Frederico Lima

Página dedicada à divulgação de chamadas para publicação em periódicos científicos, com foco nas ciências humanas.

Chamada Literatura - Revista Terceira Margem Abre Chamada para Dossiê sobre Políticas da Memória e Ficção Especulativa

A prestigiada revista Terceira Margem (UFRJ) anunciou a abertura de submissões para o seu dossiê de 2027-1, intitulado "Políticas da memória e ficção especulativa". O volume propõe um debate urgente e transdisciplinar sobre como a imaginação e a fabulação podem preencher as lacunas deixadas por passados de violência, silenciamento e "memoricídio".

A organização do número está a cargo dos pesquisadores Lua Gill da Cruz (UFRJ), Alan Osmo (Unicamp) e Gabriel Salvi Philipson (PUC-SP). Interessados em contribuir têm até o dia 1º de novembro de 2026 para enviar seus artigos.

Ementa

Uma longa tradição crítica que inclui os estudos sobre testemunho, teorias do trauma, do arquivo, e estéticas da catástrofe segue reproduzindo-se e movendo-se na contemporaneidade a partir de uma preocupação com os passados de violências e as formas como permanecem inscritos em corpos, territórios e arquivos fragmentários. As tentativas de ouvir as vítimas da violência colonial, racial, de gênero, climática ou ligadas a guerras e ditaduras e de elaborar experiências de um passado que foi apagado atravessam transversalmente não apenas a historiografia, mas também os limites da linguagem e da representação, exigindo novas formas de inscrição. Se, como aponta Seligmann-Silva (2022), o memoricídio é parte fundamental de processos violentos sobre os quais se busca apagar os rastros de crimes, silenciar vítimas e negar perspectivas que representam as suas vozes, as formas de acesso ao passado, às possibilidades de aproximação aos arquivos e à historiografia parecem ser insuficientes para lidar com a complexidade e profundidade do passado. Nesse sentido, Saidiya Hartman (2024) afirma que é preciso constituir uma abordagem que alie pesquisa à imaginação, ou, podemos dizer, uma mescla cuidadosa entre o histórico, o ficcional e o fabulativo, de forma a insuflar carne às experiências relegadas ao silêncio e à invisibilidade. Na contemporaneidade, portanto, as discussões dos campos da memória e do trauma têm proposto novas intersecções transversais ao dialogar com práticas de fabulação crítica, narrativas especulativas e artes que trabalham com o não-documentado e com perspectivas contra-hegemônicas. Aqui, a imaginação deixa de ser algo indesejado ou mero suplemento do arquivo para se tornar elemento nuclear de uma ética e ciência da memória. Assim, a ficção especulativa emerge como uma estratégia que articula política e estética, oferecendo novos caminhos para inscrever e elaborar um passado marcado por violências que ressoam no presente. A produção artística e literária assume um papel central, não apenas como reflexão estética, mas como uma ética e teoria da memória que respeita os silêncios, as ausências e os mistérios inerentes à experiência do trauma. Esse trabalho ativo de recordar, que se constrói a partir dos vestígios e restos difíceis de apreender, desafia a estética e a ética, exigindo respeito às lacunas, silêncios e segredos que permanecem; uma busca por reconstituir sentidos sem a pretensão de recuperar o passado em sua totalidade. As múltiplas crises de nossa era se estendem também às políticas da memória da natureza ou do não-humano - as plantas, os animais, os micélios, a terra, os rios - frente às devastações, à monocultura e aos desastres, demandando um exercício fabulativo capaz de ouvi-las dizer, de fazer-com, como mostra Donna Haraway (2016), rearticulando a relação entre cultura e natureza, entre humano e não-humano, e estabelecendo outras cosmopolíticas entrelaçada também com tradições de saberes não-ocidentais.

 Este dossiê convida a refletir sobre a interseção entre políticas da memória e a ficção especulativa de maneira ampla, propondo investigar como a criação artística e literária pode contribuir para a rearticulação de passados marcados por violências sistematicamente apagadas, bem como para a articulação de memórias que dialoguem com os desafios da reparação.

Perspectivas Além do Humano

Um diferencial desta chamada é a inclusão das políticas da memória da natureza. Diante das crises ambientais contemporâneas, o dossiê convida a reflexões sobre a memória do não-humano, rios, plantas, animais e solos, em diálogo com as propostas de Donna Haraway e saberes não-ocidentais. A ideia é investigar como a arte pode "fazer-com" essas entidades, rearticulando a relação entre cultura e natureza frente aos desastres climáticos.

Eixos Temáticos para Submissão

A revista aceita textos que explorem, entre outros temas:

  • A criação artística e literária e sua contribuição para uma elaboração da memória de um passado violento;
  • O anarquivamento: o arquivo e seus limites como base da memória, da (re)imaginação e da fabulação crítica;
  • As encruzilhadas da ficção, dos eventos traumáticos, das disputas de narrativas e da decolonialidade;
  • As relações das artes com espaços em que ocorreram eventos traumáticos como locais da memória, do esquecimento e da disputa de narrativas;
  • As relações entre trauma, fabulação e crises e catástrofes climáticas;
  • As memórias das violências colonial, racial, de gênero, climática e ligadas a guerras e regimes ditatoriais.

Cronograma e Participação

Pesquisadores de áreas como Letras, História, Artes, Filosofia e Ciências Sociais são encorajados a enviar suas contribuições originais.

  • Prazo final: 1º de novembro de 2026.

  • Publicação prevista: Primeiro semestre de 2027.

Mais informaçõeshttps://revistas.ufrj.br/index.php/tm/announcement/view/1211

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.