O que são ADICÇÕES para a Psicanálise?

A adicção, embora seja um termo mais frequentemente associado à medicina, à psiquiatria e às ciências comportamentais, possui um lugar teórico e clínico muito particular dentro da psicanálise. Desde Freud até autores contemporâneos, a compreensão do fenômeno adictivo ultrapassa a ideia de dependência química ou comportamental, alcançando dimensões estruturais do sujeito, modos de lidar com o desejo, com a angústia e com a economia pulsional. A psicanálise não reduz a adicção a um problema de substância, mas a entende como uma forma específica de relação do sujeito com o objeto, com o corpo e com o gozo.

Ao mesmo tempo, o conceito de fixação, central na teoria freudiana, oferece uma chave de leitura fundamental para compreender por que certos sujeitos se tornam mais vulneráveis a comportamentos adictivos. A fixação, entendida como um enraizamento libidinal em determinadas fases do desenvolvimento ou em certos modos de satisfação, cria pontos de rigidez na economia psíquica que podem servir de base para a formação de sintomas, incluindo as adicções.

O objetivo deste texto é explorar, de forma aprofundada, o significado da adicção para a psicanálise e sua relação íntima com as fixações, articulando conceitos fundamentais, desenvolvimentos teóricos e implicações clínicas.

A Adicção como Modo de Relação com o Objeto

Na psicanálise, a adicção não é compreendida apenas como dependência de uma substância ou de um comportamento, mas como uma modalidade de laço com o objeto. Esse objeto pode ser químico (álcool, drogas, medicamentos), comportamental (jogo, sexo, compras, comida), ou mesmo simbólico (relações, ideais, padrões). O que define a adicção não é o objeto em si, mas a forma como o sujeito se relaciona com ele.

O objeto como suplência do desejo

Para Freud, o desejo é estruturalmente marcado pela falta. O sujeito humano é constituído por uma incompletude fundamental, e é essa falta que impulsiona o desejo. No entanto, o adicto tenta abolir essa falta por meio de um objeto que promete uma satisfação imediata, totalizante e repetitiva. A adicção, portanto, funciona como uma tentativa de tamponar a falta estrutural, oferecendo ao sujeito uma ilusão de completude.

O objeto adictivo, nesse sentido, não é apenas algo que dá prazer, mas algo que ocupa o lugar de um operador psíquico: ele regula a angústia, organiza o cotidiano, estrutura o tempo e o corpo. Ele se torna uma espécie de prótese subjetiva.

A repetição como marca da compulsão

Freud descreveu a compulsão à repetição como um fenômeno que ultrapassa o princípio do prazer. Na adicção, essa compulsão se manifesta de forma evidente: o sujeito repete o ato adictivo mesmo quando ele já não produz prazer, mesmo quando causa sofrimento, prejuízo ou risco. A repetição, nesse caso, não visa ao prazer, mas à manutenção de uma economia psíquica que depende daquele objeto para não se desorganizar.

A adicção, portanto, é menos sobre prazer e mais sobre necessidade. O sujeito não busca o gozo, mas a suspensão da angústia. O objeto adictivo funciona como um operador de estabilização.

O gozo como excesso

Lacan introduz o conceito de gozo para designar um tipo de satisfação que ultrapassa o prazer e que, muitas vezes, é vivida como sofrimento. O adicto busca esse gozo, que é ao mesmo tempo atraente e destrutivo. O objeto adictivo permite ao sujeito acessar um gozo que contorna o simbólico, isto é, que não passa pela mediação da linguagem, da lei ou do Outro.

Por isso, a adicção é frequentemente descrita como uma relação solitária: o sujeito se isola, rompe laços, evita o Outro. O objeto adictivo é um parceiro absoluto, que não exige nada, não fala, não frustra, mas cobra um preço alto.

Fixações na Teoria Freudiana: Fundamentos e Implicações

O conceito de fixação é central na teoria do desenvolvimento psicossexual de Freud. Ele se refere ao enraizamento da libido em determinadas zonas erógenas, fases ou modos de satisfação. A fixação ocorre quando o sujeito encontra, em algum ponto do desenvolvimento, uma forma de satisfação tão intensa ou tão problemática que não consegue abandoná-la completamente.

Fixações e regressões

A fixação é o ponto onde a libido permanece ancorada. A regressão é o movimento de retorno a esse ponto quando o sujeito enfrenta conflitos ou frustrações. Em situações de angústia, o sujeito pode regredir a modos de satisfação mais primitivos, mais imediatos e menos mediados pelo simbólico.

A adicção, nesse sentido, pode ser compreendida como uma forma de regressão: o sujeito retorna a um modo de satisfação que dispensa a complexidade das relações humanas e oferece uma gratificação direta.

Fixações e organização pulsional

Freud descreveu três fases principais do desenvolvimento psicossexual: oral, anal e fálica. Cada uma delas está associada a modos específicos de satisfação e de relação com o objeto.

  • Na fase oral, o objeto é incorporado; a satisfação está ligada à ingestão, à fusão, à dependência.
  • Na fase anal, o objeto é expelido; a satisfação envolve controle, retenção, expulsão.
  • Na fase fálica, o objeto é simbólico; a satisfação envolve identificação, rivalidade, lei.

As fixações podem ocorrer em qualquer uma dessas fases, e cada tipo de fixação pode predispor o sujeito a formas específicas de adicção.

Por exemplo:

  • Fixações orais podem se manifestar em adicções relacionadas à ingestão (álcool, comida, drogas).
  • Fixações anais podem se manifestar em adicções relacionadas ao controle (jogo, trabalho compulsivo).
  • Fixações fálicas podem se manifestar em adicções relacionadas ao poder, ao risco ou à performance.

Fixações e traumas

Freud também relaciona fixações a experiências traumáticas. Quando o sujeito vivencia um trauma em determinada fase do desenvolvimento, a libido pode ficar fixada naquele ponto como forma de defesa. A adicção, nesse caso, pode funcionar como uma tentativa de lidar com o trauma, oferecendo uma satisfação que anestesia a dor psíquica.

A Relação entre Adicção e Fixações: Uma Leitura Psicanalítica

A articulação entre adicção e fixações é profunda e multifacetada. A adicção pode ser compreendida como uma manifestação contemporânea de fixações arcaicas, que retornam sob a forma de comportamentos compulsivos.

A adicção como retorno do recalcado

A fixação cria um ponto de vulnerabilidade na economia psíquica. Quando o sujeito enfrenta situações de angústia, conflito ou perda, pode regredir a esse ponto fixado. A adicção, nesse sentido, é um retorno do recalcado: um modo de satisfação primitivo que ressurge para lidar com tensões psíquicas.

Esse retorno não é consciente. O sujeito não escolhe ser adicto; ele é capturado por uma lógica pulsional que o ultrapassa.

O objeto adictivo como substituto do objeto primário

A fixação está frequentemente ligada às primeiras relações do sujeito, especialmente com a mãe ou com o cuidador primário. Quando essa relação é marcada por falta, excesso, inconsistência ou trauma, o sujeito pode desenvolver uma fixação oral que, mais tarde, se manifesta como adicção.

O objeto adictivo, nesse caso, funciona como um substituto do objeto primário: ele oferece uma satisfação imediata, sem exigências, sem frustrações. Ele é, de certa forma, um “seio químico”, um “seio simbólico”, um “seio comportamental”.

A adicção como defesa contra a angústia

A fixação cria um ponto de retorno possível quando o sujeito enfrenta a angústia. A adicção é uma defesa contra essa angústia: ela oferece uma solução rápida, eficaz e repetitiva. O sujeito adicto não busca prazer, mas alívio. Ele tenta evitar o encontro com a falta, com o desejo, com o Outro.

A adicção como falha na simbolização

A fixação impede o pleno desenvolvimento da capacidade de simbolização. O sujeito fixado tem dificuldade de lidar com a falta, com a espera, com a frustração. Ele busca soluções concretas, imediatas, corporais. A adicção é uma expressão dessa falha na simbolização: o sujeito recorre ao corpo, à substância ou ao ato para lidar com questões que deveriam ser elaboradas simbolicamente.

Perspectivas Contemporâneas: Lacan, Winnicott e Outros Autores

A psicanálise contemporânea ampliou a compreensão da adicção, incorporando novos conceitos e abordagens clínicas.

Lacan: o objeto a e o gozo

Para Lacan, a adicção está ligada ao objeto a, o objeto causa do desejo. O objeto adictivo funciona como um objeto a que o sujeito tenta capturar, mas que nunca se deixa capturar completamente. A adicção é uma tentativa de preencher a falta estrutural, mas essa tentativa está fadada ao fracasso, o que leva à repetição compulsiva.

Além disso, Lacan descreve o gozo como algo que ultrapassa o prazer e que pode ser destrutivo. O adicto busca esse gozo, que é ao mesmo tempo atraente e devastador.

Winnicott: falhas ambientais e uso de objetos

Winnicott oferece uma perspectiva importante ao destacar o papel do ambiente. Para ele, a adicção pode surgir quando o ambiente falha em oferecer holding, continência e espelhamento adequados. O sujeito, então, recorre a objetos externos para suprir essa falha.

O objeto adictivo, nesse sentido, funciona como um objeto transicional patológico: ele oferece uma ilusão de controle e de segurança, mas impede o desenvolvimento da autonomia.

Outros autores

Autores como Joyce McDougall, Christopher Bollas e André Green também contribuíram para a compreensão da adicção como fenômeno psíquico complexo, ligado a falhas na simbolização, a traumas precoces e a dificuldades na constituição do self.

Implicações Clínicas: Tratamento, Transferência e Manejo

A clínica da adicção é desafiadora. O sujeito adicto frequentemente apresenta resistência, acting out, rupturas na transferência e dificuldades de simbolização. No entanto, a psicanálise oferece ferramentas valiosas para compreender e tratar esses sujeitos.

A transferência na adicção

A transferência pode ser marcada por idealização, desconfiança, dependência ou rejeição. O analista deve manejar essas manifestações com cuidado, evitando tanto a fusão quanto o abandono.

O manejo do acting out

O acting out é comum na adicção. O sujeito age em vez de falar. O analista deve interpretar o sentido desse acting out, sem moralizar ou punir.

A importância do enquadre

O enquadre é fundamental para oferecer ao sujeito uma experiência de estabilidade e de continência que ele não teve no passado.

A construção de novos modos de satisfação

O objetivo da análise não é abolir o desejo ou o gozo, mas permitir que o sujeito encontre modos de satisfação menos destrutivos, mais simbólicos e mais integrados.

Considerações Finais

A adicção, na psicanálise, é muito mais do que dependência. É uma forma de relação com o objeto, com o corpo e com o gozo. É uma tentativa de lidar com a falta, com a angústia e com falhas na simbolização. As fixações desempenham papel central nesse processo, oferecendo pontos de retorno que estruturam a compulsão adictiva. Compreender a adicção a partir da psicanálise é reconhecer que o sujeito adicto não é apenas alguém que perdeu o controle, mas alguém que encontrou, na adicção, uma solução precária para conflitos psíquicos profundos.

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Psicanálise das Adicções

Gérard Pilot

Drogas ilícitas, jogo, comida, sexo, pornografia, computadores, internet, games, exercícios, trabalho, TV, compras etc. A partir da psicanálise freudiana, o autor aborda os conflitos, sofrimentos e dramas relacionados às psicopatologias decorrentes dos diversos tipos de vícios, dependências psicológicas e compulsões presentes na sociedade atual.

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