O que significa Catábase (κατάβασις) na Mitologia Grega?
Derivado do grego clássico κατάβασις, composto pela preposição katá ("para baixo") e pelo verbo baínō ("ir" ou "caminhar"), o termo designa, em sua acepção fundamental, a ação de descer. No entanto, no horizonte do mito e da religiosidade helênica, esse conceito extrapola o mero movimento físico de declive para configurar a jornada iniciática por excelência: a descida deliberada de um mortal vivo ao reino dos mortos, o Hades, e a subsequente tentativa de regresso ao mundo da luz, a chamada anábase (ανάβασις).
O Hades não se desenhava propriamente como um inferno nos moldes teológicos judaico-cristãos, marcado pela punição eterna de pecadores, mas sim como o receptáculo inevitável de todas as sombras existenciais, um domínio subterrâneo e úmido onde as almas perdiam sua substância viva, transformando-se em eídōla, espectros desprovidos de vigor, memória e voz clara. Atravessar a fronteira que separa os vivos dos mortos sem ter atravessado o trespasse biológico da morte representava uma transgressão absoluta das leis da natureza divina. Por essa razão, a catábase não era um empreendimento acessível a homens comuns; ela constituía o teste definitivo do herói, o marco divisório entre o indivíduo extraordinário e a condição humana frágil.
Diferentemente da nekyia, ritual em que o herói permanece na borda do mundo dos mortos e evoca os espíritos mediante libações de sangue, como faz Odisseu no Canto XI da Odisseia, a catábase exige a penetração física e a imersão na geografia do Submundo. O viajante deve cruzar os rios infernais, como o Estige e o Acheronte, negociar a travessia com o barqueiro Caronte, esquivar-se ou subjugar o cão Cérbero e encarar a presença austera do próprio deus Hades e de sua esposa Perséfone. Trata-se de um ambiente de dissolução identitária, onde o silêncio, a penumbra e a imobilidade ameaçam devorar a consciência daquele que ousa entrar.
As motivações para a jornada noturna variam entre as narrativas, revelando facetas distintas da psique helênica. No mito de Orfeu, o poeta e músico supremo, a motivação é o amor trágico e a recusa da perda. Orfeu desce ao Hades com sua lira para resgatar Eurídice, mobilizando a arte e a beleza capazes de mover as próprias divindades infernais. Contudo, a catábase orficamente orientada revela a tragédia da dúvida humana: ao desobedecer à condição estipulada de não olhar para trás até atingir a luz, Orfeu perde Eurídice definitivamente. O mito sugere que, embora a arte possa abrir as portas do abismo, o homem não pode confrontar a morte sem transformar irrevogavelmente o objeto de seu desejo.
Em contrapartida, na trajetória de Heracles, a catábase assume o caráter de prova de força e superação ontológica. O décimo segundo trabalho imposto ao herói consiste em capturar Cérbero, o cão de três cabeças que guarda os portões do Hades, e trazê-lo à superfície sem o uso de armas. Heracles não busca resgatar o passado ou consultar o futuro, mas demonstrar a vitória da vitalidade heroica sobre o terror primordial da morte. Ao subjugar o monstro infernal e retornar ileso, Heracles consolida sua transição de mortal a ser divino, prenunciando sua posterior apoteose.
Há ainda as catábases orientadas pela busca de sabedoria ou transformação interior, como a travessia de Psiquê na narrativa apuleiana tardia de raízes profundamente gregas, em que a alma enfrenta a escuridão em nome do conhecimento e da unificação com o divino amor. Do mesmo modo, Teseu e Pirítoo empreendem uma descida impetuosa, embora malsucedida, movida pela hibris de tentar raptar Perséfone, episódio que demonstra o perigo de profanar a ordem cósmica, resultando no aprisionamento prolongado dos heróis nas cadeiras do esquecimento.
Do ponto de vista hermenêutico e psicológico, a catábase funciona como uma metáfora da transformação iniciática e do confronto com a sombra. Os mistérios de Elêusis, um dos cultos mais influentes da Grécia Antiga, estruturavam-se no mito do ciclo de Perséfone, cuja descida periódica ao mundo subterrâneo e posterior retorno garantiam a renovação da agricultura e a promessa de uma existência serena na vida após a morte para os iniciados. A catábase encerra um paradoxo fertilizador: é preciso descer à escuridão, encarar a finitude e experimentar uma morte simbólica para que o indivíduo possa renascer dotado de um saber superior.
O legado da catábase ultrapassou os limites da Antiguidade Clássica e moldou a espinha dorsal da literatura ocidental. A jornada de Eneias ao Submundo no Livro VI da Eneida de Virgílio, diretamente inspirada nos modelos gregos, serviu de matriz direta para a Divina Comédia de Dante Alighieri, na qual a descida ao Inferno é o pressuposto indispensável para a ascensão ao Purgatório e ao Paraíso. Na modernidade, o conceito permanece na literatura, na psicanálise e nos estudos comparados de mitologia, permanecendo como o símbolo universal do confronto com o inconsciente, com a dor inevitável e com as forças mais profundas da condição humana.
Referências Bibliográficas
CAMPBELL, J. O Herói de mil faces. 1ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2024.
Ver na AmazonELIADE, M. Aspectos do mito. Coimbra: Edições 70, 1986.
Ver na AmazonGRAVES, R. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
Ver na AmazonGRIMAL, P. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
Ver na AmazonHOMERO. Odisseia. [Tradução de Frederico Lourenço]. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2011.
Ver na AmazonVERNANT, J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.
Ver na AmazonVIRGÍLIO. Eneida. [Tradução de João Carlos de Melo Mota]. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
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