A introdução do conceito de pequeno outro remonta ao texto fundamental de Lacan sobre o Estádio do Espelho. Nesse momento constitutivo, o bebê, que vivencia seu corpo como algo fragmentado e disperso, reconhece sua imagem no espelho (ou no olhar da mãe, que serve de espelho). Essa imagem é o primeiro "outro". É uma unidade ortopédica que promete ao sujeito uma integridade que ele ainda não possui. O pequeno outro, aqui grafado como a (do francês autre), é o reflexo especular.
O eu (moi) se constrói, portanto, por uma identificação alienante. O sujeito não se vê a partir de si mesmo, mas a partir de uma imagem externa. O pequeno outro é esse semelhante, o alter ego, com quem o sujeito estabelece uma relação de transitivismo e rivalidade. Se o outro cai, eu caio; se o outro chora, eu choro. Existe uma equivalência entre o a (pequeno outro) e o a' (o eu). Essa relação é o que Lacan chama de eixo imaginário. É um plano de fascínio, onde o desejo é sempre o desejo do outro, no sentido de que eu desejo o que o outro deseja ou desejo ser o que o outro é, em uma lógica de espelhamento que ignora a alteridade radical.
Diferente do Grande Outro, que representa a ordem simbólica, a linguagem e a lei, o pequeno outro é o objeto da relação dual. É o parceiro da rivalidade narcísica. Quando amamos ou odiamos alguém de forma passional e especular, estamos lidando com o pequeno outro. Ele é a tela onde projetamos nossas próprias demandas e onde buscamos a confirmação da nossa própria existência como imagem totalizada. Sem o pequeno outro, o eu não teria contorno; no entanto, com ele, o eu está irremediavelmente perdido em uma imagem que não é ele, mas uma promessa de ser.
O Objeto Pequeno a como Causa de Desejo
À medida que a teoria lacaniana evolui, o pequeno outro deixa de ser apenas a imagem especular para se tornar o objeto pequeno a (objet petit a). Esta é, talvez, a invenção mais original de Lacan. Se no registro Imaginário o pequeno outro é o semelhante, no registro do Real ele se torna o resto, o resíduo que cai quando o sujeito entra na linguagem.
Quando o ser humano nasce e é capturado pelo sistema de significantes (o Grande Outro), algo da vida biológica pura é perdido. Essa perda gera um vazio. O objeto pequeno a não é o objeto que desejamos (como um carro, um parceiro ou um emprego), mas a causa que nos faz desejar. Ele é o buraco em torno do qual o desejo circula. O pequeno outro, nesta vertente, funciona como um suporte para o fantasma do sujeito. O sujeito passa a vida tentando reencontrar esse "pedaço" perdido, projetando em objetos do mundo a promessa de que eles preencherão sua falta constitutiva.
Nesse sentido, o pequeno outro é o que resta da operação de divisão subjetiva. Ele é um objeto paradoxal: é nada, um vazio, mas é o que dá peso e direção à vida psíquica. Lacan identifica formas específicas desse objeto que se destacam do corpo: o seio, as fezes, o olhar e a voz. São objetos "caducos", que marcam a fronteira entre o sujeito e o mundo. Quando olhamos para alguém (pequeno outro como semelhante), o que nos captura não é a pessoa inteira, mas o brilho de seu olhar ou o timbre de sua voz, fragmentos do objeto a que despertam o desejo.
A Tensão entre o Semelhante e a Alteridade Radical
Um erro comum na clínica e na teoria é confundir o pequeno outro com o Grande Outro. O pequeno outro é o meu próximo, aquele que é "como eu". O Grande Outro é o tesouro dos significantes, a cultura, a lei do pai, aquilo que é radicalmente diferente e que me precede. A relação com o pequeno outro é marcada pela agressividade narcísica e pela identificação. Como o outro é meu espelho, ele é também meu rival pelo mesmo lugar no mundo. Se ele possui o objeto, eu não o possuo.
A análise psicanalítica visa, em parte, deslocar o sujeito dessa fixação imaginária no pequeno outro. Se o sujeito permanece preso à relação especular, ele vive em uma eterna busca por aprovação ou em uma luta constante para destruir o espelho que o deforma. O amadurecimento analítico envolve reconhecer que o outro não é apenas um reflexo de mim mesmo, mas um representante de uma ordem maior.
No entanto, o pequeno outro (objeto a) é também o que protege o sujeito do Real avassalador. O fantasma é o que faz a ponte entre o sujeito barrado e o objeto causa de desejo. O pequeno outro empresta sua imagem para que o sujeito possa suportar o vazio da existência. Sem essa roupagem imaginária, o sujeito ficaria diante de um desamparo absoluto. O pequeno outro é, portanto, a "capa" que vestimos na falta para que o desejo possa continuar a deslizar de objeto em objeto, mantendo a economia psíquica em movimento.
O Lugar do Analista como Pequeno Outro e Objeto a
Na transferência, o analista ocupa diversos lugares. Inicialmente, ele pode ser colocado na posição de pequeno outro, o semelhante a quem o paciente dirige suas queixas e de quem espera compreensão ou simpatia. É a fase do "entendimento" imaginário, onde o paciente busca no analista um espelho que valide sua identidade. Contudo, se o analista permanecer apenas nesse lugar de pequeno outro, a análise estagna na sugestão e no reforço do narcisismo.
O progresso da cura exige que o analista decline da posição de semelhante para ocupar o lugar de objeto pequeno a. O analista deve tornar-se o suporte do resto, o lugar do silêncio que convoca o sujeito a falar sobre o seu próprio vazio. Ao não responder como um pequeno outro (não dando conselhos, não validando o ego), o analista força o sujeito a confrontar a falta que o habita.
Neste cenário, o pequeno outro revela sua face mais inquietante: a extimidade. O objeto a é o que há de mais íntimo em mim, mas que me aparece como algo externo e estranho. O analista, ao encarnar esse objeto, permite que o analisante desmonte suas identificações imaginárias com o semelhante e comece a articular seu desejo de uma forma menos alienada. O fim de uma análise coincide com a "travessia do fantasma", onde o sujeito aceita que o pequeno outro (como objeto que completaria o ser) não existe, e que ele deve aprender a lidar com o vazio que resta.
Referências Bibliográficas
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Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.