa para o sujeito. A visão política pode ser uma forma de organizar o mundo, de lidar com angústias, de buscar pertencimento, de expressar agressividade ou de tentar dar sentido a experiências traumáticas. Em muitos casos, a política aparece como um significante que estrutura a narrativa do paciente sobre si mesmo e sobre o outro.
Por isso, o analista precisa manter uma posição ética que o impeça de transformar o consultório em arena de debate ideológico. A neutralidade, nesse sentido, não significa ausência de posição política na vida pessoal do analista, mas sim a recusa em colocar essa posição em jogo na relação transferencial. A escuta analítica exige que o analista suspenda seus próprios juízos para que o discurso do paciente possa emergir sem ser moldado ou censurado.
Essa postura não é simples. Em tempos de polarização, é comum que pacientes expressem opiniões que o analista considera equivocadas, ofensivas ou até perigosas. No entanto, a função do analista não é corrigir o paciente, mas compreender o que está em jogo subjetivamente. A política, nesse cenário, é apenas a superfície visível de processos psíquicos mais profundos. O analista deve perguntar-se: o que essa posição política representa para o sujeito? Que angústias ela tenta apaziguar? Que identificações ela mobiliza? Que fantasias ela encobre ou revela?
A escuta psicanalítica, portanto, transforma a política em material clínico, não em campo de disputa. O analista não precisa concordar com o paciente, mas precisa escutá-lo. E escutar, na psicanálise, é sempre escutar para além do conteúdo manifesto, buscando o desejo, o conflito e o inconsciente que se articulam no discurso.
NEUTRALIDADE, ABSTINÊNCIA E ATENÇÃO FLUTUANTE COMO FUNDAMENTOS TÉCNICOS
A neutralidade é um dos pilares da técnica psicanalítica, mas frequentemente é mal compreendida. Não se trata de ser neutro como uma máquina, sem opiniões ou afetos, mas de não colocar essas opiniões e afetos a serviço da direção da cura. Quando o paciente fala de política, a neutralidade impede que o analista responda com entusiasmo, indignação ou militância. A abstinência, por sua vez, impede que o analista ofereça respostas que satisfaçam demandas de confirmação ideológica. E a atenção flutuante permite que o analista escute o discurso político como parte de um conjunto mais amplo de significações.
Esses três princípios, neutralidade, abstinência e atenção flutuante, funcionam como bússolas clínicas. Eles ajudam o analista a não se deixar capturar pela transferência e a não capturar o paciente em suas próprias convicções. Quando um paciente expressa uma visão política forte, o analista deve evitar tanto a identificação quanto a rejeição imediata. A identificação pode levar o analista a reforçar o discurso do paciente, transformando a análise em camaradagem ideológica. A rejeição pode levar a rupturas transferenciais, silenciamentos ou confrontos improdutivos.
A neutralidade também protege o paciente. Muitos pacientes buscam, consciente ou inconscientemente, a aprovação do analista. Se o analista revela sua posição política, corre o risco de moldar o discurso do paciente, que pode passar a falar aquilo que imagina ser mais aceitável. Isso empobrece o processo analítico e impede que o sujeito se confronte com seus próprios conflitos.
A abstinência, nesse contexto, impede que o analista ofereça respostas que satisfaçam a demanda de pertencimento político. O paciente pode buscar no analista um aliado ideológico, alguém que confirme suas crenças ou que o ajude a combater seus “inimigos”. A abstinência impede que o analista ocupe esse lugar, preservando a análise como espaço de elaboração subjetiva e não de militância.
A atenção flutuante, por fim, permite que o analista escute o discurso político sem se fixar no conteúdo manifesto. A política pode ser apenas a forma que o sujeito encontrou para falar de sua relação com a autoridade, com o pai, com a lei, com o desejo, com o outro. O analista deve escutar o que está sendo dito, mas também o que está sendo evitado, deslocado ou condensado.
Esses princípios técnicos não eliminam a complexidade da situação, mas oferecem um norte. Eles ajudam o analista a manter sua posição ética e clínica mesmo diante de discursos políticos intensos, polêmicos ou provocadores.
A TRANSFERÊNCIA E A POLARIZAÇÃO: COMO O PACIENTE INVESTE O ANALISTA
A política, especialmente em contextos polarizados, é terreno fértil para projeções, idealizações e ódios. O paciente pode investir o analista como representante de um grupo político, mesmo sem qualquer evidência. Pode supor que o analista compartilha suas opiniões ou que as rejeita. Pode tentar testar o analista, provocá-lo ou seduzi-lo ideologicamente. Tudo isso faz parte da transferência.
A transferência política é uma forma de transferência como qualquer outra. Ela revela como o sujeito se relaciona com figuras de autoridade, com o saber, com o desejo e com o outro. O analista deve acolher essa transferência sem reforçá-la nem recusá-la de forma abrupta. Se o paciente supõe que o analista pensa como ele, isso diz mais sobre o paciente do que sobre o analista. Se o paciente teme que o analista o julgue por suas opiniões políticas, isso também é material clínico.
A polarização intensifica esses processos. Em sociedades divididas, a política se torna marcador identitário. O sujeito pode sentir que sua visão política é parte essencial de quem ele é. Criticar sua posição política pode ser vivido como ataque pessoal. Por isso, o analista deve ser cuidadoso ao interpretar o discurso político. A interpretação não deve recair sobre o conteúdo político em si, mas sobre a função psíquica desse conteúdo.
Por exemplo, um paciente que expressa ódio intenso por determinado grupo político pode estar deslocando para esse grupo afetos que originalmente pertencem a figuras de sua história. O analista não precisa discutir se o grupo merece ou não esse ódio; precisa investigar o que esse ódio revela sobre o sujeito. Da mesma forma, um paciente que idealiza um líder político pode estar repetindo padrões de idealização infantil. O analista não deve desmontar a idealização politicamente, mas analisá-la subjetivamente.
A transferência também pode se manifestar quando o paciente tenta descobrir a posição política do analista. Perguntas diretas como “em quem você votou?” ou “o que você acha desse governo?” são tentativas de capturar o analista em uma posição transferencial. O analista deve responder de forma que preserve a neutralidade, sem mentir, mas também sem revelar sua posição. Uma resposta possível é: “O importante aqui não é o que eu penso, mas o que isso significa para você”. Essa resposta devolve a questão ao campo da análise.
A transferência política, portanto, não é um obstáculo, mas uma oportunidade. Ela permite que o analista explore como o sujeito se relaciona com o poder, com a diferença, com o conflito e com o desejo. A política é apenas o cenário; o drama é psíquico.
O MANEJO CLÍNICO DIANTE DE OPINIÕES EXTREMAS, DISCURSOS DE ÓDIO OU POSIÇÕES ANTIDEMOCRÁTICAS
Um dos maiores desafios para o psicanalista é lidar com pacientes que expressam opiniões extremistas, preconceituosas ou antidemocráticas. O analista pode sentir repulsa, indignação ou medo. Pode sentir-se tentado a confrontar o paciente, a corrigi-lo ou a impor limites morais. No entanto, a ética psicanalítica exige que o analista mantenha sua posição clínica mesmo diante de discursos difíceis.
Isso não significa que o analista deva tolerar violência, ameaças ou agressões. Há limites éticos e legais que precisam ser respeitados. Mas opiniões políticas extremas, por mais desconfortáveis que sejam, devem ser tratadas como material clínico. O analista deve perguntar-se: o que leva esse sujeito a aderir a essas ideias? Que função essas ideias cumprem em sua economia psíquica? Que angústias elas tentam conter?
Em muitos casos, discursos extremistas são formas de defesa contra sentimentos de impotência, desamparo ou confusão. A adesão a ideologias rígidas oferece ao sujeito uma sensação de ordem, clareza e pertencimento. O analista deve escutar essa necessidade, não o conteúdo ideológico em si. A interpretação deve incidir sobre o modo como o sujeito se agarra a essas ideias, não sobre a validade dessas ideias.
Quando o discurso político se torna violento, o analista deve manejar a situação com firmeza, mas sem moralismo. Se o paciente expressa desejo de violência real contra grupos ou indivíduos, o analista pode intervir dizendo algo como: “Percebo que há muita agressividade aí. Vamos tentar entender de onde isso vem”. Essa intervenção não valida a violência, mas também não rompe o processo analítico.
Em casos extremos, quando há risco real de violência, o analista deve seguir protocolos éticos e legais, que variam conforme o país. Mas mesmo nesses casos, a intervenção deve ser feita de forma clínica, não ideológica.
O analista também deve estar atento às suas próprias reações. A contratransferência pode ser intensa quando o paciente expressa opiniões políticas que o analista considera repugnantes. O analista deve analisar suas próprias reações para não agir impulsivamente. A contratransferência, quando bem manejada, pode ser fonte de compreensão. Ela revela como o discurso do paciente afeta o analista e pode ajudar a entender como o paciente afeta outras pessoas em sua vida.
O manejo clínico diante de discursos políticos extremos exige maturidade, supervisão e análise pessoal. Não é tarefa simples, mas é parte essencial da prática psicanalítica em sociedades polarizadas.
A ÉTICA PSICANALÍTICA COMO GARANTIA DE UM ESPAÇO DE ELABORAÇÃO E NÃO DE MILITÂNCIA
A psicanálise não é neutra politicamente no sentido amplo: ela defende a liberdade de expressão, a singularidade do sujeito, a importância do inconsciente e a crítica às formas autoritárias de poder. Mas ela é neutra no sentido técnico: o analista não deve usar o consultório para promover sua visão política. A ética psicanalítica garante que o espaço analítico seja dedicado ao sujeito, não ao analista.
Essa ética se baseia em alguns princípios fundamentais:
- O analista não sabe o que é melhor para o paciente politicamente - O analista pode ter convicções políticas fortes, mas não pode supor que elas são universalmente válidas.
- O analista não deve educar politicamente o paciente - A análise não é pedagogia; é investigação do inconsciente.
- O analista deve proteger o espaço analítico da captura ideológica - Isso vale tanto para ideologias externas quanto para as do próprio analista.
- O analista deve sustentar a singularidade do sujeito - A política tende a agrupar pessoas em categorias; a psicanálise busca o que há de único em cada sujeito.
- O analista deve reconhecer que a política é parte da subjetividade - Não se trata de excluir a política da análise, mas de tratá-la como expressão do sujeito.
A ética psicanalítica também exige que o analista reconheça seus próprios limites. Se um analista percebe que não consegue escutar um paciente por causa de suas opiniões políticas, ele deve considerar encaminhá-lo a outro profissional. Isso não é fracasso; é responsabilidade ética.
A psicanálise, ao preservar sua ética, oferece ao paciente um espaço raro na sociedade contemporânea: um espaço onde ele pode falar sem ser julgado, corrigido ou enquadrado ideologicamente. Esse espaço é precioso e deve ser protegido.
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Transferência e Contratransferência
Marion Minerbo
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