Quem é Ascáfalo na Mitologia Grega?

O nome Ascálafo designa duas entidades específicas na tradição helênica: a primeira, uma criatura ctônica associada aos mistérios do Submundo e ao destino da deusa Perséfone; a segunda, um herói mortal de linhagem divina que participou de eventos definidores da Era Heroica, como a expedição dos Argonautas e a Guerra de Tróia. 

O mais célebre dos dois personagens com este nome é o Ascálafo ctônico, um daímon ou espírito subterrâneo intimamente ligado ao reino dos mortos. A sua genealogia varia ligeiramente conforme a tradição consultada, mas a versão consagrada pelo poeta romano Ovídio em sua obra Metamorfoses aponta-o como filho de Aqueronte, o rio da dor que delimita o Submundo, e da ninfa das trevas Orfne. Em outras variantes, como a registrada pelo mitógrafo Apolodoro, ele figura como filho de Aqueronte com a ninfa Gorgo. Independentemente da linhagem materna, sua origem fluvial e sombria conferia-lhe o papel de guardião e supervisor dos pomares e jardins de Hades, o senhor do palácio subterrâneo.

A relevância mitológica deste Ascálafo atinge o seu ápice no episódio conhecido como o Rapto de Perséfone. Quando a filha de Deméter foi levada por Hades para as profundezas da terra, a dor de sua mãe fez com que a vegetação do mundo mortal fenecesse, mergulhando a humanidade em uma fome devastadora. Diante da crise cósmica, Zeus interveio e determinou que Perséfone poderia retornar ao convívio dos deuses olímpicos e de sua mãe, desde que não tivesse consumido nenhum alimento no reino dos mortos. Perséfone estava prestes a ser libertada quando Ascálafo, no estrito cumprimento de seus deveres de observação no jardim, testemunhou a deusa colher e ingerir algumas sementes de uma romã.

Ao delatar o ato de Perséfone às divindades, Ascálafo selou o destino da deusa, que passou a ser obrigada a dividir o seu tempo entre o Submundo e a superfície, originando o ciclo das estações do ano. A reação de Deméter diante da indiscrição do guardião foi implacável. Tomada pela cólera devido à perda parcial de sua filha, a deusa da agricultura puniu Ascálafo sepultando-o sob uma rocha imensa no próprio reino dos mortos. O castigo durou eras, até o momento em que o herói Héracles, durante a execução de seu décimo segundo trabalho, que consistia em capturar o cão Cérbero, moveu a monumental rocha e libertou o prisioneiro. A vingança de Deméter, contudo, não se deu por encerrada; ao ver o daímon livre, a deusa transformou-o definitivamente em um bufo ou coruja-orelhuda, uma ave noturna de canto lúgubre, considerada pelos gregos e romanos como um presságio de infortúnio e morte. 

A segunda figura a ostentar o nome de Ascálafo afasta-se do ambiente sombrio do Submundo para inserir-se nas grandes epopeias da superfície. Trata-se do filho de Ares, o deus da guerra, com a mortal Astíoque. Este Ascálafo governava a cidade de Orcómeno, na Beócia, juntamente com o seu irmão gémeo Iálmeno. Dotado de bravura marcial herdada de seu progenitor divino, ele integrou a seleta tripulação do navio Argo sob o comando de Jasão, participando ativamente da busca pelo Velocino de Ouro na Cólquida. Posteriormente, seu nome surge entre os pretendentes de Helena de Esparta, o que o obrigou, em virtude do juramento de Tíndaro, a mobilizar trinta navios de Orcómeno para a expedição aqueia contra a cidade de Tróia. Na Ilíada de Homero, Ascálafo atua como um combatente valoroso até encontrar a morte pelas mãos de Deífobo, um dos príncipes troianos. O falecimento deste filho gerou tamanha fúria em Ares que o deus da guerra tentou romper a proibição de Zeus e descer ao campo de batalha para vingá-lo, sendo contido apenas pela intervenção de Atena. 

Referência Bibliográficas

BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2ª Ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
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FRANCHINI, A. S.; SEGANFREDO, Carmen. As 100 Melhores Histórias da Mitologia: Deuses, Heróis, Monstros e Amores Notáveis. 1ª Ed. Porto Alegre: LePM, 2003.
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GRAVES, Robert. O Grande Livro dos Mitos Gregos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2008.
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GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
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HOMERO. Ilíada. [Tradução de Frederico Lourenço]. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
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OVÍDIO. Metamorfoses. [Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves]. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
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