Revistas predatórias: o que é a Lista de Beall?

A história da comunicação científica contemporânea possui um capítulo divisor de águas que atende pelo nome de Lista de Beall. Para compreender o que é essa lista, por que ela se tornou tão influente e, ao mesmo tempo, tão controversa, é preciso retornar ao início da década de 2010, quando o modelo de publicação acadêmica passava por uma transformação radical com a consolidação do Acesso Aberto (Open Access). Foi nesse cenário que Jeffrey Beall, um bibliotecário e professor associado da Universidade do Colorado, em Denver, identificou uma falha sistêmica que ameaçava a integridade do conhecimento global.

A Lista de Beall, formalmente intitulada como "Lista de Editoras de Acesso Aberto Potencialmente, Possivelmente ou Provavelmente Predatórias", foi uma compilação online iniciada em 2010. O objetivo de Beall era alertar pesquisadores sobre empresas editoriais que utilizavam o modelo de "taxa de processamento de artigos" (APC) não para promover a ciência, mas para explorar financeiramente autores sob a fachada de legitimidade acadêmica.

O Surgimento e a Missão de Jeffrey Beall

Como bibliotecário, Beall começou a notar um padrão alarmante: centenas de e-mails de spam chegando às caixas de entrada de acadêmicos, convidando-os a publicar em revistas com nomes pomposos, mas cujos endereços físicos eram inexistentes ou situados em locais suspeitos. Ao investigar essas editoras, ele percebeu que o processo de revisão por pares, o filtro de qualidade da ciência, era inexistente. Essas revistas aceitavam qualquer manuscrito, desde que o autor pagasse a taxa.

Em 2012, Beall publicou um artigo crítico na revista Nature, expondo o que ele chamou de "editoras predatórias". Sua lista tornou-se rapidamente a principal referência mundial para universidades, agências de fomento e pesquisadores individuais que buscavam distinguir periódicos sérios de fraudes lucrativas. Ele estabeleceu uma série de critérios rigorosos para incluir uma editora em sua "lista negra", que incluíam a falta de transparência nas taxas, conselhos editoriais fictícios e a promessa de publicação em prazos irrealisticamente curtos.

O Impacto no Mundo Acadêmico

A Lista de Beall preencheu um vácuo de governança na ciência. Antes dela, não havia um monitoramento centralizado sobre a ética das editoras de acesso aberto. O impacto foi imediato: comissões de ética e avaliadores de currículos em todo o mundo começaram a consultar o blog de Beall (Scholarly Open Access) antes de validar as publicações de seus docentes.

Para muitos, Beall era um herói da integridade científica, protegendo o financiamento público de ser desperdiçado em publicações inúteis e garantindo que a literatura acadêmica não fosse inundada por estudos sem rigor técnico. No entanto, à medida que a lista crescia, chegando a conter mais de mil editoras e periódicos independentes, a resistência também aumentava.

Controvérsias e o Encerramento Abrupto

Apesar de sua utilidade, a Lista de Beall não estava isenta de falhas e críticas. Muitos acadêmicos, especialmente no Sul Global (América Latina, África e partes da Ásia), acusaram o bibliotecário de viés ocidental. O argumento era que Beall frequentemente confundia a falta de recursos de uma revista pequena e legítima de um país em desenvolvimento com comportamento predatório. Revistas que cometiam erros de diagramação ou que não tinham sites sofisticados acabavam sendo "sentenciadas" na lista, o que prejudicava a disseminação de pesquisas regionais genuínas.

Além disso, Beall era um crítico feroz do próprio modelo de Acesso Aberto, o que gerou atritos com defensores da ciência aberta que viam em seus comentários uma generalização injusta. A pressão jurídica tornou-se insustentável. Grandes editoras citadas na lista iniciaram processos e ameaças legais contra Beall e a Universidade do Colorado.

Em janeiro de 2017, de forma súbita e sem explicações detalhadas na época, o blog de Jeffrey Beall foi retirado do ar. Anos depois, ele confirmou que a decisão foi motivada por pressões intensas da universidade, que temia retaliações jurídicas milionárias. Embora a lista original tenha sido congelada, o conceito de "lista de Beall" já havia se tornado parte do léxico acadêmico.

O Legado e as Alternativas Atuais

O encerramento da lista original não significou o fim do problema; pelo contrário, as editoras predatórias tornaram-se mais sofisticadas. Hoje, o legado de Beall sobrevive através de várias frentes. Existem "espelhos" da lista original mantidos por anônimos na internet, embora eles devam ser usados com cautela, pois não são atualizados com o rigor original.

Para substituir a subjetividade de uma lista mantida por apenas uma pessoa, a comunidade científica passou a adotar ferramentas mais colaborativas e institucionais:

  • Cabells' Scholarly Analytics: Uma empresa que mantém uma "Blacklist" (paga) com critérios verificáveis e um processo de apelação para as editoras.

  • DOAJ (Directory of Open Access Journals): Uma "Lista Branca" que inclui apenas revistas de acesso aberto que comprovadamente seguem boas práticas.

  • Think. Check. Submit.: Uma iniciativa global que fornece listas de verificação para que o próprio autor aprenda a identificar se uma revista é confiável.

Por que a Lista de Beall ainda é relevante?

Mesmo fora do ar, a Lista de Beall mudou a forma como encaramos a publicação científica. Ela revelou a vulnerabilidade do sistema de recompensas acadêmicas e forçou uma discussão necessária sobre como medir a qualidade da ciência além do volume de publicações. Ela serviu como um lembrete de que, em um mercado onde o conhecimento é a moeda de troca, a vigilância ética deve ser constante.

Para o pesquisador moderno, a lição deixada por Jeffrey Beall é a do esqueticismo saudável. Antes de submeter um trabalho que levou anos para ser concluído, é obrigação do autor investigar o "pedigree" da revista. A Lista de Beall foi o primeiro grande alerta de que, na era digital, nem tudo o que parece um artigo científico passou pelo crivo da verdade.

Conclusão

A Lista de Beall foi uma ferramenta imperfeita para um problema complexo, mas sua existência foi fundamental para amadurecer o ecossistema do Acesso Aberto. Ela personificou a resistência contra a mercantilização desenfreada do saber e, embora Jeffrey Beall tenha sido silenciado por pressões corporativas, a consciência que ele despertou permanece viva em cada comitê de ética e em cada pesquisador que, hoje, hesita antes de responder a um convite de publicação suspeito.

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