A psicanálise não é uma método de análise da mente baseado na ideia de plenitude, mas uma investigação rigorosa sobre o que nos falta. Enquanto o senso comum enxerga a "falta" como um vazio a ser preenchido ou um problema a ser resolvido, para Freud e, fundamentalmente, para Jacques Lacan, a falta é a engrenagem que permite a existência do desejo. Sem o buraco na rede, o peixe não consegue nadar; sem a falta, o sujeito não se move.
A Origem do Desejo na Experiência de Satisfação
Para entender a falta, precisamos retornar ao início da vida psíquica. O bebê humano nasce em um estado de desamparo biológico absoluto. Ele depende inteiramente de um "Outro" (geralmente a mãe ou quem exerça essa função) para sobreviver. Quando a fome aperta, surge uma tensão interna insuportável. O bebê chora, e o Outro intervém, oferecendo o seio ou a mamadeira.
Nesse momento, ocorre o que Freud chamou de Experiência de Satisfação. No entanto, algo curioso acontece: a satisfação nunca é total. Existe um "resto" que sobra. O bebê não quer apenas o leite (necessidade biológica); ele quer recuperar a sensação mítica de totalidade que experimentou naquele encontro.
O problema é que a memória dessa satisfação é uma construção. O sujeito passa a vida tentando reencontrar um objeto que, na verdade, nunca existiu da forma perfeita como ele imagina. É aqui que nasce o desejo. O desejo não é a busca por um objeto real, mas a busca por um objeto perdido para sempre. A falta, portanto, é o espaço entre a necessidade biológica (que pode ser saciada) e o desejo (que é insaciável). Se não houvesse falta, se a mãe estivesse colada ao bebê 24 horas por dia suprindo todas as frestas de silêncio, o sujeito não se desenvolveria; ele seria engolido pelo Outro. A falta é o que permite ao bebê perceber que ele e a mãe são dois seres distintos.
O Estádio do Espelho e a Falta no Eu
Se a falta move o desejo, ela também fundamenta a nossa identidade. Jacques Lacan introduziu o conceito do Estádio do Espelho para explicar como formamos o nosso "Eu" (o Ego). Antes desse momento, a criança se percebe como um corpo fragmentado, um amontoado de sensações desconexas. Entre os 6 e 18 meses, ao ver sua imagem no espelho (ou o reflexo no olhar da mãe), a criança se identifica com aquela forma totalizada.
A ironia trágica da psicanálise é que essa imagem de "perfeição" e "unidade" é uma mentira. O Eu se constrói sobre uma alienação: eu me vejo lá onde eu não estou. A imagem no espelho é completa, mas o sujeito que olha continua sentindo a falta e a fragmentação interna.
A falta, aqui, assume o papel de fenda. Nunca somos idênticos à imagem que projetamos para o mundo. Existe sempre um abismo entre quem achamos que somos e o que realmente sentimos. Essa falta constituinte é o que nos faz buscar no outro a confirmação de nossa existência. Buscamos parceiros, títulos e validações externas para tentar "colar" essa rachadura no espelho, mas a falta permanece lá, silenciosa, lembrando-nos de que a completude é apenas uma ilusão de ótica.
Castração Simbólica e o Objeto Pequeno a
Um dos conceitos mais mal compreendidos na psicanálise é a Castração. Longe de ser uma ameaça física, a castração simbólica é a operação que introduz a falta na cultura e na linguagem. É o "Não" que separa o sujeito de seu objeto de desejo primordial.
Para Lacan, a castração é o momento em que o sujeito aceita que não tem tudo e não é tudo para o Outro. É um sacrifício necessário: perdemos a ilusão de onipotência para ganharmos o direito de entrar na linguagem e na vida social. Aquele que não passa pela castração (no sentido simbólico) permanece preso em delírios de grandeza ou em uma dependência absoluta, sem espaço para desejar por si mesmo.
Dessa operação de corte, sobra um resíduo que Lacan chamou de Objeto Pequeno a.
O objeto a é a causa do desejo.
Ele não é o objeto que desejamos (o carro, o emprego, a pessoa), mas o brilho que esses objetos parecem ter e que nos atrai.
É o vazio em torno do qual o desejo orbita.
Imagine um anel: o objeto a não é o metal precioso, mas o buraco no centro. É o buraco que define o anel. Na vida, corremos atrás de diversos "objetos" tentando tampar esse buraco, mas assim que os alcançamos, a satisfação dura pouco. O desejo logo se desloca para outra coisa. A falta não é um erro de percurso; ela é a própria estrada.
A Linguagem como Criadora de Ausências
"A palavra é a morte da coisa". Essa frase clássica da psicanálise resume como a linguagem introduz a falta na nossa realidade. Quando eu digo a palavra "maçã", eu não tenho a fruta na minha mão. A palavra surge justamente porque o objeto está ausente. Se eu tivesse tudo o que quero no momento em que quero, eu não precisaria falar.
Nós somos "falantes" porque nos falta algo. No momento em que entramos no mundo dos símbolos, somos marcados por uma perda irremediável: a perda do contato direto e bruto com o real. Agora, tudo passa pelo filtro das palavras, que são sempre insuficientes.
Sabe aquela sensação de que "não existem palavras para descrever o que sinto"? Isso é a falta operando. Existe algo no ser humano que escapa à linguagem, algo que não pode ser dito. Esse "resto" inominável é o que nos mantém em análise, tentando traduzir o intraduzível. A falta é o motor da criatividade, da arte e da literatura. O artista cria para tentar dar forma ao que falta; ele contorna o vazio com pinceladas, notas musicais ou versos. Se fôssemos plenos, o silêncio seria absoluto.
A Falta como Ética do Desejo
Por fim, qual é a utilidade prática de entender a falta? Na contemporaneidade, vivemos sob o imperativo do consumo, que nos vende a promessa de que a falta pode ser eliminada. "Compre isto e sinta-se completo", "Faça este curso e resolva sua vida", "Encontre sua alma gêmea e nunca mais sofra". A publicidade é a maior inimiga da falta, pois ela tenta transformá-la em uma "carência" passível de ser preenchida.
A psicanálise propõe o caminho inverso. A saúde mental não consiste em eliminar a falta, mas em fazer algo com ela.
- Assumir a falta é libertador: quando aceito que ninguém pode me completar, paro de exigir do meu parceiro ou dos meus filhos algo que eles não podem dar.
- Diferenciar Falta de Privação: A privação é não ter algo que eu poderia ter (ex: comida, dinheiro). A falta é existencial. Eu posso ser bilionário e ainda assim ser atravessado pela falta.
- Sustentar o Desejo: O luto pela completude permite que o sujeito pare de buscar "O Objeto Único" e passe a se interessar pela multiplicidade da vida.
Destarte, a falta é o que nos torna humanos. É porque nos falta que amamos, porque no amor, como dizia Lacan, "oferecemos o que não temos a alguém que não o quer". Oferecemos a nossa própria falta, a nossa vulnerabilidade, e é nesse encontro de dois seres incompletos que algo genuíno pode acontecer. A cura em psicanálise não é "ficar cheio", mas aprender a navegar o vazio sem o pânico de afogar-se nele.
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