Qual o emprego da letra Y na língua portuguesa? Português para concursos
Conhecida como "i grego", esta letra fez parte do nosso alfabeto durante séculos, foi banida oficialmente por quase setenta anos e, finalmente, retornou triunfante com o Acordo Ortográfico de 1990. Entender onde se emprega o Y hoje exige compreender que, embora ele pertença ao alfabeto de 26 letras, seu uso não é livre ou aleatório; ele é estritamente regulado pela gramática normativa para casos específicos.
Historicamente, o Y foi removido do nosso sistema no Formulário Ortográfico de 1943. A ideia dos linguistas da época era simplificar a língua, eliminando letras que possuíam o mesmo som (fonema). Como o Y tem valor fonético de vogal /i/, decidiu-se que o "I" latino seria suficiente para todas as palavras. No entanto, a força do uso internacional e a globalização provaram que a exclusão total era impraticável. Com a reforma que entrou em vigor definitivo no Brasil em 2016, o Y voltou a ser oficialmente a 25ª letra do alfabeto, mas seu emprego é restrito a "fronteiras" linguísticas.
Nomes Próprios e seus Derivados
O uso mais visível da letra Y ocorre nos antropônimos (nomes de pessoas) e seus derivados. Nomes de origem estrangeira que possuem a letra Y devem manter sua grafia original por uma questão de preservação da identidade e registro civil.
Exemplos de nomes: Taylor, Kennedy, Byron, Marly, Henry.
Derivados: Esta é uma regra gramatical crucial. Se o nome de uma personalidade mantém o Y, a palavra que deriva desse nome também deve mantê-lo. Por exemplo, do poeta inglês Lord Byron, temos o adjetivo byroniano. Da mesma forma, se estivermos falando de algo relativo a Taylor, usaríamos taylorista.
Vale notar que, para nomes brasileiros, a recomendação cartográfica e gramatical atual é que se prefira o "I". Contudo, devido à liberdade de registro, milhares de brasileiros possuem nomes como Thayane ou Wesley, e, uma vez registrados, a grafia com Y deve ser respeitada em qualquer contexto gramatical.
Topônimos Estrangeiros
Assim como ocorre com os nomes de pessoas, os nomes de lugares (topônimos) que não foram aportuguesados ao longo da história preservam o Y.
Exemplos: New York, Yemen, Asunción (no Paraguai, embora em português usemos Assunção), Hyde Park.
A regra geral é que, se o lugar já possui uma forma tradicional em português (como Sicília em vez de Sicilia), usamos a forma lusa. Mas, para a grande maioria das localidades internacionais que não possuem tradução, a grafia original com Y é a norma.
Emprego em Siglas e Símbolos Internacionais
A gramática e a ciência caminham juntas no uso do Y. Em campos como a química, a física e a matemática, o Y é um símbolo universal que não pode ser substituído sob pena de erro técnico.
Química: O símbolo do elemento químico Ítrio é Y.
Matemática: O Y é classicamente utilizado para representar a segunda incógnita em equações algébricas ou o eixo das ordenadas no plano cartesiano (eixo y).
Siglas: Muitas siglas internacionais incorporadas ao nosso cotidiano mantêm a letra, como YMCA ou DIY (Do It Yourself).
Estrangeirismos e Termos Técnicos
Existem palavras que foram incorporadas ao vocabulário ativo do português por força da tecnologia, do esporte ou da moda. Enquanto esses termos não são oficialmente "aportuguesados" (processo que transformaria a escrita para algo mais próximo da fonética lusa), eles mantêm o Y.
Cotidiano: Hobby, playboy, delivery, sexy, spray, boy.
Tecnologia/Ciência: Byte, python (linguagem de programação), cyan (ciano, em contextos de impressão).
Esportes: Yoga (embora a grafia ioga seja preferencial em dicionários brasileiros, a forma com Y é aceitável e comum).
A Regra de Ouro: O que evitar
É fundamental entender que a reintegração do Y não autoriza a substituição do "I" em palavras comuns do léxico português. Escrever "relygião", "panty" ou "vytória" é considerado um erro ortográfico grave. O Y atua como uma letra de "ligação externa"; ele serve para acomodar o que vem de fora ou o que é tecnicamente universal, mas não deve invadir o corpo das palavras nativas ou já consolidadas com a letra "I".
Frederico Lima é graduado, mestrado e doutorado em Letras pela UFPB. Apaixonado pela Língua Portuguesa e pela Literatura Brasileira, produz conteúdos para a internet desde 2010 e possui inúmeros trabalhos científicos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.