O que significa PRÉ-GENITAL para a psicanálise?

Cérebro Mente Psicologia - Imagens grátis no Pixabay


O conceito de autoerotismo serve como a pedra angular para a compreensão do desenvolvimento psicossexual humano. Embora o termo possa, à primeira vista, sugerir apenas o ato da masturbação, para a psicanálise ele possui uma profundidade muito maior: trata-se da forma como o sujeito se relaciona com o próprio corpo e como o prazer é descoberto de maneira independente de um objeto externo.

A Origem do Conceito: Freud e os Três Ensaios

O termo foi introduzido por Sigmund Freud em sua obra seminal de 1905, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Antes de Freud, a sexualidade era vista quase exclusivamente sob a ótica da reprodução e da biologia. Freud subverteu essa lógica ao demonstrar que a sexualidade humana começa muito cedo, na infância, e que suas primeiras manifestações não visam o outro, mas o próprio corpo.

O autoerotismo define um estágio onde a pulsão não busca um objeto externo (como outra pessoa) para ser satisfeita. Em vez disso, a satisfação é obtida no próprio corpo ou em uma parte dele.

A Pulsão Parcial

Para entender o autoerotismo, precisamos entender a pulsão. Ao contrário do instinto (que é biológico e fixo), a pulsão é uma pressão constante que busca satisfação. No início da vida, as pulsões são "parciais", ou seja, elas agem de forma independente umas das outras, ligadas a diferentes partes do corpo, as chamadas zonas erógenas.

O Apoio (Anaclise) e a Descoberta do Prazer

Um dos pontos mais fascinantes da teoria freudiana é como o autoerotismo nasce de funções biológicas vitais. Freud utiliza o conceito de apoio (Anlehnung).

Tomemos como exemplo a amamentação. Inicialmente, o bebê suga o seio da mãe para se alimentar (necessidade biológica). No entanto, o ato de sugar produz um prazer na mucosa dos lábios e da boca que vai além da saciedade da fome.

  • A transição: Em pouco tempo, a criança passa a desejar repetir esse prazer mesmo sem fome, levando-a a sugar o próprio dedo ou a língua.
  • A independência: Nesse momento, a sexualidade "se desprende" da função nutritiva e torna-se autoerótica. O objeto (o seio) é abandonado e substituído por uma parte do próprio corpo da criança.

As Zonas Erógenas: O Mapa do Prazer

O autoerotismo não ocorre de forma difusa em todo o corpo simultaneamente, mas organiza-se em torno de orifícios e superfícies sensíveis.

  • Zona Oral: A boca é o primeiro laboratório de prazer. O sugar, o morder e o explorar objetos com os lábios são manifestações autoeróticas primárias.
  • Zona Anal: Com o controle dos esfíncteres, a criança descobre prazer na retenção e expulsão das fezes. Aqui, o "objeto" de prazer é algo produzido pelo próprio corpo, reforçando a natureza autoerótica.
  • Zona Fálica: O foco se desloca para os órgãos genitais, onde a manipulação direta traz uma nova qualidade de satisfação.

Nessas fases, o prazer é fragmentado. Não existe ainda a noção de um "Eu" completo ou de um corpo unificado. A criança é, nas palavras de Freud, um "perverso polimorfo", capaz de extrair prazer de qualquer parte de sua anatomia.

Autoerotismo vs. Narcisismo: Uma Distinção Crucial

Muitas vezes esses termos são confundidos, mas a distinção feita por Freud em Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914) é vital para a clínica psicanalítica.

No autoerotismo, não há uma unidade. O bebê não se percebe como um indivíduo; ele é um conjunto de sensações espalhadas. Para que o narcisismo ocorra, é necessária uma "nova ação psíquica" que unifique essas pulsões parciais em uma imagem única do corpo. O autoerotismo é, portanto, o estado anárquico das pulsões, enquanto o narcisismo é a sua primeira organização em torno da identidade.

A Dimensão Fantasmática

Embora o autoerotismo utilize o corpo físico, ele não é puramente biológico. Ele é habitado pela fantasia.

Jean Laplanche, importante psicanalista francês, aprofundou essa ideia ao afirmar que o autoerotismo é o momento em que a fantasia nasce. Quando a criança busca repetir o prazer do seio através da sucção do polegar, ela está tentando reencontrar um objeto perdido na memória. O autoerotismo é a tentativa de satisfazer um desejo através da imaginação e da estimulação corporal simultaneamente.

O Autoerotismo na Vida Adulta

É um erro comum pensar que o autoerotismo é algo que "curamos" ou deixamos para trás na infância. Pelo contrário, ele permanece como uma base sobre a qual se constrói a sexualidade adulta.

A Sexualidade "Normal"

Mesmo na relação sexual com um parceiro (sexualidade objetal), componentes autoeróticos estão presentes. O prazer sentido em partes específicas do corpo (preliminares) nada mais é do que a reativação das pulsões parciais da infância.

Patologia e Fixação

O problema surge quando o sujeito não consegue progredir para a escolha de objeto e permanece "fixado" no estágio autoerótico. Isso pode se manifestar em certas compulsões ou em dificuldades severas de intimidade, onde o outro é irrelevante e o único prazer possível é aquele gerado solitariamente, sem a troca simbólica e afetiva.

Implicações Clínicas: O Corpo na Análise

Na clínica psicanalítica, observar as manifestações autoeróticas ajuda o analista a entender como o sujeito lida com a falta e com o desejo.

  • Somas e Sintomas: Muitas vezes, dores psicossomáticas ou tiques são formas de "investimento libidinal" em partes específicas do corpo, funcionando como um circuito fechado de satisfação (ou sofrimento) autoerótico.
  • A Resistência: O autoerotismo pode aparecer como uma resistência ao tratamento. O paciente que se fecha em seu próprio mundo de sensações pode estar tentando evitar o "perigo" de se relacionar com o analista (o objeto externo).

A Visão de Lacan: O Gozo e o Pequeno Objeto 'a'

Jacques Lacan trouxe uma nova camada ao autoerotismo ao discutir o conceito de Gozo. Para Lacan, o corpo é inicialmente um lugar de fragmentação (o "corpo despedaçado").

O autoerotismo está ligado ao que ele chama de objeto a, os restos da relação com o outro (o olhar, a voz, os excrementos, o seio) que caem e se tornam fontes de prazer solitário. Lacan enfatiza que o gozo autoerótico é "o gozo do idiota" (no sentido etimológico da palavra idios, que significa "próprio" ou "privado"). É um prazer que não serve para a comunicação, mas sim para o fechamento do sujeito em si mesmo.

Conclusão

Diferente de uma visão puramente negativa, o autoerotismo também possui uma função estruturante positiva. Donald Winnicott, embora com uma abordagem diferente, falava sobre a "capacidade de estar só na presença de alguém".Um autoerotismo saudável permite que o indivíduo suporte a solidão, encontre conforto em si mesmo e não dependa desesperadamente do outro para qualquer forma de regulação emocional ou prazer. É a base da autonomia psíquica.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria ("O caso Dora" ) e outros textos

Este sexto volume das obras completas de Freud traz textos fundamentais para o entendimento da psicanálise, como Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que recorre a sexólogos contemporâneos do psicanalista e às observações feitas a partir de seus pacientes para enfatizar a centralidade do sexo na vida humana.

Adquirir na Amazon
Capa do Livro

O que significa REPARAÇÃO para a psicanálise?

Cérebro Mente Psicologia - Imagens grátis no Pixabay

Para a psicanálise, o conceito de reparação não se resume a um simples pedido de desculpas ou ao conserto de algo quebrado no mundo externo. Trata-se de um processo psíquico profundo, essencial para o desenvolvimento emocional humano e para a capacidade de amar e trabalhar. Elaborado primordialmente por Melanie Klein, esse conceito descreve o esforço do ego para restaurar um objeto interno que foi "danificado" por impulsos agressivos e fantasias destrutivas.

As Raízes do Conceito: A Teoria Kleiniana

Para compreender a reparação, é preciso recuar até as bases da teoria das relações objetais. Melanie Klein propôs que o bebê, desde muito cedo, lida com uma dualidade de impulsos: o amor (pulsão de vida) e o ódio (pulsão de morte).

No início da vida, na chamada posição esquizoparanoide, o bebê não percebe a mãe como uma pessoa total. Ele a divide em "objeto bom" (quando ela satisfaz) e "objeto mau" (quando ela frustra). Nessa fase, a agressividade é projetada para fora para proteger o ego, e não há culpa, apenas medo de perseguição.

A reparação surge quando a criança transita para a posição depressiva (por volta do segundo semestre de vida). Aqui, o bebê começa a perceber que o "objeto bom" e o "objeto mau" são, na verdade, a mesma pessoa: a mãe.

A Descoberta da Ambivalência

Ao perceber a integração do objeto, surge um conflito angustiante. O bebê percebe que os ataques agressivos que ele dirigiu à "mãe má" em sua fantasia também atingiram a "mãe boa". Isso gera o sentimento de culpa depressiva e o medo de ter destruído permanentemente a fonte de sua vida e prazer. É desse sofrimento que nasce o impulso reparatório: o desejo urgente de curar, preservar e reconstruir o objeto amado.

A Natureza da Fantasia de Destruição

Na psicanálise, a realidade interna é tão soberana quanto a externa. Quando uma criança (ou um adulto em estado regressivo) sente raiva intensa, em sua fantasia, ela "estilhaça" o objeto. Se a mãe se afasta ou o ambiente falha, a psique interpreta isso como uma confirmação de que sua agressividade foi onipotente e destrutiva.

A reparação é a resposta do amor a essa destruição fantasiada. Ela funciona sob a lógica de que, se o ódio pode destruir, o amor deve ser capaz de reconstruir. Sem a capacidade de reparar, o indivíduo fica preso em um ciclo de desespero ou utiliza defesas maníacas para negar a importância do objeto.

Reparação Verdadeira vs. Reparação Maníaca

É crucial distinguir entre o processo genuíno de reparação e o que Klein chamou de defesas maníacas.

Reparação Verdadeira

  • Aceitação da Culpa: O indivíduo reconhece sua responsabilidade pelo dano (real ou imaginário).
  • Respeito pelo Objeto: O outro é visto como um ser separado, com necessidades próprias.
  • Paciência e Realismo: Entende-se que a restauração leva tempo e que o objeto pode nunca ser exatamente como era antes.
  • Integração: Fortalece o ego e permite que o indivíduo tolere a ambivalência (amar e odiar a mesma pessoa).

Reparação Maníaca

  • Negação da Dependência: O indivíduo age como se não precisasse do objeto ("Eu não ligo se o perdi").
  • Onipotência: A tentativa de "consertar" é mágica e instantânea, visando apenas livrar-se da culpa rapidamente, sem empatia real pelo dano causado.
  • Triunfo: Em vez de cuidar do objeto, o sujeito tenta sentir-se superior a ele.
  • Desprezo: O objeto é tratado como algo sem valor, para que sua destruição não cause dor.

O Papel da Reparação na Criatividade e na Arte

Uma das contribuições mais belas da teoria kleiniana (expandida por autores como Hanna Segal) é a ligação entre reparação e arte. Para a psicanálise, o ato criativo é, muitas vezes, uma tentativa de reconstruir o mundo interno em ruínas.

O artista, movido pela angústia de seus objetos internos danificados, projeta sua necessidade de harmonia na obra de arte. Pintar um quadro, escrever um romance ou compor uma sinfonia seriam formas sublimadas de "dar vida" novamente àquilo que o ódio tentou destruir. A obra de arte torna-se um objeto total, íntegro, que simboliza a vitória da pulsão de vida sobre a destrutividade.

Reparação na Clínica Psicanalítica

No setting terapêutico, a reparação manifesta-se na transferência. O paciente, ao longo do tratamento, pode projetar no analista suas fantasias de destruição. Ele pode tentar "quebrar" o analista através de ataques verbais, atrasos ou desvalorização.

O papel do analista é sobreviver a esses ataques sem retaliação. Ao perceber que o analista (o objeto) permanece íntegro e continua a oferecer compreensão apesar dos ataques, o paciente começa a desenvolver a capacidade de reparar.

O Processo de Luto

A reparação é o motor do luto saudável. Quando perdemos alguém, precisamos reconstruir essa pessoa dentro de nós. Se a relação era marcada por muita culpa não resolvida, o luto torna-se patológico (melancolia). A reparação permite que o sujeito "perdoe a si mesmo" e preserve as memórias boas, transformando o objeto perdido em uma presença interna benevolente.

A Reparação e a Ética

A capacidade de reparar é o fundamento da ética psicanalítica. Diferente de uma moral imposta por leis externas (Superpedagogia), a ética da reparação nasce de dentro, da preocupação genuína com o bem-estar do outro (concern).

Donald Winnicott, embora tenha divergências com Klein, expandiu esse conceito ao falar da "capacidade de preocupação". Para ele, a transição do "uso do objeto" para o "relacionamento com o objeto" exige que o indivíduo aceite que o outro sobreviveu à sua agressividade, permitindo que o amor e a gratidão floresçam.

Impactos na Vida Adulta e na Sociedade

Um indivíduo que não desenvolveu a capacidade de reparação tende a apresentar dificuldades severas em seus relacionamentos:

  • Relacionamentos Descartáveis: Quando surge um conflito, a pessoa abandona a relação por não acreditar que o dano possa ser reparado.
  • Perfeccionismo Paralisante: O medo de cometer qualquer erro (e assim "destruir" a imagem idealizada) impede a ação.
  • Depressão Inibidora: A culpa é tão esmagadora que o indivíduo se retrai, sentindo-se incapaz de qualquer gesto construtivo.

No nível social, a reparação é vista em processos de justiça restaurativa e em movimentos de reconhecimento de danos históricos. Contudo, psicanaliticamente, esses atos só têm valor transformador se houver uma mudança na economia psíquica dos envolvidos, uma passagem do ódio/paranoia para a responsabilidade depressiva.

Conclusão: Reparar é um Ato Contínuo

A reparação não é um evento único, mas uma postura diante da vida. Como seres humanos, somos inerentemente ambivalentes. Continuaremos a sentir raiva, a falhar com quem amamos e a ter fantasias de desvalorização.

A saúde mental não reside na ausência de impulsos destrutivos, mas na posse de ferramentas psíquicas para lidar com as consequências desses impulsos. Reparar é, em última análise, o reconhecimento de nossa fragilidade e da importância vital do outro. É o que permite que, após uma briga, haja um abraço; após um erro, haja um aprendizado; e após a dor, haja a possibilidade de beleza.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Amor, culpa e reparação - Melanie Klein

extos escritos entre 1921 e 1945, do período inicial do trabalho da autora, em que se testemunha a evolução de seu pensamento, desde o gradual descolamento da psicanálise freudiana clássica até a elaboração original do conceito de "posição depressiva", ligado ao momento de amadurecimento emocional de um indivíduo, que marca a criação de uma nova teoria do desenvolvimento psíquico.

Adquirir na Amazon
Capa do Livro

Colóquio Cecília Meireles e Lúcio Cardoso

 


A alma errante e fugidia do eu lírico encontra na noite escura o (pre)texto para (re)mover a pena. Num processo de eterno retorno Nietzscheano, alucina palavras de in(confidência) em estrutura introspectiva e em atmosfera política. O não-estar e o não-pertencer permitem romper um pesadelo estrutural de modelos (im)postos para explorar o psíquico e o moral. As indagações metafísicas, sociais e intimistas nas escritas de Lúcio Cardoso e Cecília Meireles brincam com a lógica por meio de estruturas simbólicas, ritmos e métricas. Às vésperas do mês dos namorados, oferecemos à Comunidade Acadêmica desfrutar "as mãos da noite quebrando os talos do pensamento."

O LIGEPSI (Grupo de Pesquisa em Literatura, Gênero e Psicanálise da UFPB), em parceria com o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, o Programa de Pós-Graduação em Letras, o Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, e o Laboratório de Estudos Literários e Psicanalíticos, realizará, no dia 28 de maio de 2025, o Colóquio Cecília Meireles e Lúcio Cardoso, evento que será promovido na modalidade híbrida (on-line e presencial), com vistas a homenagear a literatura intimista de dois dos maiores nomes da escrita ficcional brasileira, Cecília Meireles e Lúcio Cardoso.

A inscrição no Colóquio é gratuita para todas as atividades: palestras, mesas-redondas e simpósios temáticos (para apresentação de trabalhos na modalidade comunicação oral), com emissão de certificação para apresentadores e ouvintes, além da publicação, em formato e-book, dos trabalhos apresentados.

O que significa INTERPRETAÇÃO para a psicanálise?

A interpretação ocupa um lugar absolutamente central na psicanálise. Não é exagero dizer que, sem ela, a psicanálise simplesmente não existiria como método clínico, como teoria do inconsciente ou como forma de compreender a subjetividade humana. Elaborar um texto amplo sobre esse conceito exige percorrer sua história, suas funções, seus efeitos e suas transformações ao longo do tempo. A interpretação não é apenas uma técnica entre outras; ela é o modo pelo qual o inconsciente se torna audível, o meio pelo qual o sujeito pode se confrontar com aquilo que desconhece em si mesmo.

A interpretação como via de acesso ao inconsciente

Para Freud, o inconsciente não é algo que possa ser observado diretamente. Ele não é um lugar escondido no cérebro, nem um depósito de conteúdos reprimidos que podem ser simplesmente recuperados. O inconsciente se manifesta de forma indireta, cifrada, deslocada. Ele aparece em sonhos, atos falhos, sintomas, fantasias, lapsos de linguagem, esquecimentos e até mesmo em pequenas escolhas aparentemente banais do cotidiano.

A interpretação é justamente o processo pelo qual o analista tenta decifrar essas manifestações. Mas não se trata de decifrar como quem resolve um enigma com uma resposta única e definitiva. A interpretação psicanalítica não é uma tradução literal, nem uma explicação racionalizante. Ela é uma intervenção que visa abrir sentidos, não fechá-los. Seu objetivo é permitir que o sujeito reconheça algo de si mesmo que estava recalcado, deslocado ou distorcido.

Freud dizia que o inconsciente é estruturado como uma linguagem muito particular: ele fala por meio de condensações, deslocamentos, metáforas, imagens e associações. A interpretação, portanto, é o esforço de escutar essa linguagem e devolvê-la ao sujeito de modo que ele possa se apropriar dela.

A interpretação não é adivinhação

Um equívoco comum é imaginar que o analista interpreta como quem lê pensamentos ou como quem revela verdades ocultas. Isso não corresponde ao espírito da psicanálise. A interpretação não é uma revelação mágica, nem uma leitura objetiva do inconsciente. Ela é construída a partir do material trazido pelo paciente, de suas associações livres, de suas repetições, de seus silêncios e de suas resistências.

O analista não interpreta o que ele “acha” que o paciente sente; ele interpreta aquilo que emerge na relação analítica. Por isso, a interpretação é sempre contextual, situada, dependente do momento da análise e da transferência.

A transferência como condição da interpretação

A transferência é o fenômeno pelo qual o paciente desloca para o analista sentimentos, expectativas, fantasias e modos de relação que originalmente pertenciam a figuras importantes de sua história. Freud percebeu que a transferência não é um obstáculo à análise; ela é o motor da análise. É na transferência que o inconsciente se atualiza.

A interpretação, portanto, não é apenas interpretação de conteúdos, mas interpretação da transferência. Quando o analista interpreta, ele não está apenas falando sobre o passado do paciente, mas sobre o modo como esse passado se repete no presente da relação analítica.

Por exemplo, se um paciente reage com irritação a um silêncio do analista, a interpretação pode apontar para a repetição de uma experiência infantil de abandono. Mas essa interpretação só faz sentido porque a irritação ocorreu ali, naquele momento, naquela relação. A interpretação é sempre um ato que incide sobre o aqui e agora da sessão.

A interpretação como construção

Freud, em seus textos mais tardios, introduziu a ideia de “construção” na análise. Ele percebeu que, muitas vezes, o analista não pode simplesmente interpretar um conteúdo reprimido, porque esse conteúdo não está disponível nem mesmo de forma distorcida. Em certos casos, é preciso construir uma narrativa possível, uma hipótese que permita ao paciente reorganizar sua história psíquica.

A construção não é uma invenção arbitrária; ela é uma elaboração baseada em fragmentos, pistas, repetições e lacunas. É como montar um quebra-cabeça em que muitas peças estão faltando. A interpretação, nesse sentido, não é apenas decifração, mas criação de sentido.

A interpretação como corte

Com Lacan, a interpretação ganha uma dimensão ainda mais radical. Para ele, interpretar não é explicar, mas cortar. A interpretação deve produzir um efeito de surpresa, de deslocamento, de ruptura na cadeia significante. Ela deve tocar o real do sujeito, aquilo que escapa ao sentido comum.

Lacan dizia que a interpretação deve ser “pontual”, “enigmática”, “equívoca”. Ela não deve fechar o sentido, mas abrir espaço para que o sujeito produza novas associações. Uma interpretação muito explicativa pode ter efeito pedagógico, mas não analítico. A interpretação lacaniana é mais próxima de um golpe poético do que de uma explicação racional.

A interpretação e o manejo do silêncio

Nem sempre interpretar significa falar. Muitas vezes, o silêncio do analista é uma forma de interpretação. O silêncio pode funcionar como um espelho que devolve ao paciente sua própria fala, permitindo que ele escute a si mesmo. Pode também funcionar como uma intervenção que evidencia uma resistência, uma defesa ou uma repetição.

O silêncio interpretativo não é ausência de ação; é uma ação calculada, que visa produzir um efeito no discurso do paciente. Ele pode provocar angústia, mas também pode abrir espaço para que algo novo emerja.

A interpretação e o tempo

A interpretação não pode ser dada a qualquer momento. Ela exige timing. Uma interpretação dada cedo demais pode ser rejeitada; dada tarde demais, pode perder seu efeito. O analista precisa escutar o ritmo do paciente, suas pausas, suas repetições, seus impasses.

Freud dizia que a interpretação deve ser oferecida quando o paciente está “maduro” para recebê-la. Lacan falava em “momento de concluir”. A interpretação é um ato que depende do tempo lógico, não do tempo cronológico.

A interpretação e o desejo do analista

A interpretação não é neutra. Ela é atravessada pelo desejo do analista, não um desejo pessoal, mas o desejo de que o sujeito se confronte com seu próprio desejo. O analista não interpreta para satisfazer sua curiosidade, nem para conduzir o paciente a um ideal de saúde. Ele interpreta para sustentar a falta, para permitir que o sujeito se responsabilize por sua própria história.

O desejo do analista é o que impede que a interpretação se torne moralizante, pedagógica ou diretiva. Ele mantém a análise aberta, sem impor um sentido fechado.

A interpretação e o sintoma

O sintoma, para a psicanálise, não é apenas um problema a ser eliminado. Ele é uma formação do inconsciente, uma solução encontrada pelo sujeito para lidar com um conflito psíquico. A interpretação não visa destruir o sintoma, mas permitir que o sujeito compreenda sua função e seu sentido.

Quando o sintoma é interpretado, ele pode se transformar. Não necessariamente desaparecer, mas mudar de posição na economia psíquica do sujeito. A interpretação permite que o sintoma deixe de ser um enigma paralisante e se torne um elemento de elaboração.

A interpretação como ética

Interpretar é um ato ético. O analista deve interpretar com responsabilidade, sem invadir o espaço do paciente, sem impor significados, sem usar a interpretação como forma de poder. A interpretação deve respeitar o tempo, o sofrimento e a singularidade do sujeito.

A ética da psicanálise não é a ética da norma, mas a ética do desejo. Interpretar é sustentar o espaço para que o sujeito possa se encontrar com aquilo que deseja, mesmo que isso seja difícil, doloroso ou contraditório.

A interpretação como abertura para o novo

No fundo, interpretar é abrir espaço para o novo. É permitir que o sujeito se desprenda de repetições inconscientes, de fantasias paralisantes, de narrativas rígidas sobre si mesmo. A interpretação não é um fim, mas um começo. Ela inaugura um processo de transformação subjetiva. A interpretação não diz ao sujeito quem ele é; ela o convida a descobrir quem ele pode ser.

Conclusão

A interpretação, na psicanálise, é um ato que transforma. Ela não é uma explicação, nem uma revelação, nem uma correção. Ela é um gesto que toca o inconsciente, que desestabiliza certezas, que abre caminhos. Interpretar é escutar o que não foi dito, é dar forma ao informe, é permitir que o sujeito se reencontre com sua própria história.

Sugestão de leitura sobre essa temática

O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise - Jacques Lacan

Desde 1973, Jacques-Alain Miller vem lançando os 26 volumes de O Seminário, referente aos seminários ministrados por Lacan em Paris, de 1953 a 1980 – indispensáveis para o conhecimento integral da revolucionária leitura empreendida por Lacan da obra de Freud.

Adquirir na Amazon
Capa do Livro