A Revista Teresa, publicação do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), anunciou a abertura do período de submissões para sua 24ª edição. O dossiê terá como eixo central a "Tradução, Circulação e Recepção da Literatura Brasileira no Espaço Internacional".
Pesquisadores têm até o dia 11 de maio de 2026 para enviar suas contribuições. A revista aceita artigos e resenhas de doutores e doutorandos, além de resenhas produzidas por mestrandos.
O Debate: Entre a Estética e a Geopolítica
A nova edição propõe um mergulho nas complexas camadas que envolvem a viagem do livro brasileiro para além das fronteiras nacionais. O ponto de partida é o reconhecimento de que um texto literário não viaja "puro": ele sofre transformações ao encontrar novos suportes, contextos culturais e públicos leitores.
O corpo teórico que fundamenta a chamada evoca grandes nomes da crítica e da sociologia da literatura:
Roger Chartier: Reflete sobre a "hospitalidade linguística" da tradução e como os suportes materiais afetam o sentido do texto.
Pascale Casanova e Antonio Candido: Discutem o poder das línguas dominantes e os dilemas das literaturas "periféricas", oscilando entre a imitação e a apropriação crítica.
Silviano Santiago: Apresenta o conceito de "literatura anfíbia", destacando a dificuldade do leitor estrangeiro em lidar com obras que misturam vanguarda estética e denúncia social/colonial.
Texto da chamada
A revista Teresa, publicação do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, espera receber contribuições para o seu próximo número, conforme especificações abaixo. Solicitamos aos autores e autoras que, ao enviarem os manuscritos, observem e respeitem rigorosamente as normas de publicação expostas neste site, na seção “Submissões”. O prazo para envio de trabalhos é 11 de maio de 2026. Aceitamos artigos e resenhas de doutores e doutorandos. Recebemos também resenhas de mestrandos.
O número 24 da revista Teresa dedica-se à investigação dos processos de tradução, circulação e recepção, no espaço internacional, da literatura produzida no Brasil ao longo de sua história. Roger Chartier afirma que a mobilidade das obras literárias no tempo e no espaço implica transformações em seus textos. Os diferentes suportes materiais, os contextos históricos e culturais de circulação, os modos de edição, organização e hierarquização do conteúdo, os públicos leitores e as adaptações para outros campos artísticos são fatores que, segundo o autor, incidem sobre a produção de sentido do texto literário. Chartier destaca ainda as desigualdades persistentes na circulação das traduções ao longo da história e em sua distribuição geográfica, bem como a impossibilidade de coincidência plena entre um mesmo enunciado na língua de partida e na língua de chegada. A tradução configura-se como uma relação de “hospitalidade linguística que acolhe o outro e ao mesmo tempo reconhece a diferença entre o próprio e o estrangeiro” (CHARTIER, Editar e traduzir: mobilidade e materialidade dos textos – séculos XVI-XVIII, 2022).
Ao tratar do “vínculo placentário” das literaturas latino-americanas canônicas com as literaturas europeias, Antonio Candido ressalta que a maior capacidade de difusão dos bens artísticos e culturais dos países economicamente dominantes, aliada ao poder de suas línguas, contribui para que estes exerçam maior força de ação sobre as literaturas dos países economicamente considerados periféricos. Na relação estabelecida com as literaturas europeias, as obras latino-americanas tendem, para ele, ora à imitação servil, ora à apropriação crítica ou ao refinamento de modelos artísticos importados (CANDIDO, “Literatura e subdesenvolvimento” in A educação pela noite & outros ensaios, 1993).
Em diálogo com essa reflexão, Pascale Casanova argumenta que, desde o século XVIII, o centro do espaço literário internacional deslocou-se da Espanha e da Itália para outras regiões da Europa, em especial a França, que passou a impor modelos, formas e procedimentos artísticos às literaturas dos demais países. O domínio europeu, embora marcado por rivalidades internas, foi legitimado por um capital simbólico fundado na antiguidade de sua tradição e na pretensão de universalidade, sustentado por diversos agentes do mercado mundial de bens culturais. Para Casanova, em contextos de descolonização conduzida por descendentes europeus – que tendiam, inicialmente, ao apagamento da cultura popular e da diversidade étnico-cultural –, as lutas por independência produziram rupturas com a metrópole baseadas na crítica ao Antigo Regime, ao mesmo tempo que preservaram heranças culturais, religiosas e linguísticas europeias. A autora observa ainda que os modelos literários europeus consagrados se autonomizaram das questões históricas e sociais de seus contextos de origem. Em contraste, as literaturas “dominadas” relacionam-se com esses modelos por meio de reações diversas, buscando a diferenciação local e privilegiando temas ligados às contradições sociais internas. Ao evidenciar as desigualdades na circulação de bens culturais e valorizar autores “ex-cêntricos”, essa perspectiva sustenta que tal processo possibilitou tanto o uso do patrimônio literário metropolitano quanto a emergência de revoluções literárias inesperadas (CASANOVA, A república mundial das letras, 2002).
Por meio da metáfora “literatura anfíbia”, Silviano Santiago propõe que, nos séculos XX e XXI, as obras mais significativas da literatura brasileira articulam os princípios das vanguardas estéticas europeias com a problematização das heranças do passado colonial e escravocrata, bem como dos regimes autoritários da vida republicana brasileira. Essas obras tendem a dramatizar os problemas estruturais da sociedade brasileira e sua inserção no contexto global. Contudo, segundo o autor, esse duplo movimento nem sempre desperta o interesse do leitor estrangeiro oriundo de países economicamente dominantes, mais habituado à separação entre estética e política. Tal leitor tenderia a privilegiar, de um lado, obras brasileiras que denunciam a miséria local em registro próximo ao jornalístico e, de outro lado, aquelas que formalizam uma hipotética “pureza estética”, tematizando dramas humanos, mas elidindo as tensões sociais e políticas do país (SANTIAGO, “Uma literatura anfíbia” in Alceu, v. 3, n. 5, 2002).
Submissão
Página da chamada: https://revistas.usp.br/teresa/pt_BR/announcement/view/2049
Diretrizes para Autores: https://revistas.usp.br/teresa/pt_BR/about/submissions
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Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.