A Revisão Tripla Cega (Triple-blind Review) representa o nível mais elevado de anonimato dentro do processo de avaliação científica. Enquanto a comunidade acadêmica já está familiarizada com modelos que ocultam a identidade de uma ou duas partes, o sistema triplo-cego surge como uma resposta rigorosa à necessidade de eliminar preconceitos estruturais que podem resistir até mesmo nos modelos mais tradicionais de periódico.
O que é a Revisão Tripla Cega?
Neste modelo, o anonimato é estendido a três atores principais do fluxo editorial:
O Revisor: Não conhece a identidade dos autores.
O Autor: Não conhece a identidade dos revisores.
O Editor: Também não conhece a identidade dos autores durante a fase inicial de decisão e seleção de revisores.
Diferente do que ocorre na Revisão Cega Simples (onde o revisor sabe quem é o autor) ou na Dupla Cega (onde apenas o editor sabe as identidades), na revisão tripla cega o manuscrito é anonimizado antes mesmo de chegar às mãos do editor-chefe ou do editor de seção. Um assistente editorial ou um sistema automatizado remove todas as informações de autoria e afiliação, de modo que o editor avalia o potencial do artigo e escolhe os pareceristas baseando-se exclusivamente no conteúdo técnico.
Por que ir além do Duplo-Cego?
A motivação para a Revisão Tripla Cega é a eliminação do viés do editor. Estudos sobre a revisão por pares indicam que, embora o modelo duplo-cego proteja o artigo contra preconceitos do revisor, o editor ainda detém o poder de "filtrar" manuscritos com base no prestígio da instituição ou na fama do pesquisador.
Se um editor recebe um artigo de um ganhador do Prêmio Nobel e outro de um doutorando de uma universidade pouco conhecida, ele pode, mesmo inconscientemente, dar mais atenção ou escolher revisores mais "amigáveis" para o autor renomado. Ao cegar também o editor, o periódico garante que a triagem inicial (desk reject) e a escolha dos avaliadores sejam feitas de forma puramente meritocrática.
Vantagens e Impactos na Ciência
Combate ao Viés de Prestígio: Garante que a reputação de um autor não influencie a decisão editorial. Isso é vital para pesquisadores de países em desenvolvimento ou instituições fora do "eixo principal" da ciência mundial.
Equidade de Gênero e Etnia: Ao remover nomes e origens, o sistema minimiza preconceitos implícitos que podem prejudicar mulheres e minorias em áreas onde ainda há baixa representatividade.
Integridade Total: Eleva a confiança pública no periódico, uma vez que o processo demonstra um compromisso extremo com a objetividade.
Desafios de Implementação
Apesar de ser o modelo mais justo "no papel", a Revisão Tripla Cega é raramente adotada por ser logisticamente complexa:
Dificuldade de Anonimização: Em áreas muito especializadas, o editor muitas vezes consegue identificar o autor pelo estilo de escrita, citações recorrentes ou métodos específicos, tornando o "cego" ineficaz.
Carga Administrativa: Exige uma infraestrutura tecnológica robusta ou uma equipe de suporte que limpe os metadados e informações dos arquivos antes que os editores científicos os vejam.
Conflitos de Interesse: O maior risco prático é que o editor, por não saber quem é o autor, acabe escalando um revisor que seja colega de departamento ou desafeto pessoal do autor, criando um conflito de interesse que passaria despercebido.
Conclusão
A Revisão Tripla Cega é uma evolução ética necessária em um mundo acadêmico que busca maior diversidade e justiça. Embora a Revisão Cega Simples ainda seja comum por sua praticidade, e a Dupla Cega seja o padrão em muitas áreas, o modelo triplo desafia as revistas a serem verdadeiramente imparciais. Ele retira o "rosto" da ciência para que apenas a voz da descoberta seja ouvida.
Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.