Qual o papel da gramática no processo de ensino-aprendizagem na educação básica?

A gramática ocupa um lugar central no processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa na educação básica. Entretanto, esse papel nem sempre é compreendido de maneira clara por professores, estudantes e até mesmo por famílias. Durante muito tempo, a gramática foi vista como um conjunto rígido de regras que deveriam ser memorizadas e aplicadas mecanicamente, sem relação direta com a prática real da linguagem. Hoje, no entanto, a perspectiva educacional e linguística mudou significativamente. A gramática passou a ser entendida como um instrumento para a construção de sentidos, para o desenvolvimento da competência comunicativa e para a formação de sujeitos críticos e capazes de atuar em diferentes práticas sociais de linguagem.

Para compreender o papel da gramática no ensino, é preciso, antes de tudo, entender o que se entende por “gramática”. Em um sentido amplo, gramática é o conjunto de regras e princípios que organizam o funcionamento de uma língua. Essas regras não são inventadas arbitrariamente; elas descrevem padrões que os falantes utilizam intuitivamente para se comunicar. Assim, todo falante nativo domina a gramática de sua língua, mesmo sem ter estudado formalmente. Esse domínio intuitivo é chamado de “gramática internalizada”. Já a gramática normativa, ensinada na escola, é uma sistematização que busca orientar o uso da língua em situações formais, valorizando a variedade padrão.

Na educação básica, o ensino de gramática não deve se limitar à memorização de classificações, definições ou exceções. O objetivo maior é desenvolver a capacidade de compreender e produzir textos adequados às diferentes situações comunicativas. A gramática, portanto, deve ser vista como um meio, e não como um fim em si mesma. Ela funciona como uma ferramenta que ajuda o estudante a refletir sobre a língua, a perceber regularidades, a compreender efeitos de sentido e a aprimorar sua expressão oral e escrita.

Um dos papéis fundamentais da gramática no processo de ensino-aprendizagem é promover a consciência linguística. Quando o estudante analisa a estrutura de frases, identifica classes de palavras, observa relações de concordância ou pontuação, ele desenvolve a habilidade de perceber como a língua funciona. Essa consciência é essencial para que ele possa revisar seus textos, identificar problemas de clareza, evitar ambiguidades e fazer escolhas linguísticas mais precisas. A gramática, nesse sentido, não é apenas um conjunto de regras, mas um instrumento de reflexão.

Outro papel importante é favorecer a compreensão leitora. A leitura não é apenas decodificação; é um processo complexo de construção de sentidos. Para interpretar um texto, o leitor precisa compreender relações sintáticas, reconhecer marcas de coesão, identificar tempos verbais, perceber efeitos de modalização e interpretar sinais de pontuação. Assim, o ensino de gramática contribui diretamente para o desenvolvimento da competência leitora, pois permite ao estudante compreender como os recursos linguísticos são utilizados para construir significados.

Além disso, a gramática desempenha um papel essencial na produção textual. Escrever bem não é apenas ter boas ideias; é saber organizá-las linguisticamente. A escolha adequada de pronomes, tempos verbais, conectivos, estruturas sintáticas e sinais de pontuação influencia diretamente a clareza, a coerência e a coesão do texto. Quando o estudante compreende como esses elementos funcionam, ele se torna capaz de produzir textos mais eficazes e adequados às diferentes situações comunicativas.

Outro aspecto relevante é que o ensino de gramática contribui para o desenvolvimento da autonomia linguística. Ao compreender as regras e os mecanismos da língua, o estudante se torna capaz de fazer escolhas conscientes, adequando sua fala e sua escrita ao contexto. Isso é fundamental em uma sociedade que exige cada vez mais competência comunicativa em diferentes esferas: acadêmica, profissional, social e digital. A gramática, portanto, não é apenas um conteúdo escolar, mas uma ferramenta de empoderamento.

É importante destacar também o papel da gramática na formação cidadã. A linguagem é um instrumento de participação social. Saber argumentar, interpretar textos, compreender discursos e produzir mensagens claras é essencial para exercer a cidadania. A gramática, ao desenvolver a capacidade de refletir sobre a língua, contribui para que o estudante se torne um sujeito crítico, capaz de analisar discursos, identificar manipulações linguísticas e participar ativamente da vida social.

No entanto, para que a gramática cumpra esse papel, é necessário que seu ensino seja repensado. A abordagem tradicional, centrada na memorização de regras e na realização de exercícios descontextualizados, não atende às necessidades dos estudantes. A gramática deve ser ensinada de forma contextualizada, integrada às práticas de leitura, escrita e oralidade. Isso significa que o estudo das estruturas linguísticas deve partir de textos reais, de situações comunicativas concretas e de problemas que façam sentido para os alunos.

Por exemplo, ao trabalhar concordância verbal, o professor pode partir de um texto jornalístico, de uma postagem em rede social ou de um texto produzido pelos próprios alunos. A partir da análise desses textos, é possível discutir como a concordância contribui para a clareza e a precisão da mensagem. Da mesma forma, ao estudar pontuação, o professor pode explorar diferentes versões de um mesmo texto, mostrando como a mudança de vírgulas ou pontos altera o ritmo, a entonação e até o sentido.

Outro ponto importante é que o ensino de gramática deve considerar a variação linguística. A língua portuguesa apresenta diferentes variedades regionais, sociais e situacionais. O estudante precisa compreender que essas variedades são legítimas e fazem parte da riqueza da língua. O papel da escola não é eliminar essas variedades, mas ensinar a variedade padrão como uma ferramenta adicional, necessária em contextos formais. Assim, o ensino de gramática deve promover o respeito à diversidade linguística e combater preconceitos.

Além disso, a gramática deve ser trabalhada de forma articulada com as tecnologias digitais. A comunicação contemporânea envolve diferentes gêneros textuais digitais, como e-mails, mensagens instantâneas, posts, comentários e vídeos. Cada um desses gêneros exige escolhas linguísticas específicas. O ensino de gramática deve ajudar o estudante a compreender essas diferenças e a utilizar a língua de maneira adequada em ambientes digitais.

O papel da gramática no processo de ensino-aprendizagem envolve também o desenvolvimento de habilidades metacognitivas. Ao refletir sobre a língua, o estudante aprende a refletir sobre seu próprio processo de aprendizagem. Ele se torna capaz de identificar dificuldades, buscar soluções, revisar seus textos e aprimorar sua comunicação. Essa capacidade de autorregulação é fundamental para o sucesso escolar e para a vida.

A gramática desempenha um papel multifacetado na educação básica. Ela contribui para o desenvolvimento da consciência linguística, da compreensão leitora, da produção textual, da autonomia comunicativa e da formação cidadã. Para que esse papel seja plenamente realizado, é necessário que o ensino de gramática seja contextualizado, reflexivo, integrado às práticas de linguagem e sensível à diversidade linguística. Assim, a gramática deixa de ser um conjunto de regras abstratas e se torna uma ferramenta poderosa para a construção de sentidos, para o desenvolvimento intelectual e para a participação social.

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Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.

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