[...] te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez [...]

Caio Fernando Abreu, no livro Morangos Mofados

Essa frase, presente no conto "Os sobreviventes", parece não falar de uma fé institucionalizada, dogmática ou necessariamente religiosa, e sim de fé como a capacidade primordial de se encantar, uma força motriz que o cinismo do amadurecimento e as decepções da vida insistem em desgastar. 

Ou seja, o valor não está no objeto da fé, mas no estado de espírito que ela proporciona. Ter fé, nesse contexto específico, significa não estar anestesiado. É a recusa em se render à apatia. Não à toa, o personagem evoca uma época, provavelmente a infância ou a juventude, em que o mundo parecia cheio de possibilidades, antes que as "quedas" da vida os tornassem excessivamente céticos ou defensivos. É o reconhecimento de que, em algum momento, ele e o seu interlocutor endureceram para se proteger, mas que essa proteção também os isolou do maravilhamento.

Podemos dizer que existe nessa passagem uma reflexão sobre o fato de que desejar que o outro "acredite em tudo outra vez" é o ato mais afetuoso que podemos oferecer.

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Morangos mofados

Por: Caio Fernando Abreu

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.

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