Do ponto de vista fonético-fonológico moderno, o "rr" do português brasileiro padrão aproxima-se muito mais do "h" do inglês, embora existam dialetos e contextos específicos onde ele também flerta com o "j" espanhol.
O Sistema dos Róticos no Português
Para entender a comparação, primeiro precisamos definir o que é o "rr". No português, temos dois fonemas róticos principais:
R-brando (tepe): O som em "caro", produzido com uma rápida batida da ponta da língua no palato (alvéolos). É representado pelo símbolo .
R-forte (unidade vibrante ou fricativa): O som em "carro", "rato" ou "honra". É aqui que reside a complexidade, pois sua realização varia drasticamente entre Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo e Luanda.
Historicamente, o R-forte era uma vibrante alveolar múltipla , exatamente como o "rr" de perro em espanhol. No entanto, o português passou por uma mudança fonética chamada guturalização. O ponto de articulação recuou da ponta da língua para a parte de trás da boca (o véu palatino ou a úvula).
A Natureza do "h" Inglês: A Fricativa Glotal
No inglês, o som da letra "h" em palavras como house ou help é classificado como uma fricativa glotal surda .
Como ele é produzido?
Diferente de outros sons, o não possui uma barreira real na boca. Ele é essencialmente o som da passagem do ar pelas cordas vocais (glote) levemente estreitadas, sem vibrar, assumindo a coloração da vogal que vem a seguir. É um som "soprado", suave e sem ruído de fricção intensa.
A semelhança com o Português
No Brasil, especialmente em dialetos como o mineiro, o brasiliense e em muitas falas urbanas, o "rr" de carro é exatamente uma fricativa glotal . Quando um brasileiro diz "carro", a constrição ocorre na garganta, de forma muito fluida.
Exemplo Comparativo: Se você pedir para um americano pronunciar "hot" e para um brasileiro pronunciar a primeira sílaba de "carro" de forma isolada (o som "rr"), o ponto de articulação e a qualidade acústica serão virtualmente idênticos.
A Natureza do "j" Espanhol: A Fricativa Velar/Uvular ou
O "j" do espanhol (a jota) em palavras como jamón ou mujer é uma fricativa velar surda .
Como ele é produzido?
Diferente do "h" inglês, o "j" espanhol exige que o dorso da língua se aproxime do véu palatino (o "céu da boca" mole), criando uma passagem estreita. Isso gera uma turbulência audível. É um som "raspado". Em alguns dialetos (como no centro-norte da Espanha), essa fricção é ainda mais forte, tornando-se uvular , soando quase como um pigarro.
A semelhança com o Português
O "rr" português só se aproxima do "j" espanhol em dialetos específicos ou sob ênfase. No Rio de Janeiro ou em Portugal, é comum que o "rr" seja mais "raspado".
Se o falante pronuncia "carro" com muita força, ele gera uma fricativa velar , tornando-o idêntico ao "j" espanhol.
Em Portugal (Lisboa), o padrão é a vibrante uvular ou a fricativa uvular , o que o afasta do "h" inglês e o coloca mais próximo da "jota" espanhola forte.
Comparação Fonética Detalhada
Para decidirmos qual se aproxima mais, vamos analisar três critérios técnicos:
A. Intensidade de Fricção (Ruído)
"h" Inglês: Baixíssima fricção. É um sopro.
"rr" Português (Brasil): Geralmente baixa fricção (glotal).
"j" Espanhol: Alta fricção. É um som áspero.
Neste critério, o "rr" brasileiro médio ganha do "h" inglês. O som de "rato" no Brasil não costuma ter o "raspado" característico do espanhol, a menos que o falante esteja enfatizando a palavra.
B. Esforço Articulatório
O "j" espanhol exige uma manobra precisa da língua contra o palato. O "h" inglês e o "rr" brasileiro são articulações "econômicas". Na fala rápida brasileira, o "rr" muitas vezes quase desaparece ou se torna uma leve aspiração, exatamente como acontece com o "h" em certas variantes do inglês (como quando he se torna quase imperceptível em did he?).
C. Localização no Trato Vocal
O "h" é glotal (lá no fundo, na laringe). O "j" é velar (no meio/fundo da boca). O "rr" português flutua: no Brasil, ele tende a descer para a glote (aproximando-se do inglês); em Portugal e no Rio, ele tende a subir para o véu ou úvula (aproximando-se do espanhol).
Por que o "h" Inglês vence no Brasil?
Se considerarmos a massa de falantes do Brasil, a fonologia aponta para o "h" inglês por um motivo de percepção auditiva.
Quando um brasileiro aprende inglês, ele usa o som do seu "rr" para dizer hello. O resultado é um sotaque quase perfeito naquela consoante. No entanto, quando um brasileiro tenta falar espanhol e usa o seu "rr" para dizer jamón, o falante nativo de espanhol muitas vezes sente que o som está "fraco" ou "aspirado demais", pedindo que ele "raspe" mais a garganta.
Essa necessidade de "adicionar ruído" para transformar o "rr" português no "j" espanhol prova que, em seu estado natural/neutro, o som do português brasileiro é mais suave e glotal, portanto, mais próximo do inglês.
O Caso de Portugal e a Vibrante Uvular
É importante notar que a perspectiva muda se atravessarmos o Atlântico. Em Portugal, o "rr" é frequentemente uma vibrante uvular . Imagine o som de um "r" francês bem forte. Esse som é muito mais "físico" e ruidoso que o "h" inglês. Em Portugal, o "rr" tem uma presença acústica que o "h" inglês jamais alcança. Assim, para um português, a comparação com o "j" espanhol (especialmente a variante uvular do norte da Espanha) faz muito mais sentido do que a comparação com o sopro glotal do inglês.
Conclusão
Se analisarmos o Português Brasileiro (PB), que representa a maioria dos falantes do idioma, a resposta é categórica: o som de "rr" se aproxima muito mais do "h" em inglês.
Ambos compartilham a característica de serem sons glotais, onde o trato vocal permanece relativamente aberto e o ar flui sem grandes impedimentos. A evolução fonética do português no Brasil foi no sentido de "enfraquecer" a articulação, saindo de uma vibrante forte para uma aspiração suave.
Já o "j" espanhol mantém uma postura agressiva de fricção velar que o "rr" brasileiro só atinge em contextos de ênfase ou em dialetos específicos (como o fluminense ou o sulista em certas variações).
Portanto, para um estudante de línguas:
Use o seu "rr" para o H inglês e você será entendido perfeitamente.
Use o seu "rr" para o J espanhol e você precisará "forçar" um pouco mais a garganta para soar natural.
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Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.