Quem foi André Green para a história da Psicanálise?
O pensamento de André Green (1927–2012) representa uma das viradas clínicas e teóricas mais profundas e originais da psicanálise contemporânea na segunda metade do século XX e no início do século XXI. Formado na efervescência da cultura psicanalítica francesa, Green conseguiu a rara façanha de não se deixar aprisionar pelo dogmatismo das escolas de seu tempo. Embora tenha frequentado assiduamente os seminários de Jacques Lacan por sete anos e tenha exercido cargos de extrema relevância na Sociedade Psicanalítica de Paris, sua obra se consolidou como uma ponte crítica, rigorosa e dialética entre o estruturalismo francês, a metapsicologia freudiana clássica e as contribuições anglo-saxãs de Donald Winnicott e Wilfred Bion. O que Green propõe não é uma mera colcha de retalhos teórica, mas sim uma refundação da clínica psicanalítica diante daquilo que ele próprio chamou de "clínica contemporânea", caracterizada não mais pelas neuroses de transferência clássicas descritas por Freud, mas pelos casos-limite, pelas estruturas narcísicas e pelas manifestações difusas do sofrimento psicossomático e do vazio.
Ao contrário do que a crueza do termo possa sugerir, a mãe morta não se refere a um luto real pela perda física da figura materna. Trata-se, na verdade, de uma morte psíquica. Green descreve uma situação clínica em que uma mãe, até então viva, terna e psiquicamente disponível para o bebê, sofre uma depressão brutal e repentina, muitas vezes desencadeada por um luto real em sua própria vida, como a perda de um familiar ou uma grande desilusão amorosa. Essa mãe desinveste o filho de forma abrupta. O bebê, incapaz de compreender a causa dessa alteração drástica no ambiente psíquico, experimenta essa virada como uma catástrofe silenciosa. Aos olhos da criança, o objeto materno transformou-se em uma imagem fria, inanimada e inacessível, embora continue fisicamente presente cuidando de suas necessidades básicas.
A resposta do ego do bebê diante dessa mãe desinvestida é o que Green conceitua como uma identificação mimética com o objeto traumatizante. Em vez de abandonar o objeto ou buscar substitutos, o psiquismo da criança introjeta a frieza da mãe. O sujeito se constitui, a partir de então, em torno de um núcleo frio, um buraco negro psíquico que Green chama de "núcleo de ausência". A vida amorosa e intelectual dessas pessoas na idade adulta passa a ser assombrada por um sentimento crônico de desvitalização. O sujeito pode ser extremamente funcional, inteligente e bem-sucedido no plano social, mas carrega consigo uma sensação permanente de que nada faz sentido, de que o mundo carece de cor e de que qualquer aproximação afetiva profunda ameaça reativar a ferida original do abandono psíquico. O trabalho do analista, nesses casos, não é interpretar desejos reprimidos, mas sim atuar como um mediador capaz de reanimar esse objeto mumificado dentro do psiquismo do paciente, um processo que exige extrema sensibilidade clínica e paciência.
Essa teorização sobre o vazio nos conduz diretamente à revisão que Green opera sobre o conceito de negatividade em psicanálise. Em sua obra monumental dedicada ao trabalho do negativo, o autor resgata a dialética hegeliana e a releitura freudiana da negação para propor que o psiquismo humano não se organiza apenas pelo que está presente, pelas representações e pelos investimentos pulsionais positivos, mas também por meio daquilo que falta, que é recusado ou que é ativamente destruído. O trabalho do negativo possui uma dupla face na metapsicologia greeniana. Por um lado, há um negativo estruturante, que é absolutamente necessário para a constituição do pensamento. Afinal, para pensar em um objeto, o sujeito precisa tolerar a sua ausência; a representação surge justamente no lugar onde o objeto falta. Se o objeto estivesse permanentemente presente, não haveria espaço para o desejo nem para a atividade representacional. Por outro lado, Green identifica um negativo radical e desestruturante, intimamente ligado à pulsão de morte freudiana, que não visa criar representações a partir da ausência, mas sim apagar os próprios traços da memória, destruindo as ligações psíquicas e desinvestindo a própria capacidade de pensar.
É nesse terreno do negativo desestruturante que Green desenvolve o conceito de narcisismo de morte ou narcisismo negativo. Enquanto o narcisismo positivo busca a unificação do ego, o investimento na própria autoimagem e a busca pelo prazer e pela sobrevivência psíquica, o narcisismo negativo aspira ao nível zero de tensão. Trata-se de um movimento regressivo radical que visa não à satisfação, mas à abolição total do desejo e à desativação de qualquer conflito. O sujeito dominado pelo narcisismo negativo busca a paz por meio do desinvestimento absoluto, preferindo o vazio e o nada a correr o risco de se frustrar na relação com o outro. Na clínica, esse fenômeno se manifesta como uma resistência feroz à cura, em que o paciente sabota sistematicamente os progressos da análise porque qualquer melhora implicaria reconhecer a importância do analista e restabelecer ligações com o mundo externo, o que é vivenciado como perigoso.
A compreensão desses mecanismos levou André Green a reformular a própria teoria das pulsões. Mantendo-se fiel à última cartografia freudiana, que divide o funcionamento psíquico entre Eros e a pulsão de morte, Green introduz a distinção crucial entre a função objetalizante e a função desobjetalizante. Eros é o grande arquiteto do psiquismo, responsável pela função objetalizante, cujo papel é transformar as excitações brutas em objetos psíquicos significativos, costurando fragmentos de experiência, criando símbolos e permitindo que o sujeito invista no mundo e nas pessoas ao seu redor. Em contrapartida, a pulsão de morte opera por meio da função desobjetalizante. A sua meta não é o assassinato físico do outro, mas a destruição da qualidade de objeto que o outro possui para o sujeito. A função desobjetalizante desfaz as amarras psíquicas, fragmenta as representações e transforma o que era uma relação afetiva viva em um deserto emocional.
Essa dinâmica desobjetalizante é o motor por trás das patologias do limite, os chamados estados borderline, que Green investigou exaustivamente. Nos casos-limite, a fronteira entre o dentro e o fora, entre o ego e o alterego, está constantemente ameaçada de colapso. O sofrimento desses pacientes não decorre da clássica neurose estruturada em torno do recalque e do complexo de Édipo, mas sim de uma angústia de intrusão ou de aniquilamento. Se o analista se aproxima demais, o paciente se sente invadido e sufocado pelo psiquismo do outro; se o analista se afasta ou se cala por muito tempo, o paciente cai no abismo do desamparo e da desorganização mental. Green aponta que, nessas estruturas, o mecanismo de defesa preponderante não é o recalque, mas a clivagem e a exclusão radical, acompanhadas por uma descarga direta na ação ou no corpo, o que explica a frequência de automutilações, adições e somatizações nesses quadros clínicos.
Diante de pacientes que não respondem à técnica analítica tradicional baseada puramente na interpretação do conteúdo latente, Green propôs uma profunda revisão do enquadre analítico e da escuta clínica. Ele cunhou o termo "analisabilidade" para questionar os limites da nossa prática e defendeu que, com os casos-limite e as estruturas narcísicas, o analista não pode ser um espelho neutro ou um mero decodificador de metáforas. O analista precisa atuar como um analista ativo, cuja fala desempenha uma função de sustentação e de ligação psíquica. Quando o discurso do paciente se fragmenta e perde o sentido devido à ação da função desobjetalizante, cabe ao analista emprestar temporariamente sua própria capacidade de pensar e de associar, ajudando o paciente a costurar os retalhos de sua narrativa. A interpretação, portanto, deixa de ser uma revelação de verdades ocultas e passa a ser uma construção conjunta de significados que nunca puderam ser devidamente inscritos no psiquismo.
Outro pilar fundamental do edifício teórico de Green é a sua concepção do afeto. Em um período em que a psicanálise francesa estava fortemente dominada pela máxima lacaniana de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, Green levantou uma voz dissidente e vigorosa para resgatar a dimensão do afeto, que corria o risco de ser reduzida a um subproduto do significante. Para Green, o psiquismo não se limita ao império da palavra. O inconsciente freudiano é composto tanto por representações de coisa quanto por afetos. O afeto é a tradução subjetiva da pulsão, uma energia viva, carnal e corporal que resiste à sua total submissão às leis do discurso. Reduzir a clínica psicanalítica a um jogo de linguagem puramente formalista significa esvaziar a análise de seu sangue e de sua carne. O autor sustenta que o analista deve estar atento não apenas ao que o paciente diz, mas à coerência ou incoerência entre o que é dito e o que é sentido, trabalhando ativamente na zona de transição onde o afeto bruto tenta se transformar em palavra significante.
Essa valorização da corporeidade e da força pulsional permitiu que Green também fizesse contribuições notáveis para o campo da psicossomática e para a compreensão dos processos de simbolização. Ele percebeu que, quando o trabalho do negativo desestruturante bloqueia a via da representação e da palavra, a excitação pulsional não processada mentalmente é evacuada diretamente para o corpo biológico, resultando em doenças orgânicas severas que expressam o silêncio do pensamento. A psicossomática greeniana é, fundamentalmente, uma patologia da simbolização, onde o corpo adoece porque o aparelho psíquico falhou em sua tarefa de traduzir a carne em psiquismo.
Ao longo de sua vasta trajetória, André Green demonstrou que a fidelidade a Sigmund Freud não se faz repetindo seus textos como escrituras sagradas, mas sim estendendo suas ferramentas teóricas até as fronteiras mais sombrias da clínica contemporânea. Ele nos ensinou que o maior desafio do psicanalista moderno não é lidar com o excesso de desejo recalcado, mas sim com a falta de vitalidade psíquica, com as defesas erguidas contra o vazio e com o silêncio destrutivo da desobjetalização. Sua obra permanece como um farol indispensável para qualquer clínico que se recuse a simplificar a complexidade da alma humana e que esteja disposto a caminhar com seus pacientes pelos territórios áridos e enigmáticos do sofrimento limite.