| Cartaz do filme Rosebush Pruning (2026) |
Dirigido por Karim Aïnouz e livremente inspirado no clássico De Punhos nos Bolsos (1965, de Marco Bellocchio), Rosebush Pruning (2026) oscila entre o trágico e a comédia, servindo, desde os primeiros momentos, como uma representação provocativa do colapso moral das elites. O cenário principal do longa é uma luxuosa mansão meio que enclausurada sob o sol espanhol, onde somos apresentados as disfunções, que partem do coletivo para o individual, de uma família rica, cuja dinâmica é repleta de contornos absurdos, eróticos e grotescos.
Com roteiro assinado por Efthimis Filippou (O Lagosta), o longa reúne um elenco de peso - Callum Turner, Elle Fanning, Jamie Bell, Riley Keough, Pamela Anderson e Tracy Letts -, mas, francamente, nenhum deles conseguiu se destacar ao ponto de merecer elogios pela atuação, nem mesmo Callum Turner, cujo personagem é responsável pela voz narrativa que conduz o longa.
Gostei bastante do modo como a narrativa é conduzida e organizada, pois, em vez de adotar o cinismo frio tão comum às sátiras contemporâneas sobre ultrarricos, Aïnouz aposta num tom mais profundo, estético, psicodélico e em algo que eu chamaria de erotismo tátil, isso porque a câmera busca, inúmeras vezes, a pele, o suor, os olhos, e a respiração dos personagens, criando um choque visual constante entre a beleza das locações, que são um destaque à parte, e a total decadência ética e afetiva dos indivíduos.
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As interações familiares sob a escrita de Filippou é impressionante, sobretudo porque mesmo que haja uma autodestruição desinibida, sustentada por uma violência psicológica imprevisível, ainda sim o roteiro deixa um pouco de esperança que algo sobreviva dali.
Embora eu entenda que esta seja uma característica premeditada, fiquei um pouco incomodado com o fato do filme, por vezes, flertar com certo esvaziamento discursivo, talvez para servir como reflexo da futilidade explícita que alimenta cada um dos personagens, mas, particularmente, afasta em certa medida a capacidade de aproximação com alguém.
Também achei que a crítica ao isolamento e ao esgotamento da burguesia nem sempre alcança a radicalidade ou a novidade pretendidas, fazendo com que a obra funcionasse melhor pela anarquia autodestruitiva individual do que pela pela profundidade de sua tese.
Rosebush Pruning é um filme que vale a pena pela experiência sensorial e hipnótica e a provocação social, que casou bem o cenário de futilidades, os aspectos grotescos, as peculiaridades e a reviravolta nos momentos finais, a qual, embora eu não considere brilhante, serve ao propósito de dar um fechamento plausível diante de todo o itinerário decadente dos afetos.
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