Quais são as regras de plural para substantivos compostos com a palavra guarda?

A língua portuguesa é famosa por suas nuances e "pegadinhas", e o plural dos substantivos compostos certamente ocupa o topo da lista de dificuldades de muitos estudantes e escritores. Quando inserimos o elemento "guarda" nessa equação, a confusão aumenta, pois essa palavra pode desempenhar dois papéis gramaticais distintos: o de verbo ou o de substantivo.

A Regra de Ouro da Flexão de Compostos

Antes de mergulharmos especificamente no "guarda", precisamos recordar a regra fundamental para o plural de palavras compostas:

  • Palavras variáveis (substantivos e adjetivos) geralmente vão para o plural.

  • Palavras invariáveis (verbos, advérbios, prefixos) permanecem no singular.

O desafio com a palavra "guarda" é que ela é um homônimo. Ela pode ser a flexão do verbo guardar (quem guarda algo) ou o substantivo guarda (um vigilante, uma sentinela).

"Guarda" como Verbo (Invariável)

Na maioria das palavras compostas, "guarda" deriva do verbo guardar. Nestes casos, ele indica a ação de proteger, esconder ou conservar algo. Como verbos não flexionam em número dentro de substantivos compostos, apenas o segundo elemento (se for substantivo ou adjetivo) irá para o plural.

Exemplos Comuns:

  • Guarda-chuva: O objeto que guarda (protege) da chuva. No plural: Guarda-chuvas.

  • Guarda-sol: O objeto que guarda do sol. No plural: Guarda-sóis.

  • Guarda-roupa: O móvel que guarda a roupa. No plural: Guarda-roupas.

  • Guarda-comida: O local onde se guarda comida. No plural: Guarda-comidas.

  • Guarda-noturno: Cuidado aqui! "Noturno" é adjetivo. No plural: Guarda-noturnos. (Embora o "guarda" aqui possa ser interpretado como pessoa, a gramática tradicional frequentemente o trata como a ação de vigiar à noite).

Por que isso acontece?

Imagine a frase: "Eu tenho dois móveis que guardam roupas". Ao transformar isso em um substantivo composto, a estrutura congela o verbo. Não dizemos "guardas-roupas" porque não são os "guardas" que são roupas; é a função do objeto que permanece constante.

"Guarda" como Substantivo (Variável)

Neste cenário, "guarda" refere-se a uma pessoa, um profissional ou uma unidade militar/civil. Como se trata de um substantivo, ele deve seguir a regra de flexão e ir para o plural, acompanhando o segundo elemento (que geralmente também é um substantivo ou adjetivo).

Exemplos de Profissionais e Pessoas:

  • Guarda-civil: Refere-se ao profissional da guarda. Ambos são variáveis. No plural: Guardas-civis.

  • Guarda-municipal: O agente do município. No plural: Guardas-municipais.

  • Guarda-florestal: O vigilante da floresta. No plural: Guardas-florestais.

  • Guarda-noturno: (Sim, este aceita as duas formas dependendo da interpretação, mas Guardas-noturnos é amplamente aceito quando se refere aos indivíduos).

A Regra do Substantivo + Substantivo

Quando temos dois substantivos, a regra geral é que ambos variem.

  • Guarda-marinha: No plural: Guardas-marinhas.

Tabela Comparativa para Consulta Rápida

Para facilitar a memorização, veja a tabela abaixo comparando a função gramatical e o resultado no plural:

CompostoFunção de "Guarda"Classe do 2º termoPlural Correto
Guarda-chuvaVerboSubstantivoGuarda-chuvas
Guarda-roupaVerboSubstantivoGuarda-roupas
Guarda-civilSubstantivoAdjetivoGuardas-civis
Guarda-florestalSubstantivoAdjetivoGuardas-florestais
Guarda-costasVerboSubstantivo (já no plural)Os guarda-costas
Guarda-póVerboSubstantivoGuarda-pós

Casos Especiais e Curiosidades

O Caso do "Guarda-costas"

Este é um caso que gera muita confusão. A palavra "costas" já nasce no plural. Como "guarda" aqui é o verbo guardar (proteger as costas de alguém), a palavra é invariável em número.

  • Singular: O guarda-costas.

  • Plural: Os guarda-costas.

  • Nota: Dizer "os guardas-costas" é considerado incorreto pela norma culta, embora comum na fala cotidiana.

O Caso do "Guarda-marinha"

Aqui, temos um substantivo seguido de outro substantivo. Ambos flexionam porque o "guarda" é a pessoa.

  • Plural: Guardas-marinhas.

Quando o segundo termo é um verbo

Embora raro com a palavra guarda, se o segundo termo também fosse invariável, a palavra toda permaneceria invariável. No entanto, na estrutura do "guarda-X", o "X" é quase sempre um substantivo ou adjetivo.

Como Identificar na Hora da Dúvida?

Se você estiver em uma prova ou escrevendo um documento importante e surgir a dúvida, faça a seguinte pergunta mental:

"Este 'guarda' é uma pessoa ou é uma ação?"

  1. É uma pessoa? (Ex: O guarda da rua). Então é substantivo. Pluralize o "Guarda".

  2. É um objeto que faz algo? (Ex: O móvel que guarda algo). Então é verbo. Mantenha o "Guarda" no singular.

Análise Semântica e a Evolução da Língua

A gramática não é apenas um conjunto de regras frias; ela reflete como percebemos o mundo. Quando dizemos guarda-chuva, o foco está na finalidade do objeto. O objeto não é um "guarda" (pessoa), ele apenas "guarda" (protege). Por isso, não faz sentido pluralizar o verbo.

Já em guarda-noturno, há uma ambiguidade interessante. Se interpretarmos como "aquele que faz a guarda noturna" (foco na ocupação), tendemos a flexionar ambos: guardas-noturnos. Se interpretarmos como uma função abstrata, alguns gramáticos mais conservadores poderiam sugerir a invariabilidade do primeiro termo, mas a forma flexionada é a soberana para seres humanos.

Exercitando o Conhecimento

Vamos testar o raciocínio com sentenças:

  1. Os __________ (guarda-pó) dos médicos estavam sujos.

    • Raciocínio: O objeto guarda o médico do pó. É verbo.

    • Resposta: guarda-pós.

  2. Os __________ (guarda-fiscal) revistaram as bagagens.

    • Raciocínio: São pessoas (fiscais). É substantivo.

    • Resposta: guardas-fiscais.

  3. Os __________ (guarda-sol) coloriam a praia.

    • Raciocínio: São objetos que protegem do sol. É verbo.

    • Resposta: guarda-sóis.

Conclusão

Percebeu que dominar o plural das palavras compostas com "guarda" exige menos decoreba e mais análise lógica? Lembre-se que o plural é uma marca de quantidade que recai sobre aquilo que pode variar. Verbos são ações e, dentro de um nome composto, eles funcionam como um prefixo fixo. Já os substantivos, que dão nome a pessoas e seres, acompanham a multidão e vão para o plural. Até a próxima!

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Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.

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