Breve olhar psicanalítico sobre o conto AQUELES DOIS, de Caio Fernando Abreu

Este post foi baseado no artigo acadêmico de Frederico de Lima Silva e Hermano de França Rodrigues (2024). A fonte está indicada no final do texto.

Você já sentiu que o mundo ao seu redor parece um "deserto de almas"? É sob essa metáfora poderosa que mergulhamos no universo de Caio Fernando Abreu, um dos escritores mais sensíveis e urbanos da nossa literatura.

No conto Aqueles dois, publicado originalmente em 1982 na coletânea Morangos Mofados, conhecemos Raul e Saul. Eles são dois funcionários de uma repartição burocrática que, em meio à solidão da cidade grande, encontram um no outro uma "estranha e secreta harmonia"

O que começa como um café compartilhado e conversas sobre cinema e música evolui para uma intimidade profunda. O artigo destaca que, quando estavam juntos, eles pareciam "cintilar", despertando o bonito um do outro. No entanto, essa conexão não passa despercebida pelos colegas de trabalho.

A narrativa é um retrato fiel de como a sociedade, representada pela firma onde trabalham, reage com hostilidade ao que foge do padrão heteronormativo. O texto utiliza o conceito de "narcisismo das pequenas diferenças", de Freud, para explicar essa repulsa: as pessoas tendem a rejeitar aquilo que as desafia ou que é apenas ligeiramente diferente de sua própria realidade.

  • A Repressão: No conto, o simples fato de chegarem juntos ao trabalho com os cabelos molhados é o suficiente para desencadear o silêncio das moças e os olhares maliciosos dos colegas.
  • O Estigma: O artigo lembra que CFA escreveu em um período sombrio (Ditadura Militar) e enfrentou o estigma da AIDS, sendo um dos primeiros a levar o tema para a ficção brasileira.

Um dos pontos altos do artigo é a retomada da visão de Sigmund Freud sobre a homossexualidade. Em uma carta histórica de 1935, Freud defendeu que a homossexualidade não é um vício, degradação ou doença, mas uma "variante da função sexual".

A análise reforça que a sexualidade humana possui uma "plasticidade" conduzida pelo desejo, e não uma fixação biológica obrigatória. Em Aqueles dois, a relação pode nem ter sido consumada sexualmente, mas o afeto e a cumplicidade já bastam para que o preconceito social tente marginalizá-los.

Por que ler Caio Fernando Abreu hoje?

A obra de CFA permanece urgente porque nos lembra que o amor, em suas múltiplas formas, é uma resistência contra a desumanização. Como o próprio autor escreveu: "a homossexualidade não existe... Existe sexualidade voltada para um objeto qualquer de desejo".

Leia o artigo originalCorpos apartados, afetos em co(a)lizão: o inventário homoerótico e os espólios da perversão em Aqueles dois, de Caio Fernando Abreu

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A prosa visceral dos dezoito contos de Morangos mofados ― potencializada pela hesitação coletiva de um país que vislumbrava a redemocratização ante a falência incipiente do regime militar ― traduziu as inconstâncias humanas mais profundas e continua, ainda hoje, arrebatando leitores de todas as gerações.

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