Entre os mecanismos mais fascinantes e estruturados para a criação de novos termos na Língua Portuguesa está a derivação parassintética (ou parassíntese). Diferente de outros processos mais simples, a parassíntese exige uma sincronia morfológica rigorosa, sendo essencial para a transformação de substantivos e adjetivos em verbos que expressam mudança de estado ou ação.
A derivação parassintética ocorre quando um prefixo (elemento que vem antes do radical) e um sufixo (elemento que vem depois do radical) são anexados a um radical simultaneamente.
A característica definidora deste processo é a dependência mútua entre esses dois elementos. Na parassíntese, o prefixo e o sufixo não podem existir um sem o outro em torno daquele radical específico. Se você remover qualquer um deles, a palavra resultante não terá sentido ou não existirá formalmente na língua portuguesa
Vamos analisar a palavra envelhecer, derivada do adjetivo "velho":
Radical: velh-
Prefixo: en-
Sufixo: -ecer
Se tentarmos remover o prefixo, ficamos com "velhecer" (palavra inexistente). Se removermos o sufixo, ficamos com "envelhe" (também inexistente). Portanto, a união de en- + velh- + -ecer teve que acontecer ao mesmo tempo para que o novo verbo fosse formado. Isso é a parassíntese pura.
Este é o ponto onde a maioria das pessoas se confunde. Existe um processo chamado derivação prefixal e sufixal, onde também há um prefixo e um sufixo, mas eles são independentes.
Considere a palavra infelizmente:
Ela vem do radical feliz.
Temos o prefixo in- e o sufixo -mente.
Se tirarmos o prefixo, a palavra felizmente existe.
Se tirarmos o sufixo, a palavra infeliz existe.
Nesse caso, a formação não é parassintética, pois a entrada dos afixos não foi simultânea; a palavra poderia ter sido formada em etapas. Na parassíntese, não há etapas: é "tudo ou nada".
A parassíntese é o processo "queridinho" da língua portuguesa para a criação de verbos. A maioria das palavras formadas por esse método são verbos que indicam a aquisição de uma propriedade ou a entrada em um estado.
1. Verbos a partir de Adjetivos
Emudecer (e- + mud- + -ecer): tornar-se mudo.
Amoitar (a- + moit- + -ar): esconder-se na moita.
Esfriar (es- + fri- + -ar): tornar-se frio.
Adoçar (a- + doç- + -ar): tornar doce.
2. Verbos a partir de Substantivos
Ajoelhar (a- + joelh- + -ar): colocar-se de joelhos.
Enterrar (en- + terr- + -ar): colocar na terra.
Desalmar (des- + alm- + -ar): tirar a alma, tornar cruel.
Anoitecer (a- + noit- + -ecer): chegar a noite.
A parassíntese não é apenas uma curiosidade gramatical; ela cumpre um papel semântico vital. Ela permite que a língua descreva processos de transformação. Quando dizemos que alguém está "enlouquecendo", o uso da parassíntese (en- + louc- + -endo) comunica uma transição de estado que um simples sufixo não conseguiria transmitir com a mesma força.
Muitas vezes, o prefixo na parassíntese carrega um sentido de "movimento para dentro" (en-, em-) ou "aproximação/causa" (a-). Já o sufixo verbal (-ar, -er, -ir) categoriza a palavra como uma ação.
Existem palavras que desafiam o estudante casual. Por exemplo, a palavra amanhecer. Ela é claramente parassintética (a- + manh- + -ecer). No entanto, em contextos poéticos, autores podem inventar palavras que parecem parassintéticas mas são neologismos estilísticos.
Outro ponto importante é observar que a parassíntese é um processo produtivo. Isso significa que, mesmo hoje, se precisarmos criar um verbo para uma tecnologia nova ou um conceito moderno, é muito provável que utilizemos a estrutura da parassíntese para dar "corpo" a essa nova ação.
Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.