Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O que Freud quis dizer com "o mal-estar na civilização" nos dias de hoje?

Pessoas atravessando uma faixa de pedestres.

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O conceito de "mal-estar", cunhado por Sigmund Freud em sua obra seminal de 1930, Das Unbehagen in der Kultur, permanece como uma das ferramentas diagnósticas mais potentes para compreender a subjetividade contemporânea. Para Freud, a civilização não é um projeto de felicidade, mas um mecanismo de renúncia pulsional. A tese central reside no antagonismo inconciliável entre as exigências das pulsões individuais e as restrições impostas pela cultura. Nos dias de hoje, esse mal-estar não desapareceu; ele se metamorfoseou, migrando de uma cultura da repressão e do dever (típica da era vitoriana) para uma cultura da performance e do gozo obrigatório.

O Antagonismo entre Pulsão e Cultura na Contemporaneidade

Para compreender o mal-estar hoje, é preciso retomar a premissa freudiana de que a cultura se baseia na sublimação e na repressão das pulsões. Freud postula que o ser humano busca primordialmente o princípio do prazer, visando a satisfação imediata e a ausência de dor. No entanto, a vida em sociedade exige que o indivíduo abra mão de parcelas consideráveis de sua liberdade pulsional, especificamente das pulsões sexuais e agressivas, em troca de segurança e previsibilidade. Essa troca gera um resíduo permanente de insatisfação, uma "culpa" inconsciente que se manifesta como mal-estar.

Atualmente, observamos uma inversão desse paradigma. Enquanto na época de Freud o Supereu operava através do "Não" (a interdição), hoje o Supereu parece operar através de um imperativo de "Sim": "Goze!", "Consuma!", "Seja produtivo!". Esse novo regime não alivia o mal-estar; ao contrário, intensifica-o. O indivíduo contemporâneo sofre não mais pela proibição do desejo, mas pela incapacidade de satisfazer a demanda infinita de autorrealização e felicidade plena vendida pelo mercado. O mal-estar manifesta-se, portanto, como um esgotamento depressivo, onde a agressividade, antes dirigida ao mundo externo ou contida pela moral, volta-se contra o próprio Eu sob a forma de autoexigência tirânica.

A renúncia pulsional clássica foi substituída por uma "desublimação repressiva". Se antes a cultura exigia que transformássemos a energia sexual em trabalho ou arte, hoje a cultura exige que transformemos a própria subjetividade em mercadoria. A agressividade humana, que Freud via como a maior ameaça à civilização, encontra canais perigosos nas redes sociais e na polarização radical, onde o "narcisismo das pequenas diferenças" é exacerbado, permitindo que o sujeito descarregue sua pulsão de morte sobre o Outro, agora transformado em inimigo absoluto.

O Supereu e a Tirania da Felicidade Obrigatória

Freud descreveu o Supereu como o herdeiro do Complexo de Édipo, a instância psíquica que internaliza as normas sociais e vigia o Ego. No mal-estar clássico, o Supereu era uma sentinela severa que punia o indivíduo por seus desejos proibidos. No contexto atual, a função do Supereu sofreu uma mutação qualitativa. Ele não mais proíbe o prazer; ele o comanda. O mal-estar contemporâneo advém do fracasso em ser "feliz", "saudável" e "bem-sucedido" de acordo com padrões inalcançáveis de estética e performance.

Essa mudança altera a dinâmica da culpa. Se o homem vitoriano sentia culpa por fazer o que era proibido, o sujeito contemporâneo sente uma ansiedade difusa por não estar fazendo "o suficiente". A angústia, que Freud diferenciava do medo por não possuir um objeto definido, torna-se a tônica da existência. A civilização contemporânea, armada com tecnologias de vigilância e algoritmos de recomendação, cria um "panóptico digital" onde a comparação constante com a vida idealizada do Outro alimenta o sentimento de insuficiência.

A agressividade, componente intrínseco da pulsão de morte (Thanatos), é reintroduzida no circuito psíquico de forma devastadora. Freud argumentava que a cultura tenta ligar a agressividade através da identificação e de laços de amor (Eros). Contudo, na era do individualismo exacerbado, esses laços tornam-se frágeis ou "líquidos". Sem a mediação de grandes narrativas coletivas ou de instituições sólidas, o Supereu torna-se ainda mais cruel, exigindo uma perfeição que o Ego, em sua fragilidade constitutiva, jamais pode alcançar. O resultado é o aumento das patologias do vazio: depressão, transtornos de ansiedade e síndromes de burnout, que são as expressões clínicas do mal-estar moderno.

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Pulsão de Morte e a Destrutividade no Tecido Social

Em "O Mal-Estar na Civilização", Freud introduz a ideia de que a tendência agressiva é uma disposição pulsional inata e independente. O progresso tecnológico, que Freud analisou com ceticismo, chamando o homem de "deus de próteses", não eliminou nossa inclinação à destruição. Pelo contrário, as próteses tecnológicas de hoje ampliaram a capacidade de alcance da pulsão de morte. O mal-estar atual está profundamente ligado à percepção de uma catástrofe iminente, seja ela ambiental, nuclear ou social.

A civilização, para se proteger da destrutividade interna, tenta homogeneizar os sujeitos. Freud observou que comunidades menores frequentemente mantêm a coesão dirigindo sua agressividade para quem está fora do grupo. Hoje, essa dinâmica é amplificada pela fragmentação digital. O ódio ao diferente, o racismo e a xenofobia são manifestações da pulsão de morte que a cultura não consegue mais sublimar efetivamente. O "mal-estar" revela-se na falência da alteridade: o Outro não é visto como um semelhante com quem posso cooperar, mas como um obstáculo ao meu gozo ou uma ameaça à minha identidade.

Além disso, a erosão do espaço público e a privatização da existência empurram o sujeito para um isolamento narcísico. Freud enfatizava que o trabalho e as relações amorosas são os principais eixos de inserção do indivíduo na realidade. Quando o trabalho se torna precarizado e as relações se tornam descartáveis, o Ego perde suas âncoras. A pulsão de morte, sem objetos externos para se ligar, desintegra o tecido social e o psiquismo individual. O mal-estar, portanto, não é apenas um sentimento de infelicidade, mas um sinal de que as defesas culturais contra a nossa própria barbárie estão falhando.

O Narcisismo e a Fragilidade dos Laços de Eros

Eros é a força que busca unir, criar unidades cada vez maiores e preservar a vida. Freud via na cultura um esforço de Eros para domar Thanatos. No entanto, o mal-estar contemporâneo sugere um enfraquecimento das forças eróticas em favor de um narcisismo secundário hipertrofiado. O sujeito atual é incentivado a se ver como uma empresa de si mesmo, onde o investimento libidinal deve retornar sempre para o próprio Ego.

Essa retração da libido para o Eu dificulta a formação de laços comunitários e amorosos duradouros. O mal-estar manifesta-se na solidão acompanhada, na dificuldade de tolerar o conflito inerente a qualquer relação com o Outro. Freud explicava que amar é, em certa medida, tornar-se vulnerável, pois significa colocar parte do nosso valor no outro. Na cultura da autossuficiência, a vulnerabilidade é vista como fraqueza, levando a uma retração defensiva que empobrece a experiência subjetiva.

A civilização contemporânea oferece paliativos para esse mal-estar: o consumo desenfreado, a medicalização da existência e o entretenimento infinito. No entanto, do ponto de vista psicanalítico, essas são tentativas de tamponar a falta constitutiva do sujeito. O mal-estar freudiano é estrutural; ele aponta para o fato de que a linguagem e a cultura nunca poderão satisfazer plenamente o desejo humano. Ao tentar ignorar esse limite, a sociedade moderna gera uma forma de sofrimento paradoxal: sofremos pela própria tentativa de eliminar o sofrimento. Reconhecer o mal-estar não como uma patologia a ser curada, mas como uma condição da existência civilizada, seria o primeiro passo para uma ética que comporte o desejo sem sucumbir à barbárie.

Referências Bibliográficas

BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras Completas, v. 18).

FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2010.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.

ROUDINESCO, Elisabeth. O paciente, o terapeuta e o Estado. Tradução de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

ZIZEK, Slavoj. O amor impiedoso (ou: sobre a crença). Tradução de Gisele Amaral. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.