Freud - Além da Alma: uma análise profunda do noir psicanalítico de 1962

Cartaz do filme Freud - Além da Alma (1962)

O filme "Freud - Além da Alma" (Freud: The Secret Passion), dirigido por John Huston e lançado em 1962, não é apenas uma cinebiografia; é um mergulho cinematográfico no nascimento de uma das revoluções intelectuais mais profundas da história moderna. Estrelando Montgomery Clift como o jovem Sigmund Freud, a obra foca no período formativo entre 1885 e 1890, quando o médico vienense abandonou a neurologia tradicional para desbravar o "continente sombrio" do inconsciente.

John Huston toma uma decisão estética brilhante ao optar pelo preto e branco. Em 1962, o tecnicolor já era o padrão para grandes produções, mas a ausência de cor serve a dois propósitos fundamentais:

  • Histórico: Evoca a Viena vitoriana, com sua rigidez moral e neblina constante, criando um ambiente claustrofóbico.

  • Simbólico: O filme opera como um "noir da alma". A busca de Freud pela verdade por trás da histeria é tratada como uma investigação detetivesca, onde as pistas não são digitais, mas lapsos de linguagem e fragmentos de sonhos.

A fotografia de Douglas Slocombe utiliza contrastes expressionistas, especialmente nas sequências de sonhos. Essas cenas são granuladas, superexpostas e distorcidas, capturando a natureza fluida e aterrorizante do material onírico de forma muito mais eficaz do que os efeitos especiais modernos conseguiriam.

A performance de Montgomery Clift é o coração pulsante do filme. Na época das filmagens, Clift passava por graves problemas de saúde e dependência química, o que ironicamente conferiu ao seu Freud uma vulnerabilidade e uma intensidade febril quase insuportáveis.

Seu Freud não é o patriarca sereno e barbudo que conhecemos das fotos clássicas. Ele é um homem jovem, arrogante, inseguro e profundamente perturbado pelas próprias descobertas. Clift utiliza o olhar, frequentemente fixo e atormentado, para transmitir o peso de alguém que está olhando para um abismo que ninguém mais ousa ver. A química tensa entre ele e seu mentor, Josef Breuer (interpretado por Larry Parks), ilustra perfeitamente o conflito entre a medicina estabelecida e a nova ciência que ousava falar sobre sexualidade infantil e desejos reprimidos.

O roteiro, que teve uma primeira versão monumental escrita por ninguém menos que Jean-Paul Sartre (embora ele tenha retirado seu nome do projeto após desentendimentos com Huston), estrutura-se em torno do caso fictício de Cecily Koertner (Susannah York).

Cecily é um amálgama de várias pacientes reais de Freud, principalmente Anna O. e Dora. Através dela, o filme dramatiza a transição da hipnose para a livre associação.

  • O Mistério da Histeria: O filme desafia a noção da época de que a histeria era "fingimento" ou uma afecção orgânica sem causa.

  • O Complexo de Édipo: O clímax do filme é a aceitação de Freud de que seus próprios sentimentos em relação ao pai e à mãe espelham as neuroses de seus pacientes. Esta é uma escolha narrativa corajosa, pois humaniza o "gênio" ao colocá-lo no mesmo divã que aqueles que ele tenta curar.

Um dos pontos fortes da obra é a representação do isolamento de Freud. A cena em que ele apresenta suas teorias sobre a etiologia sexual das neuroses perante a Sociedade Médica de Viena é filmada como um julgamento por heresia.

Huston posiciona Freud como um Prometeu moderno que rouba o fogo do autoconhecimento e é punido pelo ostracismo. O filme captura com precisão o choque cultural da era vitoriana: a ideia de que o comportamento humano é movido por impulsos biológicos e traumas esquecidos era vista como uma obscenidade, não como ciência.

Apesar de sua grandeza, "Além da Alma" sofre de algumas limitações da época:

  1. Simplificação Didática: Por se tratar de um filme para o grande público, complexidades da psicanálise são reduzidas a momentos "Eureca!". Na realidade, a análise de um paciente leva anos, mas no filme, a cura parece vir de uma única revelação dramática.

  2. Ritmo: O segundo ato pode parecer excessivamente denso para quem não possui interesse prévio no tema, assemelhando-se por vezes a uma peça de câmara filmada.

  3. O Papel das Mulheres: Embora Susannah York entregue uma atuação visceral, a narrativa por vezes posiciona a mulher apenas como o "objeto de estudo" passivo, um reflexo das limitações tanto da psicanálise inicial quanto do cinema dos anos 60.

É impossível falar deste filme sem mencionar o "roteiro fantasma" de Sartre. O filósofo existencialista escreveu um manuscrito que teria resultado em um filme de cinco horas. Huston pediu cortes, Sartre recusou.

A essência de Sartre, no entanto, permanece na ideia de que o homem é responsável pelo que faz com o que fizeram dele. O filme não trata o inconsciente como um destino místico, mas como um labirinto de escolhas e repressões que o indivíduo deve confrontar para alcançar a liberdade.

"Freud - Além da Alma" é um triunfo do cinema intelectual. Ele consegue a proeza de tornar visual algo que é intrinsecamente invisível: o pensamento e a memória. John Huston não apenas documentou a vida de um homem, mas criou uma representação visual do nascimento da subjetividade moderna.

Ao final do filme, o espectador não apenas "entende" Freud; ele sente o peso da descoberta de que não somos senhores em nossa própria casa. É um filme sobre a coragem de olhar para o espelho interno, mesmo quando o que vemos lá atrás nos aterroriza.

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem