O que significa MÃE SUFICIENTEMENTE BOA para a Psicanálise?

O conceito de Mãe Suficientemente Boa, cunhado pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, é uma das contribuições mais humanas e libertadoras da história do estudos da psiquê. Longe de ser uma fórmula de perfeição, essa teoria surge como um antídoto para a culpa materna e um roteiro para o desenvolvimento de um eu saudável.



A Origem do Conceito e o Ambiente Facilitador

Para entender a "mãe suficientemente boa", precisamos primeiro entender o contexto de Donald Winnicott. Atuando durante e após a Segunda Guerra Mundial, ele observou milhares de díades (mãe-bebê) e percebeu que o desenvolvimento emocional não dependia apenas de instintos biológicos, mas da qualidade do ambiente. Para Winnicott, o bebê não existe sozinho; ele existe em uma relação.

O termo surge para descrever a mãe (ou o cuidador principal) que consegue se adaptar às necessidades do bebê de forma total no início, mas que, gradualmente, falha de maneira controlada. Essa "falha" não é negligência; é o que permite que a criança perceba que o mundo não é uma extensão de seus desejos.

Diferente das teorias que buscavam uma "mãe ideal", Winnicott valorizava a mãe real. A mãe idealizada seria aquela que satisfaz todos os desejos instantaneamente para sempre, o que, paradoxalmente, impediria o crescimento psíquico do filho. A mãe suficientemente boa é aquela que fornece o que ele chama de Ambiente Facilitador, um espaço seguro onde o bebê pode passar do estado de "dependência absoluta" para a "dependência relativa" e, finalmente, rumo à independência.

A Preocupação Materna Primária e a Ilusão de Onipotência

Nos primeiros meses de vida, a mãe suficientemente boa entra em um estado mental que Winnicott denominou Preocupação Materna Primária. É uma espécie de "doença normal" ou estado de hipersensibilidade onde a mãe se identifica de tal forma com o recém-nascido que consegue antecipar quase todas as suas necessidades: fome, frio, desconforto ou sono.

Nessa fase, a função da mãe é prover a Ilusão. Quando o bebê sente fome e o seio (ou a mamadeira) aparece quase instantaneamente, ele tem a sensação mágica de que ele criou aquele objeto. Essa experiência de onipotência subjetiva é vital. Ela dá à criança a base de segurança necessária para sentir que o mundo é um lugar confiável e que seus desejos têm impacto na realidade.

"A mãe suficientemente boa começa com uma adaptação quase total às necessidades de seu bebê e, à medida que o tempo passa, ela se adapta cada vez menos completamente, de acordo com a crescente capacidade do bebê em lidar com o fracasso dela." — D.W. Winnicott

Se essa fase de adaptação total for bem-sucedida, o bebê desenvolve um "núcleo de ser" sólido. Sem essa fase inicial de onipotência, o indivíduo pode crescer sentindo que o mundo é um lugar caótico e invasivo, onde ele precisa estar constantemente em guarda.

O Valor da Falha Gradual e a Desilusão Necessária

Este é o ponto onde o conceito se torna verdadeiramente revolucionário: a mãe torna-se "suficientemente boa" justamente por ser imperfeita. À medida que o bebê cresce, a mãe retoma sua própria vida, seus interesses, seu cansaço e suas limitações. Ela não chega mais no exato segundo em que o bebê chora; ela demora um pouco mais para preparar o banho; ela começa a falhar na adaptação total.

Essas pequenas falhas são o que chamamos de Desilusão. Se a desilusão ocorrer de forma gradual e em um ritmo que o bebê consiga suportar, ela é extremamente saudável. É através dessa lacuna entre o desejo e a satisfação que o pensamento nasce. O bebê começa a entender: "Eu sou eu, e minha mãe é outra pessoa".

Se a mãe continuasse sendo "perfeita" e antecipasse tudo para sempre, o filho nunca desenvolveria os próprios recursos psíquicos. A "falha" da mãe obriga a criança a simbolizar, a chorar para pedir, a usar a imaginação e a reconhecer a existência de uma realidade externa que não está sob seu controle total. Portanto, a mãe que se sente culpada por não ser onipresente está, na verdade, prestando um serviço essencial ao desenvolvimento da autonomia do filho.



Holding e a Função de Sustentação

Winnicott utiliza o termo Holding (sustentação) para descrever não apenas o ato físico de segurar o bebê, mas a sustentação psicológica do seu ego ainda frágil. A mãe suficientemente boa funciona como um "contêiner" para as angústias do bebê. Quando o bebê entra em colapso ou sente um medo terrível de "se despedaçar", a mãe está lá para integrá-lo novamente através do toque, do olhar e da voz.

O holding protege o bebê de "invasões" ambientais que ele ainda não consegue processar. Imagine o psiquismo do bebê como um cristal em formação; o holding é a mão que protege esse cristal do vento forte.

Ligado ao holding, temos o conceito de Handling (manejo), que é a forma como o corpo do bebê é manipulado. O cuidado físico adequado ajuda o bebê a sentir que sua mente reside dentro de seu corpo. Quando a mãe é suficientemente boa, ela permite que o filho alcance a Integração, transformando uma série de sensações desconexas em uma sensação de unidade: "Eu existo, eu sou um só".

Verdadeiro Self versus Falso Self

A maior consequência de ter (ou não ter) uma mãe suficientemente boa reflete-se na constituição do Self.

  • Verdadeiro Self: Surge quando os gestos espontâneos do bebê são acolhidos e validados pela mãe. A criança sente que pode ser autêntica, criativa e até "madrasta" às vezes, sem perder o amor do cuidador.
  • Falso Self: Surge quando a mãe não consegue se adaptar ao bebê e exige que o bebê se adapte a ela. Se a mãe é depressiva, instável ou excessivamente rígida, o bebê aprende a esconder suas necessidades reais para "proteger" a mãe ou para sobreviver ao ambiente. Ele desenvolve uma máscara de "bom menino" ou "criança perfeita", mas por dentro sente-se vazio e irreal.

A mãe suficientemente boa permite que o filho seja "mau", barulhento e exigente, porque ela sobrevive aos ataques dele sem retaliar ou desaparecer. Essa sobrevivência da mãe ao ódio e à agressividade do bebê (fases normais do desenvolvimento) ensina à criança que os seus impulsos não destroem o mundo e que o amor é resiliente.

Ser uma mãe suficientemente boa significa ter a coragem de ser humana. É aceitar que o erro faz parte do processo educativo e que o amor não se manifesta na ausência de falhas, mas na capacidade de reparar os vínculos e sustentar a existência do outro enquanto ele aprende a caminhar com as próprias pernas.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Bebês e suas mães: 2

Donald Wood Winnicott

Entre os termos clássicos cunhados por Winnicott e aqui descritos está o segurar [holding] – como metonímia da forma como a mãe fornece sustentação para que seu filho se torne uma pessoa saudável –, a mãe suficientemente boa – que não é nem onipotente e procura sanar qualquer sofrimento do filho, nem ausente e distante, deixando a criança em desamparo –, e o ambiente facilitador – que propicia tanto o desenvolvimento do bebê quanto as falhas necessárias para a constituição de sua identidade.

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