Revista Nava abre submissões para dossiê sobre movimentos e coletivos de cinema na América Latina
A renomada revista acadêmica Nava anunciou a abertura da chamada para publicação do seu Dossiê 2027.1, cujo tema central será focado nos "Movimentos e Coletivos de Cinema na América Latina: desafios estéticos, políticos e historiográficos". Organizado em conjunto pelas editoras convidadas, a professora doutora Eliska Altmann, vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro e à Universidade Federal de Juiz de Fora, e a professora doutora Claire Allouche, da Université Grenoble Alpes, na França, o volume temático pretende agregar reflexões profundas sobre os modos de organização, criação e as singularidades estéticas, sociais e políticas que emergem do fazer cinematográfico não individual em todo o território latino-americano.
Historicamente, a América Latina carrega uma sólida tradição de movimentos e coletivos audiovisuais que remonta ao período em que o cinema assumiu compromissos sociopolíticos estruturantes e de caráter "tricontinental". Exemplos icônicos como o Nuevo Cine Latinoamericano, que englobou frentes militantes como o Cine Liberación, o Cinema Novo brasileiro e o Tercer Cine, deixaram marcas indeléveis por meio de suas obras e respectivos manifestos. Ao longo das décadas, essa herança foi ressignificada por grupos posteriores, a exemplo do Cine Mujer no México, culminando hoje em uma forte interação com as pautas identitárias contemporâneas. Atualmente, festivais, mostras e realizações audiovisuais testemunham a ascensão de coletivos negros, de mulheres, étnicos, de diversidade sexual e de grupos minoritários, evidenciando transformações profundas que refletem as modificações na produção do subcontinente.
O início do século XXI trouxe um novo fôlego a esse modelo independente e muitas vezes caracterizado como cinema de "guerrilha", impulsionado diretamente pela democratização das ferramentas digitais. Experiências como o coletivo Alumbramento no Brasil, o MAFI no Chile ou a hibridização de matérias fílmicas promovida pelo grupo Los Ingrávidos no México ilustram como a criação coletiva continua sendo determinante. Trata-se de uma forma de resistência ativa para a realização de filmografias e experimentações marcantes, frequentemente desenvolvidas sob condições materiais precárias e em cenários de ascensão de extremas direitas tanto no contexto regional quanto no panorama global.
A proposta das organizadoras surge também para suprir uma lacuna identificada na historiografia tradicional do cinema, frequentemente fragmentada por nações, períodos, instituições ou pela clássica figura do cineasta autor. O dossiê busca estimular narrativas e investigações escritas coletivamente e sob uma perspectiva transnacional, algo considerado fundamental na contemporaneidade capitalista que tende a atomizar e a polarizar indivíduos, enfraquecendo a esfera pública. Espera-se que os textos abordem questões metodológicas, o resgate de coletivos pouco conhecidos e as genealogias regionais, continentais ou nacionais, mapeando como esses trabalhos dialogam com os conservadorismos ideológicos e as restrições econômicas de nossa época e como se opõem ao modelo produzido de forma neoindustrial.
Além de artigos teóricos e ensaios baseados em estudos de caso específicos, cruzados ou comparativos, a revista Nava receberá de braços abertos entrevistas e relatos de experiências assinados por membros de coletivos de cinema, capturando a história viva e a atualidade dessas produções. O principal objetivo da publicação é diversificar as reflexões teóricas, facilitar a difusão de dados no continente e fora dele, e destacar as ferramentas estéticas e políticas adequadas à criação coletiva.
O público-alvo é composto por pesquisadores, professores, cineastas e realizadores interessados no tema, sendo aceitos artigos submetidos por doutores ou por doutorandos em coautoria com ao menos um pesquisador doutor. O prazo para o envio de trabalhos inéditos em língua portuguesa começará no dia 15 de dezembro de 2026 e se estenderá até o dia 15 de fevereiro de 2027, com a publicação final prevista para o primeiro semestre de 2027. Todo o processo de submissão deverá ser realizado diretamente no sistema online do periódico, disponível no endereço eletrônico oficial da instituição, onde constam as diretrizes completas de formatação e estilo.
Mais informações: https://periodicos.ufjf.br/index.php/nava/announcement/view/1014