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A compreensão do que são as letras dentro da gramática da língua portuguesa exige, antes de tudo, uma distinção fundamental entre o universo do som e o universo da grafia. Em termos técnicos, a letra é a representação gráfica, visual e tangível de um fonema. Enquanto o fonema habita o campo da fonologia (o som abstrato que produzimos para distinguir significados), a letra pertence ao campo da ortografia e da grafética. Ao longo deste texto, exploraremos a natureza das letras, a evolução do nosso alfabeto, a complexa relação entre grafemas e fonemas e a importância dessa codificação para a estruturação da comunicação escrita.
Na gramática, definimos a letra como a menor unidade distintiva do sistema de escrita. Diferente dos sons, que são efêmeros e dependem do aparelho fonador, a letra é um símbolo convencional. O conjunto dessas letras forma o que chamamos de alfabeto ou abecedário. No caso da língua portuguesa, utilizamos o alfabeto latino, que passou por diversas reformas ao longo dos séculos para tentar espelhar, com maior ou menor fidelidade, a realidade sonora da fala.
É crucial entender que a letra não "é" o som, mas sim um sinal que "aponta" para o som. Por exemplo, quando escrevemos a letra "s", estamos utilizando um código visual que, dependendo da posição na palavra ou das letras que a rodeiam, pode representar sons completamente diferentes, como em "casa" (som de /z/) ou "sapo" (som de /s/). Essa discrepância entre a escrita e a fala é uma das características mais ricas e desafiadoras da nossa gramática.
Atualmente, o alfabeto da língua portuguesa é composto por 26 letras. Esta configuração foi consolidada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (implementado plenamente em anos recentes), que reintegrou oficialmente as letras K, W e Y. Embora estas letras sejam utilizadas principalmente em nomes próprios, siglas e estrangeirismos, sua inclusão formal foi um passo necessário para reconhecer a realidade do uso prático da língua em um mundo globalizado.
As letras dividem-se em dois grandes grupos baseados na função sonora que representam:
Vogais (A, E, I, O, U): São os núcleos das sílabas. Sem uma vogal, não existe sílaba na língua portuguesa. Elas representam sons produzidos sem obstrução significativa da passagem do ar.
Consoantes (B, C, D, F, G, H, J, K, L, M, N, P, Q, R, S, T, V, W, X, Y, Z): São sons produzidos com algum tipo de barreira (lábios, dentes, língua) à passagem do ar. Na escrita, elas orbitam as vogais para formar as unidades rítmicas da palavra.
A maior complexidade no estudo das letras reside no fato de que nem sempre há uma correspondência de um para um entre letra e som. Na língua ideal (fonética), cada letra teria apenas um som e cada som seria representado por apenas uma letra. No português, no entanto, temos um sistema que mistura critérios fonéticos com critérios históricos e etimológicos.
Diferentes letras para o mesmo fonema: O som /z/ pode ser representado pela letra z (zebra), pela letra s (asa) ou pela letra x (exame).
Uma única letra para diferentes fonemas: A letra x é o maior exemplo de polivalência, podendo soar como /ch/ (enxame), /s/ (texto), /z/ (exibir) ou /ks/ (táxi).
Letras sem valor fonético: A letra h no início de palavras (hoje, haver) não possui som algum. Ela permanece na nossa escrita por razões puramente históricas (etimológicas).
Dígrafos: Ocorrem quando duas letras são utilizadas para representar um único fonema. Exemplos clássicos são ch, lh, nh, rr, ss, qu e gu. Aqui, a unidade visual é dupla, mas a unidade sonora é simples.
Para a gramática, a letra é a base da morfologia escrita. A organização das letras permite a identificação de radicais, prefixos e sufixos. Através da visualização das letras, conseguimos diferenciar palavras homófonas (que têm o mesmo som, mas significados e escritas diferentes), como "conserto" (reparo) e "concerto" (apresentação musical). Sem a distinção gráfica das letras s e c nesses contextos, a comunicação escrita seria ambígua e dependeria exclusivamente do contexto para ser interpretada.
Além disso, as letras possuem classificações quanto à sua forma e uso: maiúsculas e minúsculas. O uso da letra maiúscula não é meramente estético; ele possui funções gramaticais e semânticas específicas, como delimitar o início de frases, destacar nomes próprios (antropônimos e topônimos) e indicar títulos de alta hierarquia ou instituições.
As letras que usamos hoje não surgiram ao acaso. Elas são o resultado de milênios de evolução, desde os hieróglifos egípcios, passando pelo alfabeto fenício e o grego, até a estabilização do alfabeto latino pelos romanos. Na língua portuguesa, a escrita foi, por muito tempo, fonética e instável. Na Idade Média, cada escriba grafava as palavras conforme sua audição ou tradição local.
Foi somente com o surgimento das primeiras gramáticas e, mais tarde, com as reformas ortográficas do século XX, que o uso das letras foi padronizado. O objetivo era criar uma norma culta que permitisse que um falante em Portugal, no Brasil ou em Angola pudesse ler e compreender o mesmo texto, independentemente do seu sotaque regional. Assim, as letras funcionam como uma "âncora" que mantém a unidade da língua portuguesa contra as forças de fragmentação que naturalmente ocorrem na fala.
Embora as 26 letras sejam os componentes principais, a gramática portuguesa utiliza sinais diacríticos para alterar ou precisar o som de certas letras. O acento agudo, o circunflexo, o grave e o til não são letras, mas acessórios que se acoplam a elas para indicar a tonicidade ou a nasalidade (como em "pã" ou "avó"). Da mesma forma, a cedilha (ç) é um sinal aplicado à letra c para indicar que ela deve soar como /s/ diante de 'a', 'o' ou 'u'. A compreensão de que a letra pode ser modificada por esses sinais é fundamental para o domínio da ortografia.
No processo de alfabetização, o domínio das letras é o primeiro degrau para a competência linguística. A criança precisa passar pela fase da "consciência fonológica", que é a percepção de que a fala pode ser segmentada em sons, e depois pela "decodificação", que é a habilidade de traduzir os símbolos visuais (letras) em sons conhecidos.
Um erro comum é confundir a letra com o seu nome. A letra "M" chama-se "eme", mas seu som (fonema) é um murmúrio labial /m/. Ensinar a gramática a partir das letras exige mostrar ao aluno que a letra é uma representação de um sistema de pensamento. Quando escrevemos, estamos desenhando ideias através de um código de 26 sinais que, combinados de infinitas formas, compõem todo o patrimônio literário e científico da nossa língua.
As letras são os pilares da gramática escrita na língua portuguesa. Elas transpõem o som para o papel, permitindo a preservação do conhecimento através do tempo e do espaço. Elas não são apenas desenhos; são convenções sociais e históricas que exigem estudo e precisão. Entender o que são as letras é compreender a mecânica fina da nossa língua: a relação sutil entre o que ouvimos, o que pensamos e o que registramos visualmente. Do "A" ao "Z", cada letra carrega consigo séculos de história latina, influências árabes, gregas e indígenas, formando o mosaico que define a identidade escrita de mais de 260 milhões de pessoas ao redor do mundo.