O conceito de LETRA ou GRAFEMA na Língua Portuguesa
Olá! É um prazer estar aqui com você para discutir um dos conceitos fundamentais da ciência linguística aplicada à nossa língua: a distinção e a definição do que venhamos a compreender por letra ou, mais precisamente sob a óptica da linguística moderna, o grafema. Para iniciarmos essa reflexão acadêmica, é imperativo separar a realidade fonética, o universo dos sons da fala, da realidade gráfica, o universo da escrita, pois a confusão entre essas duas instâncias é um dos equívocos teóricos mais comuns no estudo do idioma.
O grafema constitui a unidade mínima abstrata do sistema de escrita de uma língua que desempenha uma função distintiva. Em termos estritamente teóricos, o grafema está para a escrita assim como o fonema está para a fala. Trata-se de um modelo mental, uma entidade formal que se materializa na página ou na tela por meio dos alógrafos, que são as diferentes formas físicas que uma letra pode assumir, como as variações entre letras maiúsculas, minúsculas, cursivas ou de fôrma, sem que isso altere a sua identidade funcional no sistema. Na Língua Portuguesa, que utiliza o sistema alfabético latino, o grafema tem como objetivo primordial representar graficamente os fonemas, estabelecendo o que a psicolinguística chama de correspondência grafofonêmica.
No entanto, a relação entre o grafema e o fonema no português não é perfeitamente biunívoca, ou seja, não existe uma correspondência rígida de um para um. Nosso sistema ortográfico é orientado por critérios histórico-etimológicos e fonéticos, o que gera complexidades teóricas fascinantes. Há situações em que um único grafema pode representar múltiplos fonemas, a depender do contexto fonotático, como ocorre com a unidade gráfica X, que pode remeter aos fonemas /ʃ/ em chale, /z/ em exame, /s/ em texto ou ao grupo fonético /ks/ em táxi. Inversamente, um único fonema pode ser representado por diferentes grafemas, como o fonema /z/, que se manifesta graficamente pelas letras Z em zebra, S em casa ou X em exame.
Além disso, a teoria ortográfica do português comporta o conceito de dígrafo, que ocorre quando uma sequência de dois grafemas é utilizada para representar um único fonema, como as ocorrências de CH, LH, NH, RR e SS. Nesses casos, a combinação de duas unidades gráficas funciona como um macro-grafema na estrutura fonológica da palavra. Existe ainda a ocorrência do grafema mudo, representado pela letra H em posição inicial, que perdeu seu valor fonético ao longo da evolução da língua, mas que é preservado na escrita por razões puramente etimológicas e históricas. Portanto, a letra ou grafema não deve ser entendida de forma simplista como o "som da fala colocado no papel", mas sim como um componente de um subsistema visual complexo, estruturado e convencionalizado, que opera em paralelo com o sistema fonológico para garantir a codificação e a decodificação da nossa linguagem.