O que é Suspensão de descrença na Teoria da Literatura?

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Professor de Literatura escrevendo em um quadro

Quando abrimos um livro de ficção, sabemos, previamente, que a história não retrata eventos historicamente documentados ou fatos empiricamente observáveis no mundo material, ao menos não em sua totalidade. No entanto, se mantivermos uma postura estritamente racional, cartesiana e cética diante das páginas, a fruição estética torna-se impossível. É exatamente no espaço intermediário entre o ceticismo e a entrega emocional que podemos acionar o conceito de suspensão da descrença, ou, de maneira mais precisa, a suspensão voluntária da descrença.

Esse termo foi cunhado originalmente pelo poeta e filósofo estético inglês Samuel Taylor Coleridge no capítulo quatorze de sua obra crítica Biographia Literaria, publicada em 1817. Ao refletir sobre a criação do livro de poesias Lyrical Ballads, produzido em parceria com William Wordsworth, Coleridge explicou que caberia a ele a tarefa de tratar de personagens e situações sobrenaturais ou românticas. Para que esses elementos fantásticos pudessem tocar o leitor moderno e esclarecido, era necessário conferir a essas sombras da imaginação um interesse humano e uma aparência de verdade. Com isso, o leitor cederia momentaneamente a sua dúvida sobre a impossibilidade dos fatos, alcançando aquilo que o poeta denominou de fé poética.

Na literatura, a suspensão da descrença não significa que o leitor foi enganado ou que passou a acreditar, de forma ingênua ou delirante, que a ficção é uma verdade literal. Trata-se, na verdade, de um ato de vontade e de cumplicidade intelectual. O leitor decide, deliberadamente, colocar em pausa o seu julgamento crítico sobre a implausibilidade das premissas narrativas para poder desfrutar da lógica interna da história e das emoções que ela desperta. Esse movimento cognitivo permite que nos comovamos, sintamos medo, indignação ou alegria por seres que sabemos existirem apenas no papel.

Para compreender como esse fenômeno se articula na prática literária, é fundamental analisar a noção de verossimilhança. A verossimilhança não deve ser confundida com o realismo ou com a cópia exata do mundo exterior. Uma obra não precisa ser realista para ser verossímil; ela precisa apenas ser coerente com as regras que ela mesma estabelece desde o seu início. A suspensão da descrença é sustentada por esse pacto de coerência interna. Se o autor constrói um universo com leis próprias, por mais absurdas que pareçam sob a ótica da física ou da biologia do nosso cotidiano, e mantém-se fiel a essas leis, o leitor preserva sua fé poética sem sobressaltos.

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Um exemplo dessa mecânica pode ser observado em obras como A Metamorfose, de Franz Kafka. Logo na primeira frase da novela, o leitor é informado de que Gregor Samsa acordou certa manhã transformado em um inseto monstruoso. Do ponto de vista da ciência natural, tal evento é uma impossibilidade absoluta. Contudo, Kafka não gasta linhas tentando justificar cientificamente a mutação biológica. Em vez disso, o autor foca a narrativa nas reações burocráticas, familiares e psicológicas decorrentes desse fato bizarro. O leitor prontamente suspende sua descrença quanto à transformação do homem em inseto porque a narrativa trata essa premissa absurda com uma lógica interna rigorosa, quase fria, espelhando o alienante cotidiano moderno.

Do mesmo modo, a literatura de realismo mágico latino-americano exemplifica o funcionamento do conceito de Coleridge. Na obra-prima Cenas de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, acontecimentos extraordinários são integrados à rotina dos personagens sem sobressaltos ou explicações científicas. Quando a personagem Remédios, a Bela, ascende aos céus em corpo e alma enquanto dobra lençóis de linho, ou quando uma chuva de flores amarelas cobre a aldeia, o leitor não abandona o livro acusando o autor de mentira. Pelo contrário, a suspensão voluntária da descrença permite que essas metáforas visuais e poéticas sejam absorvidas como manifestações da própria natureza lírica e trágica daquele universo.

Outro campo de profunda dependência desse fenômeno é a literatura de fantasia épica e de ficção científica. Em O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, deparamos com anéis de invisibilidade, magos, elfos e dragões. A aceitação desse ecossistema por parte do leitor ocorre porque Tolkien dedicou anos à construção de uma consistência linguística, geográfica e histórica impecável para a Terra-Média. A suspensão da descrença funciona porque o autor respeita o seu leitor, não utilizando a magia como um recurso arbitrário para resolver qualquer problema sem explicação, mas sim articulando-a dentro de limitações e custos bem definidos na própria trama.

Vale ressaltar, contudo, que a suspensão da descrença é frágil e pode ser facilmente rompida. Esse rompimento ocorre quando a obra viola o pacto de verossimilhança interna que ela própria ajudou a fundar. Se em um romance histórico estritamente realista um personagem do século dezenove saca um telefone celular sem que haja uma explicação estruturada de viagem no tempo, o leitor é imediatamente tirado da ilusão ficcional. O encanto se desfaz não porque o fato é impossível no nosso mundo, mas porque ele fere a coerência do mundo que o texto estava construindo. Erros de continuidade, atitudes de personagens que desrespeitam suas personalidades previamente consolidadas ou resoluções fáceis do tipo deus ex machina são os principais vilões da fé poética.

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Além disso, a evolução da teoria literária ao longo do século vinte trouxe contribuições valiosas para a ampliação do conceito de Coleridge. Teóricos da estética da recepção e da semiótica enfatizaram que a leitura não é um ato passivo. O leitor é um coautor do texto. A suspensão da descrença é a energia cognitiva que o leitor investe para preencher os vazios da narrativa, aceitando o convite do autor para habitar temporariamente aquele espaço estético. Sem essa pré-disposição do receptor, a arte narrativa se reduz a marcas de tinta sobre o papel ou a um amontoado de frases sem pulsação emocional.

Referências Bibliográficas

COLERIDGE, Samuel Taylor. Biographia Literaria. [Recurso digital], 2012.

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ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. 2. ed. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

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MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eric Nepomuceno. 129. ed. Rio de Janeiro: Record, 1977.

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KAFKA, Franz. A metamorfose. Jandira–SP: Principis, 2019.

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TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Tradução de Gabriel Oliva Brum. Tradução de Ronald Eduard Kyrmse. 1. ed. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2019.

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TODOROV, Tzvetan. Introdução a literatura fantástica. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.

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