[...] e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.
Caio Fernando Abreu, no livro Morangos Mofados
Essa citação pode ser encontrada no conto "Além do ponto" e expressa o desejo do personagem de esconder as próprias misérias. Há um sentimento de inadequação em relação ao que se "anda fazendo e sendo". É o medo de desapontar alguém que nos importa, a urgência de esconder os nossos dias vazios, os nossos erros ou a nossa decadência rotineira. Queremos que o outro veja apenas a nossa melhor versão, nunca o "processo" caótico e imperfeito da vida real.
A chuva, geralmente, funciona como uma metáfora de isolamento e melancolia. Estar "dentro da chuva" é estar imerso em um estado de choro contido, de purificação ou de naufrágio emocional. É o cenário perfeito para a introspecção.
O medo em si não é o de que o outro descubra um segredo, mas sim de que o outro descubra quem o narrador realmente é. O narrador se dá conta de que, por mais que tente fugir ou se fantasiar de outra coisa, ele não pode escapar de si mesmo ("e eu era"). É a constatação inevitável da própria identidade.
No fundo, reflete o desejo de todo ser humano de ser amado pelo que é, contrastado pelo medo paralisante de que, se for realmente visto na nossa totalidade (sem filtros, por dentro da chuva), será rejeitado.
Gostou? Aproveite para ler o livro completo…
Morangos mofados
Por: Caio Fernando Abreu
Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.
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