Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

Por que sonho com pessoas que não vejo há anos?

 Mulher sonhando com alguém do passado.

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A experiência de despertar com a lembrança de alguém que não faz parte do nosso cotidiano há décadas é um dos fenômenos que mais despertam curiosidade e, por vezes, inquietação. No senso comum, busca-se frequentemente uma explicação mística ou uma premonição; contudo, sob o rigor da teoria psicanalítica, esse evento é compreendido como uma manifestação sofisticada da dinâmica do inconsciente. Para Freud, o sonho não é um produto do acaso, mas a "via real" para o conhecimento das atividades inconscientes da mente. O aparecimento de figuras do passado remoto não é um erro de memória, mas uma exigência do trabalho do sonho (Traumarbeit), que utiliza essas imagens para dar corpo a desejos, conflitos e restos diurnos que, de outra forma, permaneceriam irrepresentáveis.

O Aparelho Psíquico e a Temporalidade do Inconsciente

Para compreender por que o inconsciente resgata figuras arcaicas, é preciso primeiro entender que, na metapsicologia freudiana, o inconsciente é atemporal. Isso significa que os processos psíquicos não estão ordenados cronologicamente e não se alteram com a passagem do tempo. Uma pessoa que foi significativa na infância ou na juventude permanece "viva" e pulsante dentro da estrutura psíquica, independentemente de sua presença física na realidade material. Quando sonhamos com alguém que não vemos há anos, o aparelho psíquico está operando sob o processo primário, onde a lógica linear é substituída pela busca imediata de satisfação de desejo.

Essas figuras do passado funcionam como representações (Vorstellungen) que se ligam a afetos específicos. Muitas vezes, a pessoa em si não é o objeto do sonho, mas sim o que ela simboliza ou o período da vida que ela representa. O sonho utiliza o que Freud chamou de restos diurnos, impressões banais do dia anterior, para "pescar" no fundo do reservatório inconsciente imagens que possam servir de molde para os desejos reprimidos. Se hoje você passou por uma situação que despertou um sentimento de desamparo, seu inconsciente pode buscar na memória a imagem de um colega de escola de trinta anos atrás, pois, naquele período, você viveu uma experiência de desamparo análoga. O sonho, portanto, promove uma regressão formal e tópica, trazendo à tona o que estava latente.

Condensação e Deslocamento: A Máscara dos Personagens

O rigor da terminologia psicanalítica nos leva aos dois mecanismos fundamentais de formação dos sonhos: a condensação e o deslocamento. É através deles que o conteúdo latente (o verdadeiro significado do sonho) se transforma no conteúdo manifesto (aquilo que lembramos ao acordar). Quando uma pessoa do passado aparece, ela frequentemente é um "personagem composto". A condensação permite que várias cadeias associativas se encontrem em um único ponto; assim, aquele antigo professor pode, na verdade, representar o seu chefe atual, seu pai e a autoridade de uma instituição, tudo fundido em uma única imagem.

Já o deslocamento explica por que o afeto que sentimos no sonho muitas vezes parece desconectado da importância da pessoa na vida real. Podemos sonhar intensamente com um conhecido irrelevante do passado porque o investimento libidinal (besetzung) foi deslocado de uma figura atual muito dolorosa ou proibida para essa figura neutra. Esse é um mecanismo de defesa do ego: para que o sonho não seja interrompido pela angústia, o censor interno disfarça o objeto real do desejo ou do conflito. Sonhar com alguém que não se vê há anos é, muitas vezes, uma estratégia de disfarce. O inconsciente utiliza essa pessoa como um "ator" que veste a pele de alguém contemporâneo, permitindo que a trama psíquica se desenrole sem despertar o sujeito pelo choque da verdade crua.

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A Função da Memória e os Desejos Infantis

A psicanálise postula que o motor de todo sonho é um desejo inconsciente, geralmente oriundo da infância. As pessoas que não vemos há anos costumam estar ligadas a fases cruciais do nosso desenvolvimento psicossexual e da formação da nossa identidade. O reaparecimento dessas figuras pode indicar uma reativação de complexos antigos, como o Complexo de Édipo ou feridas narcísicas primitivas. Se uma antiga namorada da adolescência aparece no sonho, não necessariamente o sujeito deseja aquela mulher hoje, mas sim o estado de ser que experimentava naquela época, ou talvez ela represente a primeira grande frustração amorosa que serve de modelo para as decepções atuais.

Freud discute a "hipermnésia" dos sonhos, a capacidade extraordinária do sonho de recuperar lembranças que a vigília esqueceu por completo. Essas lembranças não são meros arquivos estáticos; elas são carregadas de energia psíquica. Ao sonhar com essas pessoas, estamos lidando com o que chamamos de "infantil no homem". O sonho tenta realizar uma conciliação entre as demandas pulsionais atuais e as fixações do passado. A pessoa do passado entra no palco onírico para emprestar sua imagem a um impulso que busca expressão, servindo como um ponto de fixação onde a libido ainda se encontra, em parte, retida.

A Transferência e a Repetição no Espaço Onírico

Outro conceito vital para explicar esse fenômeno é a compulsão à repetição. O psiquismo tem uma tendência a repetir experiências traumáticas ou mal resolvidas na tentativa de dominá-las retrospectivamente. Pessoas do passado retornam nos sonhos quando algo na vida atual do sonhador "ressoa" com um conflito não liquidado que envolve aquela pessoa ou o que ela representa. Se houve um luto não processado, uma culpa não elaborada ou um desejo nunca admitido, o inconsciente trará essa figura de volta ao cenário onírico para tentar, mais uma vez, uma descarga emocional.

Na clínica psicanalítica, observamos que o sonhador muitas vezes projeta no analista figuras do passado (transferência); no sonho, o processo é similar, mas o "palco" é a própria mente. A pessoa que não vemos há anos é convocada para atuar em um drama que é estritamente atual. Ela é o receptáculo de uma transferência interna. Portanto, a pergunta psicanalítica correta não é "por que sonhei com fulano?", mas sim "o que fulano representa em mim e por que meu desejo precisou dessa máscara específica hoje?". O sonho não visa o reencontro real, mas a economia de energia psíquica, buscando manter o estado de sono através da satisfação alucinatória de um desejo que utiliza os escombros da memória como material de construção.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo Ismael de Oliveira. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Tradução de Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

NASIO, Juan-David. Como trabalha um psicanalista? Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

PONTALIS, Jean-Bertrand; LAPLANCHE, Jean. Vocabulário da Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.