E desejá-lo assim, com todos os lugares-comuns do desejo, a esse outro tão íntimo que às vezes julgas desnecessário dizer alguma coisa, porque enganado supões que tu e ele vezenquando sejam um só, te encherá o corpo de uma força nova, como se uma poderosa energia brotasse de algum centro longínquo, há muito adormecido, todas as princesas de todos os contos de fada desfilam por tua cabeça, quem sabe dessa luz oculta, e é então que sentes claramente que ele não é tu e que tu não serás ele, esse ser, o outro, que mágico ou demoníaco, deliberado ou casual te inflama assim de tolos ardores juvenis, alucinando tua alma, que o delírio é tanto que até supões ter uma.

Caio Fernando Abreu, no livro Morangos Mofados

Essa citação do conto "Natureza Viva" fala sobre a complexidade do desejo e da alteridade, esse movimento paradoxal entre querer fundir-se com o outro e, ao mesmo tempo, reconhecer a impossibilidade dessa fusão. O texto revela o desejo como força vital, quase mística, que desperta o corpo e a imaginação, fazendo desfilar “todas as princesas de todos os contos de fada”, metáfora que traduz o encantamento e a idealização presentes nas paixões humanas.

No entanto, o ponto mais profundo da reflexão está na constatação de que o outro, por mais íntimo que pareça, permanece irredutivelmente distinto. O sujeito, tomado por “tolos ardores juvenis”, percebe que o amor ou o desejo não dissolvem fronteiras; ao contrário, evidenciam a distância entre o “eu” e o “tu”. Esse reconhecimento é doloroso, mas também libertador: é nele que o indivíduo se descobre como ser singular, capaz de sentir, fantasiar e delirar, “até supor ter uma alma”.

A passagem, portanto, não fala apenas de paixão, mas da experiência humana de buscar completude em outro corpo, outro olhar, outro gesto, e de perceber que essa completude é sempre uma miragem. 

Se pensarmos sob uma ótica psicanalítica, o texto encena o jogo entre o Eros e a falta: o desejo nasce da ausência, daquilo que nunca se possui inteiramente. O “centro longínquo, há muito adormecido” pode ser lido como o inconsciente, esse espaço onde dormem as pulsões e os mitos pessoais que, ao despertar, nos fazem sentir vivos e, paradoxalmente, incompletos.

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Morangos mofados

Por: Caio Fernando Abreu

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.

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