Caio Fernando Abreu escreveu «Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis»

Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam.

Caio Fernando Abreu no livro Morangos Mofados

Essa citação do conto "Fotografias" faz refletir sobre a alienação urbana e os mecanismos de defesa psicológica que desenvolvemos para suportar o peso da vida contemporânea. Ao associar o ato de "sobreviver" à travessia diária por portas e corredores em direção a "ruas intermináveis", o eu lírico desenha a cidade não como um espaço de acolhimento ou encontro, mas como um labirinto esmagador e repetitivo. A rotina aqui ganha aspectos de uma jornada de resistência silenciosa, onde o espaço público é percebido como um território hostil ou esvaziador de sentido, exigindo do indivíduo um esforço quase heroico apenas para iniciar o dia.

A sugerida fantasia de invisibilidade expõe a desumanização das relações nas metrópoles. A multidão descrita é composta por indivíduos que passam uns pelos outros como espectros, reforçando a ideia de que a indiferença já é a regra, e não a exceção. O protagonista apenas se antecipa a essa realidade, transformando a negligência coletiva em um superpoder pessoal para aplacar a angústia da rejeição ou do anonimato forçado. Talvez sirva para como questionamento sobre até que ponto nos tornamos fantasmas de nós mesmos para suportar o cotidiano, e se a sobrevivência na cidade moderna exige, inevitavelmente, o sacrifício da nossa própria presença.

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Morangos mofados

Por: Caio Fernando Abreu

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.

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Frederico Lima

Graduado em Letras (Língua Portuguesa), mestre e Doutor em Letras (Literatura, Teoria e Crítica) pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e congressos acadêmicos. Também é assessor de editoração digital de revistas científicas.

Como citar este artigo:

SILVA, Frederico de Lima. Caio Fernando Abreu escreveu «Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis». Blog Frederico Lima, Pilar. Disponível em: https://www.fredericolima.com.br/2026/07/caio-fernando-abreu-citacao-8.html. Acesso em: Carregando data...