| Imagem: Reprodução/Pixabay |
A educação, pilar fundamental de qualquer sociedade que se pretenda justa, equitativa e progressista, repousa sobre os ombros de uma figura central: o professor. Contudo, nas últimas décadas, o que observamos não é o florescimento e a valorização dessa profissão essencial, mas sim uma não tão lenta e dolorosa corrosão de seu status, sua dignidade e, em última instância, sua eficácia. O tema da "falência da profissão de professor" não se refere a um colapso súbito ou total, mas sim a um processo de esgotamento e desmonte da carreira que ameaça a qualidade da educação global e, por extensão, o futuro social. Trata-se de uma crise multifacetada, silenciosa para grande parte da mídia, mas ensurdecedora para quem vive o cotidiano das salas de aula.
A palavra "falência", neste contexto, deve ser entendida em seu sentido mais amplo: não apenas a insolvência financeira (embora esta seja um fator crucial), mas a falência de um projeto social, a falência da atratividade da carreira, a falência da capacidade de reter talentos e, mais gravemente, a falência da crença da sociedade no valor intrínseco do educador. É o esvaziamento progressivo do significado e da funcionalidade de uma das mais nobres atividades humanas.
O aspecto mais visível e, talvez, o mais fácil de quantificar desta crise é a desvalorização salarial, a qual é vista, quase sempre, como uma queixa de profissionais que, aos olhos de muitos, já são bem remunerados. O que é um ledo engano. Em muitos países, notavelmente no Brasil e em nações em desenvolvimento, os salários iniciais e mesmo os de professores com anos de experiência são insuficientes para garantir uma vida digna, especialmente em comparação com outras carreiras de nível superior que exigem qualificação e dedicação semelhantes. Esta disparidade salarial tem consequências imediatas e devastadoras.
Primeiramente, ela desestimula a entrada de novos talentos, o que já vem sendo observado, sobretudo, nos últimos anos. Jovens brilhantes, com paixão pela área, frequentemente optam por carreiras mais rentáveis, por uma questão de sobrevivência financeira e de projeção de futuro. A escolha de ser professor, que deveria ser um ato de vocação e reconhecimento social, torna-se, em muitos casos, um ato de resistência ou, pior, uma opção de último recurso para quem não conseguiu inserção em outras áreas. Prova cabal dessa assertiva é a visível e gritante diminuição da procura dos jovens pelas licenciaturas.
O Programa Pé-de-Meia Licenciaturas, também conhecido como Bolsa de Atratividade e Formação para a Docência, iniciativa do Governo Federal do Brasil, coordenada pelo Ministério da Educação (MEC) e executada pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), com o objetivo de incentivar a formação de novos professores e valorizar o magistério na educação básica, embora constitua uma iniciativa interessante, nada mais é do que um paliativo à sangria da licenciaturas no Brasil, pois reflete a pouca capacidade que os órgãos públicos possuem para discutir e estabelecer meios de resolução do problema, que não se resumo a um incentivo que pensa atender e atrair jovens aos cursos com finalidade docente, mas que, no fundo, funciona como uma isca para levá-los a uma realidade que os frustrará.
Em segundo lugar, a baixa remuneração exige a famigerada "dupla jornada" ou até "tripla jornada" de trabalho. O professor é forçado a lecionar em duas ou mais escolas, privadas ou públicas, em diferentes turnos, apenas para compor um salário decente. Essa sobrecarga tem um impacto direto e catastrófico na qualidade do ensino. O profissional exausto, sem tempo para planejar aulas adequadas, corrigir trabalhos com a atenção devida, participar de formações continuadas ou simplesmente descansar e cuidar da sua saúde mental, não pode entregar o seu melhor. A qualidade da educação é a primeira vítima do cansaço crônico e da precarização laboral. Muitos podem dizer que o piso salarial, hoje em R$ 4.867,77 na data desta publicação, é excelente se comparado a outras áreas. Outro erro grave, pois os custos de ser e estar docente não se limitam a questões como cursos de atualização, despesas com deslocamento, materiais que muitas escolas não possuem e fica a cargo do professor custear, mas também relacionados a sua saúde física e mental decorrente do ambiente educacional.
Muitos profissionais que, em meio a todas as limitações de tempo e capacidade de deslocamento, conseguem cursar uma ou mais pós-graduações, mas nem isso consegue melhorar substancialmente seus salários. Olhemos para o seguinte cenário. Educadores que, além da graduação, passam, por exemplo, no mínimo mais de 7 anos entre especialização, mestrado e doutorado, verificam que, salvo o nível federal, os planos de cargos, carreiras e remunerações de estado e municípios oferecem baixas retribuições frente ao esforço de qualificação dos professores. Enquanto professores que atuam em universidade recebem gratificações que giram em torno de 75% sobre o salário em caso de formação doutoral, a grande maioria dos órgãos estaduais e municipais de educação oferecem algo por volta de 20%, o que é, além de discrepante em relação ao âmbito federal, um estimulo irrisório frente a todo o esforço necessário para se passar em uma seleção e concluir uma tese. Nesse sentido, falta um elemento fundamental, pensar, pelo menos, numa equidade de percentual de gratificações por qualificação.
Além da questão salarial, a infraestrutura das escolas, especialmente as públicas, frequentemente reflete o descaso estatal. Salas de aula superlotadas, falta de materiais básicos (que, como mencionei anteriormente, muitas vezes é custeado pelos próprios professores), ausência de apoio psicopedagógico e estruturas físicas precárias criam um ambiente de trabalho que desmotiva e, em alguns casos, beira o insalubre. O professor é, em muitas ocasiões, o único responsável por manter a ordem em um caos que é estrutural, não pedagógico.
Se o aspecto material da crise é devastador, o aspecto simbólico e social não fica atrás. Houve uma dramática erosão da autoridade e do respeito social conferido à figura do professor. Antigamente visto como um agente de saber, um guia moral e intelectual, o professor de hoje se encontra, em muitas situações, na defensiva. Essa erosão é multifatorial. A massificação da informação, impulsionada pelas mídias digitais, levou a uma falsa sensação de onisciência por parte de alunos e, mais perigosamente, de pais e responsáveis. O conhecimento, que antes era mediado e filtrado pelo professor, agora parece estar disponível com um clique, diminuindo o valor percebido da função docente como transmissora e interpretadora de saberes complexos.
A isso se soma a crescente "judicialização" das relações escolares e a pressão dos pais. Muitos educadores relatam sentir-se mais como "prestadores de serviço" que devem satisfazer o "cliente" (o aluno e sua família) do que como profissionais autônomos e especializados. Qualquer medida disciplinar ou avaliação mais rigorosa pode ser questionada, desautorizando o professor e minando sua capacidade de gerenciar a sala de aula. O medo de processos, de agressões verbais e, em casos extremos, físicas, torna o ambiente de trabalho tóxico e inseguro.
O resultado é uma inversão de papéis. O professor, que deveria ser o líder pedagógico, passa a ser o mero executor de currículos engessados e o cuidador de alunos que, em muitos casos, chegam à escola sem a mínima base de limites e respeito, responsabilidade que foi falhamente delegada à instituição de ensino. Essa sobrecarga emocional e a constante necessidade de provar o próprio valor e autoridade frente a alunos e pais minam a saúde mental do profissional, contribuindo para taxas alarmantes de burnout (esgotamento profissional) e abandono da carreira. Nesse ponto, algo que para muitos é doloroso de discutir, mas, mais do que nunca, carece de uma olhar crítico é pensar até que ponto as teorias educacionais e metodologias empregadas, sobretudo na formação, não contribuíram e continuam contribuindo para a decadência do papel do professor, o qual parece estar sendo legado ao mesmo valor dos quadros nos quais escreve: um acessório ao processo de ensino e aprendizagem. Por que o professor deixou de ser agente de ensino para se transformar no que parece ser um mero observador com limitadas capacidade de atuação?
Esse questionamento é de suma importância quando meditamos sobre o fato de que a crise da profissão docente também é reflexo, reconheçamos, da desconexão entre a formação inicial, as demandas reais da sala de aula e a formação continuada oferecida. Muitos currículos de licenciaturas permanecem ter "evoluído" para modelos teóricos distantes da realidade multifacetada e turbulenta das escolas contemporâneas. O novo professor é lançado no mercado de trabalho sem preparo adequado para lidar com o ambiente de ensino, a inclusão de alunos com necessidades especiais, o uso pedagógico das tecnologias digitais e, crucialmente, o manejo de crises e a gestão da indisciplina e da violência escolar. Há uma lacuna gritante entre a teoria acadêmica e a prática diária que esmaga o recém-formado e o leva, rapidamente, ao desânimo. Repito: precisamos discutir isso.
Adicionalmente, a rotina do professor tem sido sufocada por uma avalanche de exigências burocráticas que desviam o foco do que realmente importa: a prática pedagógica. Planilhas, relatórios detalhados, preenchimento de sistemas informatizados de gestão, reuniões administrativas incessantes e a necessidade de "dar conta" de um currículo cada vez mais extenso consomem o tempo que deveria ser dedicado ao planejamento criativo, à pesquisa de novas metodologias e ao atendimento individualizado dos alunos. O professor vem se transforma, ao que parece, em um gerente de dados e um cumpridor de protocolos, e menos em um agente transformador.
A chamada "formação continuada", que deveria ser um alicerce de renovação e apoio, muitas vezes se resume a pacotes de cursos genéricos, desinteressantes ou desconectados das necessidades práticas do corpo docente. Em vez de investir em tempo remunerado para a troca de experiências entre pares (HPCs – Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo – eficazes) ou em incentivo à especialização, o sistema impõe mais horas de atividades passivas, que aumentam a sobrecarga em vez de oferecer soluções.
A falência da profissão de professor se manifesta, por fim, na sua quase completa ausência de voz e poder político na definição das políticas educacionais. Embora sindicatos e associações ainda pareçam lutar bravamente, o establishment político e as grandes corporações, alheios ao que é o ambiente escolar, e que influenciam mais decisivamente as reformas educacionais globais, raramente colocam o professor no centro da discussão.
O discurso predominante sobre educação é cada vez mais dominado por uma retórica de mercado. A escola é vista como uma fábrica, o aluno como um produto a ser padronizado e o professor como um "recurso humano" que deve ser "otimizado" via testes de performance e indicadores quantitativos. Esta visão gerencialista desumaniza a educação e ignora sua complexidade intrínseca. O professor é o profissional que conhece as realidades e as soluções para sua sala de aula, mas suas propostas e seu conhecimento prático são sistematicamente marginalizados em favor de soluções top-down (de cima para baixo) elaboradas por especialistas que, muitas vezes, nunca pisaram em uma escola pública. Essa falta de autonomia e de reconhecimento da sua expertise é o tiro de misericórdia na motivação e no senso de pertencimento à carreira.
A falência da profissão docente, portanto, não é um diagnóstico fatalista e irreversível, mas sim o resultado previsível de um conjunto de decisões políticas, econômicas e sociais equivocadas ao longo de décadas. É a falência de um sistema que não soube ou não quis proteger seu ativo mais valioso.
A reconstrução exige uma intervenção radical, urgente e abrangente. Passa, inegavelmente, pela valorização salarial real e pela garantia de condições de trabalho dignas, incluindo salas de aula seguras e o fim da superlotação. Requer um esforço de resgate da dignidade social do professor, com campanhas públicas que reforcem seu papel crucial na sociedade e a restauração de sua autoridade pedagógica em sala de aula.
Fundamentalmente, é preciso desburocratizar a função docente, devolvendo ao professor o tempo e o foco para o planejamento e a reflexão pedagógica. A formação inicial e continuada deve ser reformulada para ser mais prática, especializada e conectada com os desafios reais das escolas.
Se a sociedade e o Estado não reconhecerem a educação como a mais crucial das prioridades e não colocarem o professor como o pilar central, remunerado e respeitado, essa "crise silenciosa" se tornará um colapso ruidoso, condenando gerações futuras a um ciclo vicioso de desinvestimento educacional, desigualdade e estagnação social. A falência da profissão de professor é, na verdade, a falência de um projeto de nação.
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Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.