Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado.
Caio Fernando Abreu, no livro Morangos Mofados
Essa é uma passagem da carta endereçada José Márcio Penido, amigo de Caio, na qual fala sobre o processo de escrita de Morangos mofados. Esse trecho dialoga diretamente com o desapego e com o paradoxo da busca, isto é, quanto mais obcecados estamos por um resultado, mais ele nos escapa.
Quando procuramos algo com desespero, seja uma resposta criativa, o amor da nossa vida, o emprego ideal ou a própria felicidade, nós criamos uma moldura muito rígida para o que estamos esperando. Essa "lente de busca" é focada demais, o que ironicamente nos deixa cegos para as oportunidades que estão logo ali, mas fora do foco principal. A mente fica tão focada no alvo que perde a capacidade de perceber o entorno.
Estar "distraído", no contexto da citação, não significa ser negligente ou viver no mundo da lua. Significa abrir mão do controle rígido. É o estado que a psicologia chama hoje de flow (fluxo) ou que o taoismo chama de Wu Wei (a ação sem esforço).
Quando você relaxa a guarda e para de cobrar um resultado imediato da vida, o seu cérebro muda de frequência. Grandes ideias, conexões genuínas e insights profundos quase nunca acontecem sob pressão; eles surgem no banho, durante uma caminhada ou quando você finalmente desiste de resolver o problema na marra. É quando a mente silencia que o óbvio se revela. É na ausência de cobrança que as coisas mais bonitas costumam nos encontrar.
Gostou? Aproveite para ler o livro completo…
Morangos mofados
Por: Caio Fernando Abreu
Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.
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