| Cartaz do filme Truly Naked (2026). Fonte: IMDb. |
Assistir ao filme Truly Naked (2026), longa-metragem da diretora holandesa Muriel d'Ansembourg, foi surpreendentemente positivo. Digo surpreendente porque a absoluta maioria dos filmes que tentam trazer representações estéticas do mal-estar que integra a indústria do entretenimento adulto geralmente só entrega caricaturas rasas que pouco fazem refletir. Truly Naked consegue fugir desse lugar comum, entregando uma narrativa minimamente madura e provocante.
O filme gira em torno de Alec, um adolescente introvertido que vive uma rotina, digamos, no mínimo, incomum: ele atua como operador de câmera e editor dos filmes pornográficos caseiros produzidos por seu pai. Embora pareça totalmente adaptado a encarar a sexualidade apenas como uma performance mecânica por trás das lentes, sua calmaria passa por uma reviravolta ao se aproximar, contra a sua vontade, de Nina, uma colega de classe de atitude independente que o força a encarar o sexo e os relacionamentos sob a ótica da intimidade e da vulnerabilidade reais.
| Caolán O'Gorman é Alec em Truly Naked (2026). Fonte: IMDb |
Alec é interpretado pelo ator norte-irlandês Caolán O'Gorman, cuja atuação consegue ser convincente graças à sua capacidade de nos entregar uma timidez que contrasta com o ambiente no qual ele está inserido na vida privada, e que pode ser bem evidenciada na sua falta de coragem de olhar nos olhos dos demais personagens, em especial do seu par romântico, demonstrando como o ambiente pornográfico gera conflitos internos, traumas, que influenciam na dinâmica afetiva de um sujeito. Ou seja, Alec é um jovem que sabe bastante sobre anatomia e como capturá-la com a câmera, mas pouco sobre conexões humanas.
Safiya Benaddi interpreta Nina, em uma atuação que entrega um magnetismo incrível, cuja personagem estabelece o verdadeiro motor emocional da narrativa. Gostei do modo como a atriz consegue entregar uma presença em cena totalmente natural e desarmada, equilibrando vulnerabilidade e firmeza ao dar vida a uma jovem de atitude independente que se recusa a ser reduzida a uma mera projeção ou fantasia do seu par romântico. Benaddi conseguiu demonstrar uma química orgânica e sensível ao lado de O'Gorman, e também introduzir mais humanidade e autenticidade à trama, sendo crucial para guiar o protagonista para fora de sua bolha de desapego e forçá-lo a encarar os riscos e as lições de uma intimidade real.
| Safiya Benaddi é Nina em Truly Naked (2026). Fonte: IMDb |
Andrew Howard e Alessa Savage, embora estejam mais fixos na interpretação de personagens de dentro da indústria erótica, também entregam uma carga dramática digna de aplausos, ele como um pai que tenta lidar com as necessidades próprias do contexto em que vive e da relação com o filho; ela como uma atriz pornô que faz refletir como é esse meio, sobretudo para as mulheres. A cena em que dialoga com Nina sobre a contradição do discurso feminista em relação à atividade feminina na indústria pornô é bastante interessante.
O grande acerto do longa é inverter o clichê da provocação.
A direção de d'Ansembourg evita cair na armadilha do puritanismo ou da mera demonização do setor adulto, o que é algo positivo em se tratando de um longa que pretende ir além do senso comum. Ela retrata a dinâmica entre pai e filho com nuances complexas, mesclando um carinho doméstico autêntico com uma clara irresponsabilidade paterna, além de dar espaço e voz às atrizes de conteúdo adulto sem tratá-las como meras vítimas estigmatizadas.
Único ponto que não me empolgou foi o fato de o roteiro tentar dar lugar a muitos subtemas ao mesmo tempo, como é o caso do vício em pornografia digital e as inserções de discurso dos papéis de gênero, os quais acabaram sendo subutilizados e servindo pouco à narrativa em si. Também achei muito conveniente o trabalho escolar sobre vício em pornografia digital, embora entenda que essa facilitação foi necessária para convergir os personagens.
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