Quando falamos em "objeto" na psicanálise, não estamos nos referindo a coisas inanimadas, como um carro ou um celular, mas sim àquilo que é o alvo da pulsão, quase sempre, outra pessoa. Entender por que nos apaixonamos por determinado tipo de personalidade, ou por que repetimos padrões em nossos relacionamentos, exige um mergulho profundo na nossa história infantil e na maneira como fomos cuidados nos primeiros anos de vida. Para Freud, a escolha de quem amamos nunca é um lance de sorte ou um acaso biológico puro; ela é o resultado de uma intrincada construção psíquica que começa muito antes de sermos capazes de proferir a palavra "amor".
O fundamento da escolha de objeto reside no fato de que o ser humano nasce em um estado de total desamparo. Diferente de outros animais que possuem instintos prontos para a sobrevivência, o bebê humano depende inteiramente de um "outro" para ser alimentado, limpo e, acima de tudo, investido de afeto. É nesse cuidado inicial que se formam os primeiros traços daquilo que desejaremos no futuro. A mãe, ou quem exerça a função de cuidador, não apenas satisfaz a fome biológica, mas introduz a criança no universo do prazer e do simbólico. Esse primeiro grande encontro marca o psiquismo com uma série de impressões sensoriais e emocionais que servirão de protótipo para todas as escolhas futuras. Assim, a escolha de objeto é, em última instância, uma tentativa de reencontrar algo daquele prazer primordial ou de resolver conflitos que ficaram pendentes nessa relação inaugural.
A psicanálise identifica dois grandes caminhos pelos quais essa escolha se processa: o tipo anaclítico (ou de apoio) e o tipo narcisista. No tipo anaclítico, o sujeito escolhe seus parceiros baseando-se nas figuras que o protegeram e o alimentaram. É a busca por alguém que represente a segurança, o cuidado e a estabilidade associados aos pais. Por outro lado, na escolha narcisista, o sujeito não busca o "outro" por suas qualidades protetoras, mas sim como um espelho de si mesmo. Ele pode amar o que ele próprio é, o que ele foi, o que gostaria de ser ou alguém que já foi parte de si. Essas duas modalidades mostram que o amor está profundamente enraizado na imagem que temos de nós mesmos e nas necessidades que herdamos de nossa infância, revelando que, muitas vezes, quando dizemos que amamos alguém, estamos, na verdade, dialogando com fantasmas do nosso próprio passado.
Outro ponto crucial para compreender a escolha de objeto é o Complexo de Édipo. Freud argumentava que as primeiras inclinações sexuais e afetivas da criança são direcionadas aos pais, o que gera uma tensão entre desejo e proibição. A forma como cada indivíduo atravessa esse período e lida com a lei da castração determina as "condições de amor" que ele levará para a vida adulta. Algumas pessoas só conseguem desejar alguém que apresente certas características que remetam, inconscientemente, à figura materna ou paterna. Outras podem passar a vida buscando o oposto, em uma tentativa de fuga, mas que ainda assim mantém o objeto original como ponto de referência. Portanto, a escolha de objeto não é um ato de liberdade absoluta, mas um movimento dentro de um tabuleiro cujas peças foram posicionadas na nossa infância. É um processo que envolve tanto a descoberta do novo quanto o reconhecimento de algo que já estava lá, guardado nas profundezas do inconsciente.
Dito isso, é importante notar que a escolha de objeto evolui e se complexifica com o desenvolvimento do ego e a entrada na cultura. O amadurecimento permite que o sujeito saia da dependência absoluta e consiga investir energia em pessoas que são verdadeiramente diferentes de seus cuidadores primordiais, embora os traços básicos raramente desapareçam por completo. A psicanálise não vê essa "determinação" pelo passado como um destino trágico, mas como uma bússola. Ao compreendermos as razões inconscientes que nos levam a escolher determinados parceiros, ganhamos uma margem maior de liberdade para transformar padrões destrutivos e viver afetos mais autênticos. A escolha de objeto é o roteiro invisível que escrevemos sobre quem somos e como desejamos ser vistos e amados pelo mundo.
Referências Bibliográficas
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ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica, com trabalhos publicados em revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos nacionais e internacionais. Atua no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à interface Arte e Psicanálise, com ênfase na investigação dos processos psíquicos refletidos na escrita literária, na música e no cinema contemporâneos, tais como: perversões; parafilias; fetichismo; neossexualidades; violência e cultura; privação e delinquência; adicções e toxicomanias; família em desordem.