O que é o SIMBÓLICO para Lacan? Entenda o Papel da Linguagem e da Lei
| Jacques Lacan |
Para Jacques
Lacan, o conceito de Simbólico não é apenas uma categoria
filosófica, mas a espinha dorsal da experiência humana. Ao lado do Imaginário e
do Real, o Simbólico compõe a tríade que estrutura a psique. Se o
Imaginário é o reino das imagens e das ilusões de totalidade, e o Real é o que
escapa à palavra, o Simbólico é, fundamentalmente, o reino da Linguagem e
da Lei.
O Inconsciente é Estruturado como uma Linguagem
A tese mais famosa de Lacan é a porta de entrada para o
Simbólico. Influenciado pela linguística estrutural de Ferdinand de Saussure,
Lacan argumenta que o inconsciente não
é um reservatório de instintos animais ou impulsos biológicos brutos. Em vez
disso, ele funciona através de leis de substituição e combinação (metáfora e
metonímia), exatamente como uma língua.
No registro Simbólico, o que importa não é o objeto real,
mas o Significante. O significante é a palavra ou o som que
representa algo para outro significante. Por exemplo, o nome de uma pessoa
carrega uma carga simbólica que vai muito além de sua presença física. Entrar
no Simbólico significa aceitar que nossa identidade é definida por nomes,
títulos e posições em uma rede de palavras que existia muito antes de
nascermos.
O Grande Outro
Um dos pilares do Simbólico é o que Lacan chama de O
Grande Outro (Grand Autre). Enquanto o "pequeno
outro" (a) é o nosso semelhante, o espelho onde projetamos nossa imagem, o
Grande Outro representa a ordem da linguagem, a cultura, a lei e o tesouro dos
significantes.
O Simbólico é o lugar onde o sujeito busca reconhecimento.
Quando uma criança chora, ela não está apenas expressando uma necessidade
biológica; ela está endereçando um pedido ao Outro para que esse choro seja
transformado em significado. O Outro é o sistema que nos precede: as leis do
país, a língua materna, a história da nossa família. Estamos todos mergulhados
nessa "rede simbólica" que dita as regras do jogo social e subjetivo.
A Lei do Pai e a Castração Simbólica
Para Lacan, a entrada no registro Simbólico coincide com o
complexo de Édipo, mas de uma forma reinterpretada. Ele fala da Função
Paterna ou do Nome-do-Pai. O Simbólico introduz a Lei,
que separa a criança da relação fusional com a mãe.
Essa separação é o que Lacan chama de Castração
Simbólica. Não é um evento físico, mas o reconhecimento de que ninguém é o
"todo" para ninguém. O sujeito aceita que deve passar pela palavra
para obter o que deseja. Ao aceitar a Lei (o Simbólico), o sujeito perde o
acesso ao "gozo absoluto" (o Real), mas ganha em troca a
possibilidade de desejar e de se comunicar. Sem o Simbólico, o sujeito
permaneceria na psicose, onde a distinção entre si mesmo e o mundo é confusa ou
inexistente.
O Nó Borromeano: A Interdependência
O Simbólico não funciona sozinho. Lacan utilizou a figura
do Nó Borromeano para mostrar que se você cortar o anel do
Simbólico, os outros dois (Real e Imaginário) se desfazem.
O Simbólico "mortifica" a carne; ele transforma o
corpo biológico em um corpo de linguagem. Por exemplo, o "beijo" não
é apenas o toque de mucosas (Real) ou uma cena romântica (Imaginário); ele
carrega um significado simbólico de compromisso, traição ou desejo, dependendo
do lugar que ocupa na rede de palavras do sujeito. É o Simbólico que dá ordem e
limite ao caos das imagens e dos impulsos.
A Falta e o Desejo
Como o Simbólico é feito de palavras, e as palavras nunca
conseguem capturar a essência total das coisas (uma palavra é apenas a
"presença de uma ausência"), o registro Simbólico introduz a Falta.
Sempre que falamos, algo se perde. Essa perda é o que gera
o Desejo. O desejo é, por definição, um movimento em direção ao que
falta no Simbólico. Se pudéssemos dizer tudo, o desejo pararia. Como a
linguagem é falha, continuamos falando e buscando novos significantes para
tentar explicar quem somos.
O Simbólico na Clínica Psicanalítica
Na terapia lacaniana, o trabalho ocorre fundamentalmente no
registro Simbólico. O analista não busca apenas entender "como o paciente
se sente" (que é do campo Imaginário), mas sim identificar quais são
os significantes mestres que governam a vida daquele sujeito.
Muitas vezes, uma pessoa sofre porque está presa a um contrato simbólico inconsciente, por exemplo, a necessidade de "honrar o nome do pai" ou "curar a tristeza da mãe". Através da fala, o paciente pode reordenar esses significantes, transformando sua relação com a Lei e permitindo que o desejo circule de formas menos dolorosas.
Conclusão
O Simbólico é o que nos torna sujeitos da cultura. É o pacto que fazemos para viver em sociedade, abrindo mão da satisfação imediata em troca do sentido. Para Lacan, ser humano é estar irremediavelmente "enredado" na linguagem. Embora o Simbólico nos limite, é ele quem nos protege do abismo do Real e nos permite, através do diálogo, construir uma história para o nosso próprio sofrimento.
Sugestão de leitura sobre essa temática
Escritos
Jacques Lacan
A publicação dos Escritos de Lacan no Brasil constitui um marco para a bibliografia psicanalítica em língua portuguesa. Contendo a íntegra dos textos escritos por Lacan entre 1936 e 1966, inclui "O seminário sobre 'A carta roubada'", "O estádio do espelho", "Função e campo da fala e da linguagem", "O tempo lógico" e "A direção do tratamento", entre outros artigos fundamentais para a psicanálise contemporânea. Criteriosamente traduzido e revisto por especialistas na obra do mestre francês, o volume traz índices remissivos e a paginação correspondente no original francês. Notas abundantes, preparadas especialmente para a edição brasileira, esclarecem passagens complexas, justificam certas traduções propostas ou reproduzem trechos em que a referência ao original francês se faz imprescindível.
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