Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva.

Caio Fernando Abreu - no livro Morangos Mofados

Considero uma das minhas frases preferidas na obra do CFA. Ela é profundamente poética e traz uma reflexão melancólica sobre a memória, o trauma e a forma como lidamos com as nossas dores passadas.

O eu lírico parece argumentar que tentar medir o tamanho de um sofrimento passado apenas pelo estrago visível que ele deixou é um erro. O verdadeiro tamanho de uma "ferida" (emocional ou psicológica) só pode ser dimensionado pela intensidade do sofrimento real que ela causou no momento em que estava aberta.

Metaforicamente, os "dias de chuva" representam os momentos de vulnerabilidade, melancolia, solidão ou crise. O personagem está dizendo que, por mais que a dor tenha passado e a ferida tenha virado apenas uma lembrança ("perdeu-se"), o trauma nunca desaparece por completo. Sob as condições emocionais certas (ou erradas), aquela dor antiga ganha um eco, um fantasma que volta a latejar intensamente, lembrando-nos de que ela ainda faz parte de quem somos.

Essa passagem de Morangos Mofados talvez sirva para fazer refletir que nós não somos definidos pelas marcas visíveis do que nos aconteceu, mas pela intensidade do que sentimos. E, embora o tempo cure o sofrimento diário nos fazendo esquecer a dor aguda, o passado nunca morre de verdade: ele fica dormente, esperando um "dia de chuva" emocional para nos lembrar de que a ferida, um dia, foi real.

Gostou? Aproveite para ler o livro completo…

Morangos mofados

Por: Caio Fernando Abreu

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época.

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