Hoje, li o artigo de opinião "É corrupto, mas é o meu corrupto", escrito pelo jornalista Hélio Schwartsman para o jornal Folha de S.Paulo. No texto, Schwartsman se esforça para fazer uma articulação crítica para tentar demonstrar, ao que parece, a hipocrisia dos eleitores bolsonaristas, os quais, segundo argumenta, "cobram higidez de Lula, mas ignoram suspeitas fortes contra Flávio".
Embora a matéria seja bem escrita e possua um escopo interessante, ela perde um pouco de mérito na arguição no momento em que direciona a discussão não para uma análise generalista — como deveria ser quando se trata de um parecer contra a corrupção —, mas para uma dissertação que afaga os eleitores lulistas, cujo candidato, segundo Schwartsman, teve suas condenações anuladas pela Justiça, ao passo que é veemente ao sublinhar que os bolsonaristas ignoram as suspeitas contra o filho 01 do ex-presidente da República.
Ora, parece-me um tanto quanto contraditória essa linha de pensamento, já que o processo de condenação de Lula da Silva, julgado em duas instâncias e respaldado até pelo STF, foi julgado nulo por um erro de foro, não sendo considerada uma absolvição propriamente. No caso do filho mais velho de Bolsonaro, têm-se indícios, os quais, como o próprio nome indica, tratam-se de suspeitas, sem materialidade de crime comprovada, ao menos não ainda.
Levando-se em consideração que, no Brasil, todos são inocentes até que se prove o contrário, tentar equiparar os candidatos, especialmente no quesito específico proposto na matéria, mostra-se, no mínimo, incoerente e forçado.
Não sou bolsonarista, nem lulista, pois considero militância uma espécie de agrupamento ideológico radical, onde as pessoas estão tão dentro de suas bolhas que a capacidade de enxergar os próprios erros é precarizada ao limite em decorrência do ódio que sentem daqueles que não veem o mundo do mesmo ponto de vista que elas.
Em O mal-estar na civilização, obra publicada em 1930, mas atualíssima em sua tese, Freud apontou o perigo que esse tipo de massa (e outros) representa para o projeto civilizatório, já que seus integrantes não conseguem lidar com as diferenças como algo normal à natureza humana. As consequências essas que vemos com contornos mais explícitos em períodos eleitorais: grupos ideológicos tratando os outros como razão para o mal no mundo, enquanto utilizam como ferramenta de militância, e sem qualquer constrangimento, tudo aquilo que condenam em seus "adversários". Eis a verdadeira hipocrisia de grande parte dos eleitores brasileiros.
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