Chamada Literatura 2026 - Revista Abusões abre chamada para dossiê sobre "Encantados e encantarias na literatura"
A Revista Abusões anunciou recentemente a abertura de submissões para o seu mais novo dossiê temático, intitulado "Encantados e encantarias na literatura". A iniciativa busca reunir produções acadêmicas que explorem as figurações do encantamento, os seres que habitam o imaginário das águas, matas e cidades, e as subjetividades que compõem a rica tapeçaria das encantarias na produção literária contemporânea e clássica.
O dossiê conta com a organização de um trio de pesquisadoras de renome internacional e nacional, reforçando o caráter interdisciplinar e a abrangência da publicação:
Ana Pizarro (Universidade de Santiago do Chile);
Marisa Martins Gama-Khalil (UNEMAT/UFU);
Sonia Maria Gomes Sampaio (UNIR).
Cronograma de submissão e prazos
Pesquisadores interessados em contribuir com o debate devem ficar atentos às datas importantes do processo editorial. O período para o envio de artigos originais encerra-se no dia 2 de agosto de 2026.
Após o encerramento das submissões, os trabalhos passarão por avaliação, com a previsão de emissão das cartas de aceite ou rejeição até o dia 13 de novembro de 2026. A expectativa é que o número completo da revista, reunindo as vozes e as análises sobre o tema, seja publicado oficialmente até 19 de março de 2027.
Ementa
As encantarias podem ser entendidas como uma paisagem imaginária através da qual os seres encantados desvelam-se por meio de ficções. João de Jesus Paes Loureiro, por exemplo, define as encantarias a partir do espaço mítico e poético constituído pela mata, pelos rios e também pelo devaneio, nos quais habitam os encantados. Portanto, o espaço das encantarias é, por excelência, a natureza, e essa se encontra entranhada de mistérios e revelações. No caso da Amazônia, os povos originários e as comunidades beiradeiras traduzem suas experiências na floresta através de histórias, faladas ou cantadas, repletas de encantarias, as quais acontecem, muitas vezes, atreladas a uma postura contracolonizadora. Os botos, os curupiras, os caboquinhos do mato, os mapinguaris, as iaras ou guayaras, as matintas pereiras, as assombrações, as miragens e visagens são alguns desses seres encantados que habitam as experiências quotidianas do imaginário do povo. Encantados podem ser, também, seres que desaparecem nas matas e águas, em função de ali permanecerem encantando as paragens, nas quais o sobrenatural é sempre natural. Esses seres, que defendem seu espaço, costumam aparecer em narrativas que sugerem um novo olhar sobre o mundo, um olhar pluriversal, em prol da pluralidade e diversidade de mundos possíveis. Os encantados estão espalhados pelas paisagens imaginárias de todas as regiões do Brasil, como o saci-pererê, o lobisomem, a curacanga, a mula-sem-cabeça, o bradador. Muitas experiências encantadas originam-se da relação simbiótica e metamórfica dos humanos com os animais. O animismo manifesta uma equivalência autêntica e multinatural entre as relações que humanos e não-humanos cultivam consigo mesmos. Nesses sistemas, as interioridades e subjetividades comuns superam as descontinuidades representadas pelas diferenças corporais, físicas, como é o caso do Mapinguari, nas comunidades amazônicas, ou o caso do Lobisomem, que figura em histórias pelos interiores do Brasil. As narrativas ficcionais que trazem as encantarias em suas tramas desvelam frequentemente a transgressão, porque desautomatizam o olhar sobre as normas, sobre as verdades absolutas, sobre os discursos de dominação e de repressão. Espera-se, nessa perspectiva, que o dossiê reúna textos que proponham diferentes reflexões sobre manifestações de encantarias e/ou de seres encantados em ficções variadas.
Mais informações em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/abusoes/announcement/view/2129