A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, quando não havia ainda intimidade para isso, um deles diria que a repartição era como “um deserto de almas”. O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente então, entre cervejas, trocaram ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clipes no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanhe nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum deles se perguntou.
Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados
A passagem citada, extraída do conto Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, fala sobre o peso do cotidiano burocrático e a profunda sensação de alienação que pode habitar os espaços coletivos. A repartição pública ou o escritório tradicional aparece aqui não apenas como um cenário de trabalho, mas como um tipo de microcosmo de mesmice e superficialidade. Ao classificar o ambiente como um "deserto de almas", Raul e Saul expressam o sufocamento diante de uma rotina pontuada por rituais vazios. Para eles, essas dinâmicas não representam conexões verdadeiras, mas sim mecanismos de distração de existências igualmente desertas.
Há um paradoxo do orgulho da exclusão e na cumplicidade que nasce dessa rejeição mútua ao redor. Ao concordarem sorrindo sobre o diagnóstico do ambiente, os protagonistas encontram um no outro um espelho e um refúgio. Há uma ponta de arrogância defensiva ao se considerarem "almas especiais" em contraponto à mediocridade alheia, um cinismo compartilhado "entre cervejas" que serve como blindagem contra a solidão. O reconhecimento imediato entre ambos funciona como um farol em meio à névoa da indiferença comum, sugerindo que a verdadeira intimidade muitas vezes floresce a partir de uma inadequação compartilhada diante do mundo.
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Morangos mofados
Por: Caio Fernando Abreu
Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.
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