Frederico Lima

Curadoria atualizada de chamadas para publicação científica

Chamada periódico na área de Letras - revista Terceira Margem - 2026-3


Dossiê de 2026-3: Crítica e forma: métodos, práticas e controvérsias.

Forma é uma categoria tão controversa quanto incontornável na história dos estudos literários. Com seu inegável olor platônico, “forma” é um termo cujo sentido, na apta observação de Angela Leighton (2007, p. 1-2), parece ser a um só tempo autoevidente e instável. Toma-se “forma” como sinônimo de “beleza”, “harmonia”, “proporção”, “ordem”, “padrão”, “estilo”, “gênero literário” ou mesmo “simetria”, como sabem aqueles que, fora de forma, contemplam sua silhueta diante do espelho. Elusiva e evanescente, a categoria forma se converte em pressuposto disciplinar dos estudos literários a partir dos anos 1920, com sua inflexão rumo à crítica e à teorização do literário (Graff, 2007, p. 121-144). Dos formalistas russos aos desconstrucionistas franco-americanos, dos New Critics aos frankfurtianos, dos estruturalistas aos hermeneutas, correlaciona-se, ou correlacionava-se, a especificidade do literário ao meio verbal. Nessas diferentes vertentes, o ímpeto de captar aquilo que é próprio da literatura se cristalizou em conceitos que, em conjunto, constituem o repertório da teoria literária. A Escola Formal russa, por exemplo, mobilizou as ideias de literatúrnost (literariedade), a diferença entre linguagem poética e prática, e por vezes preferiu o duo material/procedimento sobre conteúdo/forma, numa tentativa de conceber a literatura enquanto um fazer específico (Matejka; Pomorska, 2002). Em comum, supõe-se uma dimensão linguística e construtiva nos textos que não se esgota em seus temas ou referentes, a demandar estratégias de leitura que enfatizam a indeterminação e a reflexividade do processo de apreensão da obra, e não a mera extração de um conteúdo proposicional (Phelan, 2020, p. xvi). Presume-se um movimento antinômico, mas complementar: a imersão no texto com vistas tanto ao encontro com a alteridade ou desfamiliaridade (linguística, caracterológica, composicional) e, reversamente, o afastamento da obra, rumo à abstração, retenção e análise de suas interrelações. Associa-se, ou associava-se, o ofício da crítica e da pedagogia literárias à atenção, nas palavras de Fredric V. Bogel (2013, p. 8-9), ao “poder significante da forma no caso individual”, com suas “tensões, contradições e desarmonias”. Por outro lado, é inegável que, desde os anos 1970, houve uma profunda reorientação metodológica em nossa disciplina, em direção ao “exterior ‘não-verbal’ ao qual a linguagem se refere, pelo qual é condicionada e sobre a qual age” (De Man, 1979, p. 3). Cada vez mais, toma-se o interesse pela forma como indiferença ante os condicionantes sociais, materiais e culturais de produção, recepção ou circulação das obras. Mais recentemente, no entanto, com a disseminação de cursos de creative writing, mesmo no Brasil, com sua óbvia e necessária ênfase na técnica e nos macetes do ofício da escrita, parece haver um interesse renovado por questões de forma (Parker, 2013, p. 182).  Confrontando-se com esse lugar seminal, mas em disputa, da forma nos estudos literários, a revista Terceira Margem reunirá artigos e ensaios que reflitam sobre a pertinência ou a obsolescência da categoria. Serão especialmente bem-vindas contribuições que discutam: crítica, forma e formalismo; inscrições políticas da forma; relação entre forma e práticas de leitura; história e historiografia dos múltiplos “formalismos”; teoria, história e historiografia das formas; forma e tradução; forma e ensino de literatura e de escrita criativa; forma e criação literária; forma e adaptação; forma e cânone.


Referências bibliográficas

BOGEL, Fredric. New Formalist Criticism: Theory and Practice. Houndmills: Palgrave, 2013.

DE MAN, Paul. Allegories of Reading: Figural Language in Rousseau, Nietzsche, Rilke, and Proust. New Haven - London: Yale University Press, 1979.

GRAFF, Gerald. Professing Literature: an Institutional History (Twentieth Anniversary Edition). Chicago - London: The University of Chicago Press, 2007.

LEIGHTON, Angela. On Form: on Poetry, Aestheticism, and the Legacy of a Word. Oxford: Oxford University Press, 2007.

MATEJKA, Ladislav; POMORSKA, Krystyna. Readings in Russian Poetics: Formalist and Structuralist Views. Cambridge: Dalkey Archive Press, 2002.

PARKER, Kelcey. “Reading Like a Writer: a Creative Writer’s Approach to New Formalism”. In: THEILE, Verena; TREDENNICK, Linda (ed.). New Formalisms and Literary Theory. Houndmills: Palgrave, 2013, p. 179-196.

PHELAN, Jon. Literature and Understanding:The Value of a Close Reading of Literary Texts. Abingdon: Routledge, 2020.


Organização:

Priscila Nascimento Marques (UFRJ)

Thiago Rhys Bezerra Cass (USP).


Data limite para submissão de artigos: 1º de fevereiro de 2026. 

Página da chamada: https://revistas.ufrj.br/index.php/tm/announcement/view/1182

Este blog foi idealizado e é mantido por Frederico Lima, e tem como objetivo central democratizar o acesso à informação acadêmica, consolidando-se como uma ponte estratégica entre as oportunidades de publicação e a comunidade científica. Ao centralizar a divulgação de chamadas (calls for papers) para periódicos e eventos de diversas áreas do conhecimento, o projeto não apenas amplia a visibilidade do trabalho editorial das instituições, mas também otimiza a rotina de pesquisadores que buscam canais qualificados para escoar sua produção. Dessa forma, a iniciativa atua como um facilitador do fluxo de saberes, transformando a busca por editais em um processo mais ágil, organizado e acessível para acadêmicos em diferentes estágios de carreira. O acesso às informações é gratuito e sempre será!

QR Code Pix

Apoie este projeto!

Este projeto de curadoria não possui financiamento público ou privado. Se considera esta iniciativa relevante, considere realizar uma contribuição espontânea, via Pix, para ajudar a manter o blog ativo e independente.

Chave-Pix: fredlimaf2@gmail.com

Doar Bitcoin

bc1qmferzanmmpdcevhr63yu8elv5j5zn4wvw8rhvx