Qual é a função da literatura?

A literatura, desde suas origens, tem sido uma das formas mais poderosas de expressão humana. Ela acompanha a história das sociedades, traduzindo sentimentos, ideias, valores e visões de mundo em palavras que se transformam em arte. A questão sobre qual é a função da literatura, se deve ser utilitária, puramente estética ou uma forma de conhecimento, é um debate que atravessa séculos e envolve diferentes perspectivas filosóficas, artísticas e sociais.

Literatura como utilidade: ensinar e instruir

Uma das funções atribuídas à literatura, especialmente em suas origens, é a de ensinar. Os mitos, as epopeias e as fábulas tinham como objetivo transmitir valores morais, explicar fenômenos naturais ou reforçar tradições culturais. Obras como as fábulas de Esopo ou os contos populares, por exemplo, carregam lições de vida que orientam comportamentos e atitudes.

Na Idade Média, a literatura religiosa desempenhava um papel claramente utilitário: instruir os fiéis sobre os dogmas da fé e reforçar a moral cristã. Mesmo na modernidade, muitos escritores utilizaram a literatura como instrumento de crítica social, buscando despertar a consciência política ou denunciar injustiças. Nesse sentido, a literatura cumpre uma função pedagógica e transformadora, ajudando a moldar indivíduos e sociedades.

Literatura como estética: arte pela arte

Por outro lado, há quem defenda que a literatura não precisa ter uma função prática ou pedagógica. A corrente conhecida como “arte pela arte”, que ganhou força no século XIX, sustenta que a literatura deve existir apenas para proporcionar prazer estético. Nesse ponto de vista, o valor da obra literária está em sua beleza, em sua capacidade de emocionar e encantar, sem a obrigação de ensinar ou transmitir mensagens morais.

Autores ligados ao movimento simbolista, por exemplo, defendiam que a poesia deveria ser pura, voltada para a musicalidade das palavras e para a criação de atmosferas sensoriais. O objetivo não era instruir, mas provocar uma experiência estética única. Essa concepção reforça a ideia de que a literatura é uma forma de arte autônoma, que não precisa justificar sua existência por meio de utilidade prática.

Literatura como forma de conhecimento

Além de ensinar ou encantar, a literatura também pode ser entendida como uma forma de conhecimento. Ela não se limita a transmitir informações objetivas, como faz a ciência, mas oferece uma compreensão profunda da condição humana. Ao narrar histórias, criar personagens e explorar dilemas existenciais, a literatura nos permite conhecer aspectos da vida que não podem ser reduzidos a fórmulas ou dados.

Um romance, por exemplo, pode revelar a complexidade das relações sociais, os conflitos internos de um indivíduo ou os dilemas éticos de uma época. A poesia pode traduzir sentimentos universais, como o amor ou a angústia, de maneira que nos ajuda a compreender melhor a nós mesmos e aos outros. Nesse sentido, a literatura é uma forma de conhecimento sensível, que amplia nossa visão de mundo e nos conecta com experiências humanas diversas.

A multiplicidade das funções da literatura

Na prática, é difícil reduzir a literatura a uma única função. Ela pode ser utilitária, estética e cognitiva ao mesmo tempo. Uma obra pode ensinar valores, encantar pela beleza da linguagem e oferecer reflexões profundas sobre a vida. Essa multiplicidade é justamente o que torna a literatura tão rica e indispensável.

Por exemplo, “Dom Quixote”, de Cervantes, é uma obra que diverte e encanta pela estética, mas também ensina sobre os limites entre realidade e fantasia, além de oferecer conhecimento sobre a sociedade espanhola do século XVII. “Os Lusíadas”, de Camões, exaltam a história de Portugal, cumprindo uma função utilitária de enaltecimento nacional, mas também encantam pela beleza dos versos e oferecem reflexões sobre a condição humana diante da grandiosidade e da fragilidade.

Literatura e o leitor

Outro aspecto importante é considerar a função da literatura do ponto de vista do leitor. Cada pessoa pode encontrar na obra literária algo diferente: um ensinamento, uma experiência estética ou uma reflexão filosófica. A literatura não é estática; ela se transforma conforme o olhar de quem lê. Assim, sua função não é determinada apenas pelo autor ou pela tradição, mas também pela recepção e interpretação do público.

Conclusão

A literatura não pode ser reduzida a uma única função. Ela é, ao mesmo tempo, utilitária, estética e cognitiva. Pode ensinar valores, provocar prazer estético e oferecer conhecimento sobre a vida e o ser humano. Essa pluralidade é o que garante sua relevância ao longo da história e sua permanência como uma das formas mais poderosas de expressão cultural.

Portanto, a função da literatura é múltipla: ela instrui, encanta e revela. É utilitária quando transmite ensinamentos, é estética quando se dedica à beleza da linguagem e é conhecimento quando nos ajuda a compreender a complexidade da existência. Mais do que escolher entre essas funções, é preciso reconhecer que a literatura é capaz de reunir todas elas, tornando-se uma arte que transcende fronteiras e continua essencial para a humanidade.


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