Qual o emprego da letras K na língua portuguesa? Português para concursos
A história da letra K na língua portuguesa é marcada por idas e vindas que refletem a evolução das normas ortográficas e a influência cultural de outros idiomas sobre o nosso. Durante grande parte do século XX, especificamente após o Formulário Ortográfico de 1943, o K (assim como o W e o Y) foi oficialmente removido do alfabeto português, sendo substituído por letras ou dígrafos que representavam o mesmo som, como o "C" (antes de a, o, u) ou "QU" (antes de e, i). No entanto, com o advento do Acordo Ortográfico de 1990 (que entrou em vigor de forma definitiva no Brasil em 2016), a letra K foi reintegrada ao nosso alfabeto, que passou a contar com 26 letras.
Apesar de sua reintegração oficial, o emprego da letra K não é aleatório. A gramática normativa restringe seu uso a casos específicos, mantendo a tradição de que, para palavras de origem latina ou já aportuguesadas, deve-se preferir as formas com "C" ou "QU". A seguir, detalhamos os contextos em que o uso do K é obrigatório ou aceito.
Nomes Próprios Antropônimos e seus Derivados
O uso mais comum da letra K ocorre em nomes próprios de pessoas (antropônimos) de origem estrangeira e nos adjetivos ou substantivos que deles derivam. Se uma pessoa se chama Kant, o nome mantém a grafia original. Da mesma forma, o pensamento filosófico desse autor é chamado de kantismo e seus seguidores são kantianos.
O mesmo vale para nomes como Franklin (origem inglesa) ou Kubitschek (origem tcheca). É importante notar que, embora nomes novos possam ser registrados com K por escolha dos pais, a norma gramatical sugere que nomes históricos estrangeiros mantenham sua grafia original, enquanto a derivação segue a base da palavra-fonte.
Topônimos e Nomes Geográficos
Nomes de lugares (topônimos) que não possuem uma forma tradicionalmente aportuguesada mantêm a letra K. Exemplos incluem cidades ou regiões como Kuwait, Kosovo, Kiribati ou Kabul. No entanto, quando existe uma forma já consagrada em português, a gramática recomenda o seu uso, como no caso de Cuaite (embora Kuwait ainda seja amplamente utilizado na imprensa e em mapas).
Siglas, Símbolos e Unidades de Medida Internacionais
Este é, talvez, o campo onde o K é mais onipresente e tecnicamente indispensável. Por convenção internacional (Sistema Internacional de Unidades - SI), certas unidades de medida devem ser grafadas com K, independentemente do idioma do país.
kg (quilograma)
km (quilômetro)
kV (kilovolt)
K (Kelvin, unidade de temperatura)
kB (kilobyte, na computação)
É um erro comum acreditar que, por escrevermos "quilômetro" com "QU", a sigla deveria ser "qm". A norma gramatical e técnica exige que a abreviação mantenha o k minúsculo (com exceção do Kelvin, que é maiúsculo por derivar de um nome próprio).
Estrangeirismos e Palavras Não Aportuguesadas
Existem termos técnicos, científicos ou culturais que foram importados de outras línguas e que ainda não sofreram o processo de aportuguesamento fonético ou gráfico. Nestes casos, a grafia original com K é preservada. Exemplos comuns no cotidiano brasileiro incluem:
Kart (desporto automobilístico)
Kung fu (arte marcial)
Ketchup (condimento)
Kaiser (título de imperador)
Kit (conjunto de utensílios)
Karaokê (embora já se veja a forma caratê, o termo com K ainda é predominante)
A Distinção entre a Escrita e o Som
Gramaticalmente, o K exerce a função de uma consoante oclusiva velar surda, exatamente o mesmo som representado pelo "C" em "casa" ou pelo "QU" em "quero". A regra de ouro da gramática portuguesa é que o K não deve ser usado para substituir o "C" ou o "QU" em palavras comuns do léxico. Por exemplo, escrever "kasa" ou "kerido" é considerado um erro ortográfico grave, pois estas palavras possuem formas vernáculas consolidadas.
A reintegração da letra K no alfabeto teve como objetivo principal facilitar a organização de dicionários e listas alfabéticas, além de reconhecer a realidade de uma língua globalizada que interage constantemente com o inglês, o alemão e línguas orientais.
Frederico Lima é graduado, mestrado e doutorado em Letras pela UFPB. Apaixonado pela Língua Portuguesa e pela Literatura Brasileira, produz conteúdos para a internet desde 2010 e possui inúmeros trabalhos científicos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.