A inclusão da letra K na Língua Portuguesa é uma questão muito interessante, que envolve transformações históricas, regras do sistema ortográfico e convenções internacionais de nomenclatura. Embora a letra faça parte do cotidiano de qualquer falante nativo moderno, sua trajetória dentro do nosso alfabeto foi marcada por idas e vindas, exclusões formais e uma consolidação definitiva que reflete o dinamismo de um idioma vivo em constante diálogo com o mundo.
Do ponto de vista histórico, a letra originou-se do alfabeto grego, passando pelo latino, mas encontrou pouco uso nas línguas neolatinas. Durante grande parte do século XX, no Brasil e nos demais países lusófonos, o grafema esteve ausente da listagem oficial do alfabeto. Com a Reforma Ortográfica de mil novecentos e quarenta e três no Brasil e o Acordo Ortográfico de mil novecentos e quarenta e cinco em Portugal, a letra foi formalmente banida do ensino sistemático do alfabeto, sendo substituída, no vocabulário comum, pelos grafemas C ou pela combinação QU, a depender do contexto vocálico antecedente. Assim, palavras de origem estrangeira eram invariavelmente aportuguesadas, adaptando-se à fonética e à grafia tradicionais.
Tudo mudou com a implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em mil novecentos e noventa e introduzido gradualmente nas décadas seguintes. O texto normativo reintroduziu oficialmente as letras K, W e Y no alfabeto português, elevando o número de letras de vinte e três para vinte e seis. Contudo, essa reintegração não significou uma permissão irrestrita para o uso arbitrário dessa letra no vocabulário geral. Pelo contrário, a norma culta estabeleceu critérios bastante delimitados para o seu emprego.
A regra fundamental determina que a letra representa o fonema consonantal oclusivo velar surdo, idêntico ao som emitido pelas letras C antes de A, O e U, ou pela combinação QU antes de E e I. No entanto, a consoante é reservada exclusivamente para casos específicos. O primeiro e mais expressivo desses casos reside nos antropônimos estrangeiros e seus derivados. Nomes próprios de pessoas vindos de outros idiomas mantêm sua grafia original, como ocorre em Franklin, Kafka e Kant. Da mesma forma, os adjetivos e substantivos pátrios ou doutrinários derivados desses nomes preservam a consoante inicial ou medial, originando palavras perfeitamente integradas à gramática normativa portuguesa, tais como frankliniano, kafkaiano e kantiano.
O segundo campo de aplicação do grafema abrange os topônimos de origem estrangeira e as palavras deles derivadas. Cidades, países, regiões e formações geográficas estrangeiras que contêm a consoante mantêm sua integrando gráfica quando citados em texto em português. Exemplos clássicos incluem Kuwait, Kenya e Kosovo, bem como os termos adjetivos correspondentes, a exemplo de kuwaitiano.
Além dos nomes próprios, a letra possui um papel de destaque na linguagem científica, tecnológica e acadêmica universal. Os símbolos de unidades de medida padronizados pelo Sistema Internacional de Unidades utilizam o grafema de forma invariável e universal, independentemente da língua em que o texto é redigido. Nesses contextos, a consoante pode atuar como um prefixo multiplicador, indicando o fator de mil, como se observa na sigla da unidade de massa equivalente a mil gramas, na indicação de frequência em milhares de hertz ou nas unidades de distância e potência elétrica. Além disso, a letra isolada atua como o símbolo oficial da unidade de temperatura absoluta na física, nomeada em homenagem ao físico Lord Kelvin, devendo ser escrita em maiúscula sem o símbolo de grau.
Outra esfera em que o emprego do grafema se mostra frequente é a dos empréstimos linguísticos e estrangeirismos não adaptados. Termos vindos do inglês, do japonês e de outras línguas que ganharam circulação global mantêm a forma original no uso diário. Expressões consagradas na culinária, no esporte, na cultura pop e na informática incorporam a consoante de forma natural. É o caso de vocábulos como kart, pôquer, karatê, milky way, ketchup e kimono. Vale ressaltar que, à medida que esses estrangeirismos passam por um processo formal de aportuguesamento lexicográfico, é comum que a grafia oficial passe a conviver com formas adaptadas à ortografia tradicional do português, utilizando a letra C ou o grupo QU, cabendo ao falante e ao redator consultar os vocabulários ortográficos oficiais para verificar as formas aceitas.
Referências Bibliográficas
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Comprar na AmazonBECHARA, Evanildo. Gramática Escolar da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
Comprar na AmazonCEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa: Edição com gabarito. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
Comprar na AmazonCUNHA, Celco; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora Lexikon, 2025.
Comprar na AmazonHOUAISS, Antônio. Pequeno Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.
Comprar na AmazonLIMA, Carlos Henrique da Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.
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